A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta quinta-feira, a quinta fase da Operação Unha e Carne para apurar indícios de um esquema de lavagem de dinheiro ligado à nova cúpula do jogo do bicho e possíveis repasses a integrantes dos Poderes Executivo e Legislativo do Estado do Rio. Na ação, os agentes cumprem três mandados de prisão preventiva e 14 de busca e apreensão. Entre os alvos estão o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) Rodrigo Bacellar, o contraventor Adilsinho — ambos já presos — e o pastor Márcio Poncio, preso pela manhã no flat do Gran Hyatt, na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. Também é alvo da operação Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador Sérgio Cabral, contra quem a PF cumpre apenas mandado de busca e apreensão.
A nova fase da operação teve início após a apreensão de listas encontradas na cabeceira da cama de Adilsinho, contendo nomes de pelo menos 20 políticos de diversos partidos e espectros ideológicos que estariam recebendo mesada de Adilsinho. Segundo os investigadores, os documentos indicariam a existência de registros relacionados a doações eleitorais e movimentações contábeis ligadas à lavagem de dinheiro.
A principal linha de apuração é a de uma possível “compra” de favores por meio do pagamento de propina a agentes políticos. As listas chamaram a atenção da Polícia Federal por apontarem possíveis repasses diretos de valores a integrantes da classe política do Estado do Rio.
Em nota, Patrícia Proetti, advogada de Marco Antônio Cabral, diz que o ex-deputado federal nega “qualquer participação em organização criminosa, lavagem de dinheiro ou o recebimento de valores de origem ilícita”. Já a defesa de Adilsinho “rechaça a alegação de pagamento de vantagens indevidas a políticos ou agentes públicos” e afirma confiar “no Poder Judiciário e no devido processo legal”.
Até a última atualização da reportagem, as defesas de Bacellar e Márcio Poncio não haviam sido encontradas.
Quem são os alvos
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Márcio Poncio é pastor e empresário do ramo do tabaco. Pai da deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade-RJ) e do cantor Saulo Poncio, ele costuma destacar nas redes sociais tanto sua atuação religiosa quanto seu papel como “patriarca da família Poncio” e membro da Igreja da Nuvem. Sua trajetória empresarial no setor de cigarros lhe rendeu o apelido de “pastor do cigarro”.
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Outro alvo é Marco Antônio Cabral, advogado, ex-deputado federal e ex-secretário estadual de Esporte do Rio de Janeiro durante o governo de Luiz Fernando Pezão. Filho do ex-governador Sérgio Cabral, foi filiado ao MDB por 18 anos, partido pelo qual iniciou sua trajetória política, e neste ano é pré-candidato para uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) pelo partido da Sarah Poncio, o Solidariedade. Também ocupou cargo na assessoria da Presidência da Alerj, na gestão de Bacellar, onde atuou na interlocução com prefeitos e vereadores.
Esta não é a primeira vez que um filho do ex-governador Sérgio Cabral tem o nome associado a investigações envolvendo Adilsinho. Em 2023, José Eduardo Neves Cabral foi alvo da Operação Smoke Free, da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, sob suspeita de atuar como operador financeiro do contraventor em um esquema de comércio ilegal de cigarros e lavagem de dinheiro.
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Já Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, é um bicheiro conhecido das autoridades de segurança cariocas. Preso em fevereiro deste ano, o contraventor controla a fabricação e a venda de cigarros ilegais na Região Metropolitana do Rio e, hoje, já expande seus negócios ilegais para outros estados.
Sua prisão foi conduzida pela operação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco/RJ), com atuação da Polícia Federal e da Polícia Civil. Ele foi capturado em uma residência em Cabo Frio, na Região dos Lagos, após trabalho de inteligência.
O ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, foi preso em dezembro na primeira fase da operação da Polícia Federal por suspeita de vazamento na operação que prendeu o deputado Thiego Raimundo dos Santos, o TH Joias. Na terceira fase da operação Bacellar foi preso novamente no âmbito do caso Ceperj, após denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
Bacellar foi secretário de Estado do governo do Rio de Janeiro e era deputado estadual até março deste ano, quando o Tribunal Superior Eleitoral cassou seu mandato pelo União Brasil. Ele estava afastado da presidência da Alerj desde dezembro, por determinação do Supremo Tribunal Federal. Nas eleições de 2018, concorreu a deputado estadual pelo Solidariedade e foi eleito com 26.135 votos.
