O sequestro de ônibus por criminosos para bloquear ruas no Rio de Janeiro deixou de representar apenas prejuízos ao transporte público e passou a colocar em evidência os riscos enfrentados diariamente pelos rodoviários. Entre janeiro e outubro de 2026, pelo menos 50 coletivos foram sequestrados e utilizados como barricadas em diferentes pontos da cidade, segundo levantamentos do sindicato da categoria e registros oficiais encaminhados à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
Diante desse cenário, a Comissão de Transportes da Alerj, presidida pelo deputado Dionísio Lins (PP), pretende cobrar do governo estadual um plano emergencial de proteção aos motoristas, especialmente nos corredores de ônibus mais expostos à violência. O parlamentar também prepara uma proposta para criar um programa permanente de atendimento psicológico e psiquiátrico voltado a motoristas de ônibus, caminhoneiros e seus familiares.
A iniciativa busca enfrentar duas consequências da violência urbana sobre esses profissionais: a exposição a situações de risco durante o expediente e os possíveis impactos psicológicos provocados pela rotina de ameaças, tensão e insegurança.
Cinquenta ônibus em dez meses
Os números apresentados à Comissão de Transportes revelam que, em média, cinco ônibus foram sequestrados por mês entre janeiro e outubro deste ano para serem utilizados como obstáculos em vias públicas. Os episódios envolvem veículos retirados de circulação por criminosos, comprometendo a mobilidade urbana e colocando motoristas em situações de vulnerabilidade.
Para Dionísio Lins, a frequência dessas ocorrências exige uma resposta específica das autoridades de segurança pública. O deputado anunciou que encaminhará um requerimento ao governo estadual e às forças policiais solicitando medidas emergenciais para proteger os profissionais durante o trabalho.
“Não são apenas ônibus que estão sendo sequestrados, são trabalhadores que estão sendo sequestrados pelo medo. Ninguém aguenta trabalhar com uma arma na cabeça. São pais de família que precisam de segurança para voltar para casa. O poder público precisa agir com rigor para proteger quem move essa cidade. É preciso garantir a segurança desses profissionais”, afirmou Dionísio.
Comissão quer atendimento psicológico permanente
Além das medidas de segurança, Lins pretende apresentar um projeto para instituir o Programa de Atendimento aos Motoristas de Ônibus e Caminhoneiros no Estado do Rio de Janeiro.
A proposta prevê atendimento preferencial em unidades de saúde estaduais e conveniadas para profissionais que apresentem transtornos psicológicos associados às condições de trabalho, como ansiedade, depressão, síndrome de burnout e esgotamento físico e emocional.
O benefício também deverá contemplar familiares desses trabalhadores, com a possibilidade de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, individualmente ou em grupo.
Para ter acesso ao atendimento prioritário, o motorista deverá comprovar o vínculo profissional por meio de documentação oficial. A prioridade será aplicada aos casos em que os sintomas estiverem relacionados ao exercício da atividade.
O parlamentar argumenta que os riscos enfrentados pela categoria não se limitam aos episódios de violência. A pressão para cumprir horários, as jornadas prolongadas e as condições do trânsito também contribuem para o desgaste emocional.
“Esses profissionais são submetidos diariamente a uma rotina marcada por estresse extremo, jornadas prolongadas, trânsito intenso, pressão por horários rigorosos, exposição a situações de violência urbana e constante vigilância operacional. Tudo isso favorece o surgimento de quadros como ansiedade, depressão, esgotamento emocional e outros transtornos psíquicos”, explicou.
Saúde mental também preocupa
A proposta considera ainda os possíveis reflexos dos transtornos psicológicos sobre a segurança viária. Problemas de saúde mental não tratados podem comprometer a concentração, o tempo de reação e a capacidade de tomar decisões em situações de risco, fatores importantes para profissionais responsáveis pelo transporte de passageiros e cargas.
Nesse contexto, o acompanhamento especializado teria uma função tanto de assistência aos trabalhadores quanto de prevenção de acidentes. A intenção é estabelecer uma política permanente de acolhimento, em vez de limitar o atendimento aos momentos imediatamente posteriores a episódios de violência.








