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Campanha alerta para danos das apostas online à saúde mental

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A campanha está sendo divulgada na televisão, no rádio e nas redes sociais com orientações sobre os sinais do uso problemático das plataformas e os serviços de acolhimento e tratamento disponíveis no Sistema Único de Saúde

A veiculação da Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online, iniciada pelo Ministério da Saúde no domingo, 26 de julho, reforçou o alerta para um problema que ultrapassa o endividamento. A perda de controle sobre as chamadas bets pode afetar a saúde mental, a rotina profissional, o orçamento e as relações familiares.

A campanha está sendo divulgada na televisão, no rádio e nas redes sociais com orientações sobre os sinais do uso problemático das plataformas e os serviços de acolhimento e tratamento disponíveis no Sistema Único de Saúde. O atendimento é destinado tanto às pessoas que apostam quanto aos familiares afetados.

O transtorno do jogo, também conhecido como ludopatia ou jogo patológico, é reconhecido pela Classificação Internacional de Doenças. Entre suas características estão a perda de controle, a prioridade crescente dada às apostas e a continuidade do comportamento apesar das consequências negativas. Segundo o Ministério da Saúde, com base em estimativa da Organização Mundial da Saúde, a condição afeta aproximadamente 1,2% da população adulta mundial.

O problema começa antes das dívidas

Para a psicóloga Cláudia Melo, o principal sinal de alerta não é apenas a perda de dinheiro, mas a redução da capacidade de escolher quando e quanto apostar.

“O problema nunca começa quando falta dinheiro. Ele começa quando a pessoa perde a liberdade de escolher. Quando alguém acorda pensando em apostar, passa horas acompanhando plataformas, mente para a família, compromete o orçamento e acredita que a próxima aposta vai resolver o prejuízo da anterior, já não estamos falando de lazer. Estamos falando de perda de controle” , explica.

A preocupação constante com os jogos, as tentativas frustradas de parar, a ocultação de gastos, os pedidos frequentes de dinheiro e a busca por recuperar imediatamente os valores perdidos podem indicar que a aposta deixou de ser ocasional.

Alterações no sono e no humor, irritabilidade, isolamento, queda de produtividade e afastamento de atividades familiares e sociais também merecem atenção. O Ministério da Saúde aponta ainda como sinais de risco apostar por mais tempo ou gastar mais do que o planejado.

Segundo Cláudia, a aposta pode funcionar como uma forma temporária de escapar de dificuldades emocionais.

“Na prática clínica, percebo que a aposta muitas vezes funciona como um anestésico emocional. Ela oferece alguns minutos de esperança, excitação ou fuga da realidade. Mas esse alívio é passageiro e, depois, costuma vir acompanhado de culpa, ansiedade e um desejo ainda maior de continuar apostando” , afirma.

Família deve acolher sem financiar a compulsão

Ao perceber mudanças de comportamento, familiares e amigos devem evitar acusações, humilhações ou ameaças. Uma abordagem baseada em fatos concretos tende a facilitar o diálogo.

A pior estratégia é transformar a conversa em julgamento. Quem vive uma compulsão normalmente já convive com vergonha e culpa. Quando a família acusa, a tendência é que essa pessoa se feche ainda mais” , alerta a psicóloga.

Em vez de afirmar que o apostador está destruindo a própria vida, a família pode explicar quais mudanças percebeu, como distanciamento, irritabilidade, preocupação constante ou comprometimento do orçamento.

O acolhimento, porém, não significa assumir sucessivamente as dívidas ou fornecer dinheiro para novas apostas. Para Cláudia, a família precisa oferecer apoio, incentivar a busca por tratamento e estabelecer limites que protejam os demais integrantes e não sustentem o comportamento compulsivo.

Atendimento pode começar pela UBS

De acordo com a advogada Rose Tavares, especialista em Direito à Saúde, quem percebe perda de controle sobre as apostas pode procurar inicialmente uma Unidade Básica de Saúde. A UBS realiza o acolhimento, a avaliação inicial e, quando necessário, o encaminhamento para atendimento especializado.

Os Centros de Atenção Psicossocial também oferecem acompanhamento em saúde mental por equipes multiprofissionais. Conforme orientação oficial, tanto as UBS quanto os CAPS podem ser procurados diretamente, sem necessidade de encaminhamento prévio.

“O tratamento não deve considerar apenas o ato de apostar. Também precisam ser avaliadas as consequências relacionadas ao endividamento, à perda do emprego, ao rompimento de vínculos, aos conflitos familiares e a outros transtornos emocionais associados” , explica Rose.

