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Digimais, banco de Edir Macedo, comprou papéis podres em esquema similar ao Master

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Fundo Besc, administrado pela Reag, concentrava montante equivalente a 82% do patrimônio líquido do banco controlado pelo grupo Record

O Banco Digimais aplicou R$ 271,4 milhões em certificados de ações do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), documentos que, segundo o Tesouro Nacional, têm atualmente apenas valor histórico. A operação foi realizada por meio do Fundo Betel, administrado pela Reag, gestora liquidada pelo Banco Central em janeiro sob acusação de violar normas do sistema financeiro.

Dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), enviados à CPI do Crime Organizado do Senado e obtidos pela Folha de S.Paulo, indicam que o Digimais era o único cotista do Betel até janeiro de 2026. Todo o patrimônio do fundo, de R$ 271,4 milhões, estava aplicado nas chamadas cártulas do Besc.

O valor corresponde a aproximadamente 82% do patrimônio líquido do Digimais, calculado em R$ 331 milhões no último balanço. O Fundo Betel, no entanto, não é mencionado nas demonstrações financeiras do banco nem aparece como integrante do conglomerado prudencial da instituição nos registros do Banco Central.

Banco contesta registros da CVM

Procurado, o Digimais afirmou que o Betel deixou de fazer parte de seu portfólio em outubro de 2025. A versão diverge dos dados da CVM remetidos à comissão do Senado, que apontam a instituição como única cotista do fundo até janeiro deste ano.

Questionado sobre a diferença entre as informações, o banco manteve a resposta. O Digimais não esclareceu quanto teria recebido pela venda das cotas, caso a operação tenha sido efetivamente realizada.

O fundo foi criado em 24 de abril de 2025 com o nome PNG International Bank. Em 26 de junho daquele ano, houve uma emissão de cotas integralmente adquiridas pelo Digimais. Na mesma ocasião, o fundo passou a se chamar Betel.

Os papéis do Besc aparecem na carteira a partir dos dados referentes a julho de 2025 e permanecem nos registros mais recentes, de agosto de 2026. As cártulas foram adquiridas dos fundos SDG II e BB Claim, que fazem parte de uma cadeia de investimentos cujos proprietários finais seriam filhos de João Carlos Mansur, ex-controlador da Reag.

A Reag não respondeu aos questionamentos da reportagem. Mansur apresentou à Procuradoria-Geral da República uma proposta de colaboração premiada relacionada ao caso Master. A homologação aguardava análise do ministro André Mendonça, então relator das investigações no Supremo Tribunal Federal (STF), antes de a crise na Corte paralisar o andamento do caso.

Operação é semelhante a negócios do Banco Master

A aplicação do Digimais apresenta características semelhantes às operações atribuídas ao Banco Master. No caso da instituição comandada por Daniel Vorcaro, fundos ligados ao banco teriam registrado títulos do Besc, praticamente sem valor de mercado, por cifras milionárias.

Segundo a linha de investigação, a valorização artificial desses ativos aumentava o patrimônio dos fundos, que depois eram oferecidos como garantia para empréstimos. A estrutura também teria ajudado o Master a ampliar contabilmente seus ativos e continuar captando recursos por meio da emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs).

Investigadores trabalham com a hipótese de que Vorcaro, familiares e aliados tenham utilizado fundos com patrimônio inflado para retirar recursos do banco. O SDG II, que participou da cadeia de transferência das cártulas posteriormente compradas pelo Betel, também teria sido usado pelo Master para ocultar R$ 5,4 bilhões em empréstimos concedidos a empresas relacionadas à instituição.

Nas operações atribuídas ao Master, as cártulas do antigo banco catarinense foram contabilizadas por mais de R$ 850 milhões.

Digimais é investigado pela Polícia Federal

Controlado pelo grupo Record, pertencente ao bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, o Digimais é investigado pela Polícia Federal por suspeita de manipular demonstrações financeiras para esconder sua situação real e aparentar maior solidez diante dos órgãos de controle.

Entre os crimes apurados estão gestão fraudulenta, inserção de informações falsas em relatórios e realização de operações de crédito proibidas pela legislação. Um dos focos da investigação é a compra de precatórios, títulos relativos a valores reconhecidos em decisões judiciais contra o poder público.

A Polícia Federal já identificou estratégias supostamente utilizadas pelo Digimais para ampliar artificialmente seu patrimônio e, dessa forma, aumentar a capacidade de captação no mercado. O uso das cártulas do Besc, porém, ainda não havia aparecido formalmente nas investigações.

Na quinta-feira (17), o banco divulgou balanço com prejuízo de R$ 581,4 milhões no primeiro semestre de 2026.

Papéis têm apenas valor histórico

O Besc foi incorporado pelo Banco do Brasil em 2008. Na ocasião, os acionistas receberam ações eletrônicas do Banco do Brasil em substituição aos antigos certificados físicos, mas não precisaram entregar as cártulas.

Desde então, esses documentos passaram a aparecer em tentativas de fraude como se ainda representassem ações válidas do banco catarinense. Em cartilha divulgada em 2025, o Tesouro Nacional afirmou que os papéis não possuem valor financeiro.

“Nenhum ex-acionista do Besc ficou sem ter a opção de ser alçado à condição de acionista do Banco do Brasil”, afirma o órgão no documento.

Operações da Reag envolvendo cártulas do Besc são investigadas pela CVM desde 2022. A apuração examina eventuais irregularidades em negócios realizados, em 2020, por cinco fundos administrados pela antiga gestora.

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