O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro negou na terça-feira (26) qualquer “relação pessoal indevida” com o banqueiro Daniel Vorcaro após se tornar alvo de uma operação da Polícia Federal que investiga aportes bilionários do Rioprevidência em produtos financeiros ligados ao Banco Master.
Segundo a PF, cerca de R$ 3 bilhões teriam sido direcionados durante a gestão Castro para operações vinculadas ao conglomerado financeiro de Vorcaro. A investigação integra a oitava fase da Operação Compliance Zero, desdobramento da Operação Barco de Papel.
Em nota divulgada pela defesa, Castro afirmou que todos os contatos com Daniel Vorcaro ocorreram em agendas oficiais, institucionais e encontros sociais “comuns ao exercício da função pública”.
PF aponta alinhamento político
De acordo com a investigação, a Polícia Federal identificou uma série de eventos e movimentações consideradas suspeitas envolvendo a gestão do Rioprevidência.
Os investigadores afirmam que houve uma suposta atuação para viabilizar os investimentos bilionários no Banco Master, incluindo mudanças estratégicas na cúpula da autarquia previdenciária pouco antes das aplicações financeiras.
A PF sustenta que as decisões teriam sido conduzidas em desacordo com regras regulatórias e com a política de investimentos do instituto, mas alinhadas aos interesses do Banco Master.
Entre os pontos citados pela corporação estão supostas alterações deliberadas em procedimentos internos, ausência de análises técnicas e concentração excessiva de risco nos investimentos realizados.
Aportes bilionários
Segundo a investigação, os primeiros investimentos do Rioprevidência em produtos ligados ao Banco Master ocorreram entre outubro de 2023 e julho de 2024, somando cerca de R$ 970 milhões em Letras Financeiras.
Posteriormente, os aportes passaram a ser feitos por meio de fundos estruturados pelo grupo de Vorcaro. Entre dezembro de 2024 e outubro de 2025, os valores teriam alcançado R$ 2,01 bilhões.
A Polícia Federal afirma que as operações ocorreram em meio a uma aparente crise de liquidez do banco, tornando essenciais as captações junto aos regimes próprios de previdência social.
Defesa rebate acusações
A defesa de Cláudio Castro afirmou que o ex-governador jamais integrou qualquer comitê de investimentos do Rioprevidência e que não participava das decisões técnicas da carteira da autarquia.
Segundo os advogados, todos os investimentos seguiram fluxos técnicos, jurídicos e administrativos previstos pelas normas regulatórias e aprovados pelo Conselho de Administração do instituto.
A nota também afirma que, após os primeiros questionamentos envolvendo o Banco Master, o próprio Castro determinou medidas de controle, incluindo o afastamento da presidência do Rioprevidência e a abertura de procedimento interno pela Controladoria-Geral do Estado.
Além disso, a defesa sustenta que parte relevante dos recursos já foi recuperada e utilizada para garantir pagamentos previdenciários do estado.
Operação da PF
Agentes da Polícia Federal cumpriram 10 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em Brasília nesta terça-feira. A decisão foi autorizada pelo ministro André Mendonça.
Segundo a PF, ainda existem documentos sob sigilo relacionados às provas reunidas durante a investigação.
Nos bastidores políticos do Rio, a operação aumentou a pressão sobre ex-integrantes do governo estadual e ampliou o debate sobre os investimentos feitos pelo Rioprevidência durante a gestão Cláudio Castro.
Íntegra da nota da defesa de Cláudio Castro
“A defesa do ex-governador Cláudio Castro informa que ainda não teve acesso aos autos do processo na íntegra e, portanto, não pode comentar detalhes de elementos que desconhece na totalidade.
A defesa nega de forma categórica qualquer relação pessoal indevida entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro. Os contatos entre ambos aconteceram em agendas oficiais, institucionais e também em encontros sociais e de networking, comuns ao exercício da função pública e à relação com representantes do setor empresarial, sem qualquer tratativa ilícita, favorecimento ou recebimento de benefício pessoal.
A defesa esclarece ainda que Cláudio Castro não conhece o citado Ricardo apontado como suposto intermediário ou elo entre ele e Daniel Vorcaro.
Também não procede a informação de que viagens, passagens ou despesas pessoais de Cláudio Castro tenham sido custeadas por Daniel Vorcaro, assim como não houve qualquer tipo de benefício pessoal recebido pelo ex-governador.
Todos os investimentos realizados pelo Rioprevidência seguiram fluxos técnicos, jurídicos e administrativos próprios da autarquia, dentro dos limites aprovados pelo Conselho de Administração e em conformidade com as regras previstas na Resolução CMN nº 4.963/2021, em operações conduzidas com instituição autorizada e supervisionada pelo Banco Central.
Cláudio Castro jamais integrou qualquer comitê de investimentos do Rioprevidência, não participava das decisões técnicas da carteira da autarquia e nunca exerceu função operacional relacionada aos investimentos realizados pelo instituto, o que demonstra a autonomia técnica dos executivos e órgãos internos responsáveis pelas análises e deliberações.
Assim que surgiram questionamentos sobre operações envolvendo o Banco Master, o próprio ex-governador determinou a adoção imediata de medidas de apuração e controle, incluindo o afastamento da presidência do Rioprevidência e a instauração de procedimento interno pela Controladoria-Geral do Estado.
Cabe ainda ressaltar que, em dezembro de 2025, houve o resgate de aproximadamente R$ 1,4 bilhão de fundo administrado pelo Banco Master, garantindo a proteção do patrimônio previdenciário dos servidores ativos, aposentados e pensionistas do Estado do Rio de Janeiro.
As compras de Letras Financeiras do Banco Master foram encerradas ainda em 2024. Não houve novos aportes após determinação do TCE-RJ. O Fundo Arena foi integralmente resgatado em 2025, sem qualquer prejuízo ao Rioprevidência, e o Fundo Revolution teve pedido de resgate realizado pela autarquia em janeiro de 2026.
Importante destacar que todos os recursos investidos nos fundos ligados ao Banco Master que foram integralmente recuperados já foram ressarcidos ao caixa do Estado. Parte desses valores, inclusive, foi utilizada para garantir o pagamento da folha previdenciária.
A defesa reafirma sua confiança no completo esclarecimento dos fatos e no trabalho das instituições.”








