Conseguir um emprego pode significar muito mais do que ter uma renda. Para pessoas em acompanhamento na rede de saúde mental, a oportunidade de trabalhar também representa autonomia, autoestima e a retomada de projetos de vida. É com esse foco que atua o Projeto de Inclusão Social pelo Trabalho (Pistrab), por meio do Programa de Geração de Trabalho e Renda do Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro (CPRJ), na Gamboa. A unidade é da Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) sob gestão da Fundação Saúde.
A iniciativa ganha destaque no Dia do Psicólogo, comemorado nesta quinta-feira (27/08), reforçando o papel da psicologia na construção de caminhos para a cidadania. O projeto utiliza a metodologia do trabalho apoiado, aproximando paciente, equipe de saúde mental e empregadores, com acompanhamento antes e depois da contratação.
“O que mais percebo é um aumento do bem-estar e da autoestima. A pessoa passa a sentir que está incluída como cidadã plena. O trabalho proporciona uma autonomia muito grande”, explica o psicólogo Bruno Naegeli, coordenador do projeto.
O acesso acontece a partir do atendimento no CPRJ. Após avaliação e manifestação do interesse em trabalhar, o paciente passa por uma entrevista com a equipe. Os participantes são divididos em dois grupos. Um é voltado para orientação trabalhista, direitos PCD e elaboração de currículo, e o outro é focado no suporte a quem já está empregado, auxiliando nas rotinas e nos desafios do ambiente corporativo.
“Apresentamos as vagas que chegam por parceiros, mas estimulamos a busca ativa. Ajudamos a montar currículo e a organizar essa procura”, explica o psicólogo.
A experiência de Vanessa Marcondes, de 34 anos, reflete esse impacto. Diagnosticada com esquizofrenia após passar dez anos sem compreender sua condição, ela encontrou no Pistrab o suporte necessário para o retorno ao mercado. Há um ano, atua como atendente em uma farmácia em Ipanema. Como parte da terapia ocupacional no grupo, ela foi incentivada pelos psicólogos a expressar em desenhos as vozes e visões decorrentes do quadro, transformando a arte em ferramenta de alívio e recuperação.
“Eu tive mais qualidade de vida, porque acreditaram em mim e me deram uma oportunidade de recomeçar. A própria arte alivia; desenhando, coloco para fora o que sinto e vejo. Com a medicação e a terapia, estou bem melhor”, relata Vanessa, que está prestes a tirar suas primeiras férias.
Para Cosma Cavalcanti, de 39 anos, contratada há três anos em um supermercado em Bonsucesso, a oportunidade mudou a sua relação com a vida e com a família.
“Significa muito ter um emprego. É ter autoestima, voltar a fazer parte da sociedade. Hoje consigo criar meu filho, fazer planos e sonhar”, comemora Cosma.
O projeto atua ainda na conscientização do mercado e no apoio ao empregador. Para o diretor-geral do CPRJ, o médico psiquiatra Francisco Sayão, conhecido como Dr. Kico, o acompanhamento contínuo dá segurança a ambas as partes.
“Quando você tem esse movimento dentro de uma unidade de saúde mental, os pacientes integrados mostram aos outros que é possível. O suporte da equipe facilita a adaptação e ajuda as empresas a vencerem o preconceito”, conclui o diretor.