Nesta quinta-feira, o ex-presidente da Alerj foi encaminhado a uma unidade da Polícia Federal carregando uma Bíblia King James (KJV), na edição em letra “ultragigante”, versão de luxo. Ele será transferido para um presídio federal.
Entenda a operação
Na ação desta quinta-feira, policiais federais cumprem três mandados de prisão preventiva e 14 mandados de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em endereços ligados aos investigados nas cidades do Rio de Janeiro e de São João de Meriti, na Baixada Fluminense. O STF também determinou o sequestro de bens e valores de até cerca de R$ 22 milhões.
Esta é a quinta fase da investigação conduzida pela Polícia Federal. As etapas anteriores apuraram a existência de uma suposta rede de proteção que teria permitido o vazamento de informações sigilosas sobre operações contra o Comando Vermelho (CV), comprometendo ações policiais e beneficiando integrantes da facção. Segundo os investigadores, os repasses de informações teriam prejudicado diligências e possibilitado a destruição ou ocultação de provas.
A nova fase da operação teve início após a apreensão, em poder de Adilsinho, de listas que indicariam a existência de registros relacionados a supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e movimentações contábeis ligadas à lavagem de dinheiro. De acordo com os investigadores, os documentos chamaram a atenção por apontarem possíveis repasses diretos de valores a agentes políticos do Estado do Rio.
Segundo a Polícia Federal, as investigações prosseguem com a análise do material apreendido, o rastreamento do fluxo financeiro sob investigação e a apuração da eventual participação de beneficiários, intermediários e operadores do esquema.
A operação se insere no contexto da decisão do STF no julgamento da ADPF 635/RJ, conhecida como ADPF das Favelas, que, entre outras medidas, determinou que a Polícia Federal conduzisse investigações sobre a atuação dos principais grupos criminosos violentos em atividade no estado e suas conexões com agentes públicos.
Operação Unha e Carne
As primeiras fases da Operação Unha e Carne foram deflagradas entre dezembro de 2025 e março deste ano. Na primeira etapa, Rodrigo Bacellar, então presidente da Alerj, tornou-se alvo da investigação sob suspeita de repassar informações sigilosas da Operação Zargun, que mirava o Comando Vermelho. Segundo a Polícia Federal, o principal beneficiado pelo suposto vazamento seria o ex-deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, conhecido como TH Joias, apontado como articulador político da facção e preso durante a ofensiva.
Ainda em dezembro de 2025, a investigação avançou para a segunda fase e passou a apurar a origem dos supostos vazamentos. Na ocasião, a Polícia Federal prendeu preventivamente o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2). Segundo os investigadores, o magistrado teria repassado informações sigilosas a Bacellar, que posteriormente as transmitiria a TH Joias. A PF afirma ter reunido mensagens, registros de ligações e outros elementos que apontariam para uma relação próxima entre os dois.
A terceira fase da operação foi deflagrada em março deste ano. Rodrigo Bacellar voltou a ser preso, desta vez em sua residência, em Teresópolis, na Região Serrana do Rio. A medida foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes após a cassação de seu mandato pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no âmbito do caso Ceperj, e após denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Na ocasião, a investigação passou a ser tratada também no contexto da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, por envolver possíveis impactos sobre a atuação do Estado no combate ao crime organizado.
Em maio, a quarta fase da Operação Unha e Carne ampliou o foco das investigações e passou a apurar um suposto esquema de fraudes em contratos da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro. A Polícia Federal cumpriu sete mandados de prisão e 23 de busca e apreensão na capital e nos municípios de Campos dos Goytacazes, Miracema e Bom Jesus do Itabapoana, por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo a corporação, as apurações apontaram indícios de direcionamento de contratos para aquisição de materiais, contratação de serviços e realização de obras de reforma em escolas estaduais. As empresas beneficiadas teriam sido previamente selecionadas e manteriam vínculo com a organização criminosa investigada.
Com informações do O Globo





