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Sete Prisioneiros, Informações sobre a vítima e Abusado no Brasil noir

Sete Prisioneiros 550×388

*Luiz Carlos Azedo

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O SUSP oferece uma base para integrar instituições e, agora, foi constitucionalizado, o que aumenta a responsabilidade do governo federal no combate ao crime organizado.

Um investigador solitário, um traficante cercado pelas contradições do morro e um jovem aprisionado pela exploração do trabalho revelam como violência, desigualdade e corrupção se articulam com a vida cotidiana e a economia. Dinheiro e agentes públicos atravessam a fronteira sinuosa entre legalidade e crime de um Brasil noir.

Publicado em 2002 pela Companhia das Letras, Informações sobre a vítima marca a estreia do ex-delegado Joaquim Nogueira no romance. Seu protagonista, Venício, está longe dos superdetetives: solitário, mora num apartamento modesto, dirige um Fusca e usa o telefone da vizinha. Investiga por conta própria o assassinato de um amigo policial, movido pela lealdade e por um senso pessoal de justiça.

Suas diligências percorrem o submundo da maior cidade do país, São Paulo (SP): um padrasto acusado de estupro, um traficante e sua mãe hipertensa, um bicheiro generoso com autoridades e funcionários da própria delegacia. Após o assassinato do colega, um personagem pergunta: “Onde é que nós estamos? A bandidagem não respeita mais a polícia?”. A fala expõe o abalo da autoridade pelas cumplicidades.

Venício gasta a sola do sapato, conversa com informantes e observa comportamentos. Nessa humanidade sem glamour, o investigador busca justiça dentro de uma engrenagem que também produz arbitrariedade e impunidade. O sistema aparece pelo avesso, com seus conflitos e sua banda podre. Sem spoiler, o problema estava dentro da polícia paulista.

Leia também: Redução da maioridade penal reacende debate sobre segurança pública

Em Abusado: o dono do morro Dona Marta, publicado em 2003, pela Record, Caco Barcellos muda o ponto de observação. Reportagem de fôlego, acompanha Juliano VP, nome usado para retratar o traficante Marcinho VP, Márcio Amaro de Oliveira, e reconstitui a vida no Santa Marta, em Botafogo, no Rio de Janeiro (RJ)..

Filho de uma família nordestina pobre, Juliano cresce entre o trabalho na birosca do pai, a disciplina violenta em casa e a sedução do dinheiro do tráfico. Os pequenos serviços abrem caminho para sua ascensão. O interesse pelos livros, as inquietações políticas e o contato com intelectuais, entre eles o cineasta João Moreira Salles, expõem as contradições de sua inserção numa organização sustentada pelo comércio de drogas e pela violência.

O Comando Vermelho, suas disputas com facções rivais e as relações com a polícia são o contexto da história. A gravação do clipe de Michael Jackson, dirigido por Spike Lee em 1996, explicitou esse poder: a segurança organizada pelo tráfico projeta o chefe local para além do morro. Num confronto, a ordem de Doente Baubau abrindo caminho para Juliano ferido, ilustra o ambiente de terror: “Sai pra rua não. Sai não. O bicho vai pegá!”.

Marcinho VP foi assassinado por asfixia em Bangu III, em 28 de julho de 2023, meses após o lançamento do livro. Não confundir com Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, chefão do Comando Vermelho, transferido de Bangu III para o presidio de segurança máxima de Campo Grande (MS) e suspeito de mandar matá-lo.

Vidas banais

E o Sete Prisioneiros? O filme de Alexandre Moratto estreou no Festival de Veneza em 2021. Christian Malheiros interpreta Mateus, um dos quatro rapazes que saem do interior paulista para trabalhar num ferro-velho na capital. Luca, vivido por Rodrigo Santoro, transforma a promessa de emprego em cativeiro. Transporte, cama e alimentação viram dívidas que o trabalho nunca consegue quitar.

A servidão por dívida, as ameaças e a cumplicidade policial fecham as saídas. O drama se aprofunda quando Mateus percebe que conquistar a confiança do explorador pode melhorar sua própria situação à custa dos companheiros. A sobrevivência torna-se instrumento de cooptação. O ferro-velho integra uma cadeia produtiva: a exploração alimenta negócios e conecta a clandestinidade à economia formal no centro do capitalismo brasileiro.

É que a economia informal que surge da “vida banal” nas cidades brasileiras, cujas políticas públicas são capturadas por grandes interesses privados, não existe desacoplada do mercado formal, lembrava o grande geógrafo Milton Santos.. O melhor exemplo é a reciclagem da latinha de alumínio: o Brasil reaproveita mais de 85% do alumínio que consome. Mas essa conexão também vale para a máfia do gás, o vendedor de água mineral e o gatonet. O roubo de celulares só existe porque há um mercado paralelo que faz parte da sua cadeia de consumo.

São dimensões complementares do mesmo problema. No Rio, a topografia, as redes locais e a receita das drogas favoreceram o controle armado de comunidades, ampliado para outras áreas e mercados, em disputa com milícias. Em São Paulo, o PCC cresceu para além das prisões e do tráfico, diversificando negócios e conexões. O epicentro da territorialização e a transformação do tráfico de drogas e das milicias em complexo mafioso está nesses dois estados.

Leia mais: Facções se espalham pelo interior e redesenham o mapa da violência no Brasil

É aí o xis do problema da implantação do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e da recriação do Ministério dedicado a coordená-lo. Instituído em 2018, na gestão de Raul Jungmann, o SUSP oferece uma base para integrar instituições e agora foi constitucionalizado, o que aumenta a responsabilidade do governo federal no combate ao crime organizado.

Reeleito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu destinar R$ 1,5 bilhão do Orçamento da União para implantação do Ministério da Segurança Pública.
Entretanto, mudar o desenho administrativo não desmancha redes criminosas nem garante a cooperação com governos que fazem oposição, cujas polícias são briosas de sua autonomia e, ao mesmo tempo, fracassam no combate à criminalidade e à corrupção. Houve, sim, redução do número de homicídios, mas a expansão do crime organizado e sua infiltração na economia formal, na administração pública e na política partidária é fato.

*Luiz Carlos Azedo, jornalista, é colunista do Correio Braziliense. A coluna deste domingo ( 8) está publicada também no Estado de Minas.

Vale a pena ler de novo:

O conto noir, o detetive durão, os negócios da política e o caso Master

Tragédia na vida banal

Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo

#Facções, #Lula, #Ministério, #PCC, #Segurança.

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