A Polícia Federal (PF) apreendeu cerca de R$ 500 mil em dinheiro vivo na residência de um policial civil investigado na Operação Sem Refino, deflagrada nesta sexta-feira (15) para apurar suspeitas de fraudes fiscais, ocultação patrimonial e evasão de recursos envolvendo a Refit, antiga Refinaria de Manguinhos.
O dinheiro foi encontrado em caixas de sapato durante buscas realizadas na casa do agente, no Rio de Janeiro. O policial está entre os alvos da ofensiva autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da ADPF 635, conhecida como “ADPF das Favelas”.
A operação é considerada uma das maiores já realizadas recentemente no setor de combustíveis e envolve o bloqueio de aproximadamente R$ 52 bilhões em ativos financeiros, além da suspensão das atividades econômicas das empresas investigadas.
Ao todo, a Polícia Federal cumpre 17 mandados de busca e apreensão e sete medidas de afastamento de função pública nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal.
Segundo a PF, a investigação aponta que a Refit teria utilizado uma estrutura societária e financeira complexa para promover “ocultação patrimonial, dissimulação de bens e evasão de recursos ao exterior”.
Alvos de alto escalão
Entre os alvos da Operação Sem Refino está o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL), que teve mandado de busca e apreensão cumprido em sua residência, em um condomínio na Barra da Tijuca, Zona Oeste da capital.
Castro deixou o cargo no fim de março, após renunciar ao governo estadual em meio ao julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que resultou em sua inelegibilidade por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.
Mesmo inelegível, o ex-governador vinha articulando nos bastidores uma possível candidatura ao Senado nas eleições de outubro.
Outro alvo da operação é o empresário Ricardo Magro, controlador da Refit e dono da antiga Refinaria de Manguinhos. Ele é alvo de mandado de prisão preventiva.
Magro vive atualmente nos Estados Unidos e teve o nome incluído na difusão vermelha da Interpol, mecanismo internacional utilizado para localização e prisão de foragidos.
A operação também atingiu o desembargador Guaraci de Campos Vianna, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), que foi afastado da função pública.
O magistrado já vinha sendo investigado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) por decisões consideradas irregulares em processos relacionados à recuperação judicial da refinaria.
Juliano Pasqual, ex-secretário de Fazenda do Rio, também está entre os alvos. Ele é investigado por supostamente ter atuado para beneficiar a Refit quando esteve à frente da pasta.
Histórico de investigações
A Refit já havia sido alvo da Operação Poço de Lobato, deflagrada em novembro de 2025. Na ocasião, investigadores identificaram um suposto mecanismo sofisticado de ocultação de lucros envolvendo empresas do próprio grupo, fundos de investimento e estruturas offshore.
Segundo a Receita Federal, as movimentações financeiras do grupo teriam ultrapassado R$ 70 bilhões em apenas um ano.
O grupo empresarial também aparece entre os maiores devedores de ICMS do país, liderando o ranking de débitos em São Paulo e ocupando a segunda posição no estado do Rio de Janeiro.
Além disso, a companhia está entre os maiores devedores contumazes da União em cobranças tributárias federais.
As investigações sobre a atuação financeira da empresa vêm sendo ampliadas nos últimos anos por diferentes órgãos federais, incluindo Polícia Federal, Receita Federal e Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Refinaria foi interditada
Em janeiro deste ano, a ANP decretou a interdição total da refinaria após fiscalização identificar falhas consideradas graves nos sistemas de segurança industrial, especialmente relacionados ao combate a incêndios.
Até então, a unidade operava parcialmente após uma interdição anterior aplicada em 2025, quando apenas a torre de refino havia sido proibida de funcionar.
Com a nova inspeção, a agência concluiu que a refinaria não possuía capacidade técnica adequada para responder a cenários relevantes de incêndio, o que, segundo o órgão regulador, representava “risco grave e iminente à vida de trabalhadores e terceiros”.
A situação aumentou a pressão sobre o grupo empresarial e reforçou o cerco de órgãos de fiscalização e controle sobre a operação da refinaria.
Operação amplia crise institucional
A Operação Sem Refino ocorre em meio a um ambiente de forte tensão política e institucional no Rio de Janeiro.
Atualmente, o estado é governado interinamente pelo presidente do Tribunal de Justiça do Rio, desembargador Ricardo Couto, enquanto o STF ainda analisa a forma de escolha do governador-tampão após a renúncia de Cláudio Castro.