O SUS também disponibiliza teleatendimento sigiloso para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e seus familiares. O acesso é feito pelo aplicativo ou pela versão web do Meu SUS Digital. Na área “Miniapps”, o usuário deve selecionar “Problemas com jogos de apostas?” e responder ao autoteste.

Quando o resultado indica risco moderado ou elevado, o encaminhamento para o teleatendimento é realizado pela própria plataforma. Nos demais casos, o sistema apresenta orientações sobre os serviços da Rede de Atenção Psicossocial.

Em situações de crise, tentativa ou risco de suicídio, agressividade intensa ou incapacidade de a pessoa preservar a própria segurança, a recomendação é procurar uma UPA ou outro serviço de emergência. Quando não houver condições de deslocamento seguro, o SAMU pode ser acionado pelo telefone 192.

Planos de saúde e cobertura do tratamento

Rose explica que o transtorno do jogo não deve ser tratado pelas operadoras exclusivamente como um comportamento voluntário ou uma dificuldade financeira.

Nos planos regulamentados ou adaptados à Lei dos Planos de Saúde e que tenham cobertura ambulatorial, as consultas e sessões com psicólogos não estão sujeitas a um limite numérico anual previamente fixado. A quantidade deve observar a indicação do profissional assistente. A regra vale para doenças e condições reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde.

A cobertura concreta, entretanto, depende do tipo de contrato, da segmentação assistencial, do cumprimento de eventuais carências e da indicação clínica. Conforme o caso, o tratamento pode envolver consultas psiquiátricas, psicoterapia e acompanhamento multiprofissional. Atendimento em hospital-dia ou internação dependem também da cobertura hospitalar contratada e da necessidade demonstrada pelo profissional responsável.

“A operadora não pode simplesmente excluir o tratamento sob o argumento de que se trata apenas de um problema financeiro. O pedido precisa ser analisado conforme o diagnóstico, a prescrição, as características do contrato e as normas aplicáveis”, esclarece Rose.

A ANS estabelece prazo máximo de dez dias úteis para consulta ou sessão com psicólogo, contado após o período de carência e conforme a cobertura contratada. O prazo não garante atendimento com um profissional específico escolhido pelo paciente, mas obriga a operadora a disponibilizar uma alternativa adequada.

Caso não encontre profissional na rede ou receba uma negativa, o beneficiário deve procurar formalmente a operadora e guardar o número do protocolo. Também é importante reunir relatório médico ou psicológico, prescrição, pedido do tratamento e documentos que demonstrem a gravidade ou a urgência do quadro.

A negativa deve ser solicitada por escrito, com a justificativa apresentada pela operadora. Se o problema não for resolvido, o paciente pode registrar reclamação nos canais da ANS. A demanda poderá ser encaminhada para a Notificação de Intermediação Preliminar, mecanismo utilizado pela agência para intermediar conflitos entre beneficiários e operadoras.

Quando houver risco de agravamento, interrupção de um tratamento necessário ou necessidade urgente de internação, Rose recomenda que o paciente busque orientação jurídica para avaliar as providências cabíveis.

Autoexclusão ajuda, mas não substitui tratamento

A Plataforma Centralizada de Autoexclusão, do Ministério da Fazenda, permite bloquear de uma só vez as contas ativas nas casas de apostas autorizadas pelo governo federal. O sistema também impede novos cadastros com o CPF informado e interrompe o envio de publicidade direcionada pelas empresas participantes.

O serviço é gratuito e acessado por uma conta gov.br de nível prata ou ouro. O usuário pode escolher a autoexclusão por prazo determinado, entre um e 12 meses, ou por prazo indeterminado. As operadoras autorizadas têm até 72 horas para realizar o bloqueio.

Para Cláudia, a medida reduz o acesso impulsivo e pode ajudar a prevenir recaídas, mas deve integrar uma estratégia mais ampla de cuidado.

“Bloquear um aplicativo não bloqueia a dor emocional que levou aquela pessoa até o jogo. Se essa dor não for compreendida e trabalhada, ela pode encontrar outra forma de aparecer” , observa.

A psicoterapia pode ajudar a pessoa a reconhecer os gatilhos associados às apostas, reconstruir a capacidade de tomar decisões e desenvolver outras formas de enfrentar a ansiedade, as perdas e as frustrações.

“A compulsão por apostas tem tratamento. Quanto mais cedo a ajuda é procurada, maiores são as chances de recuperação e de reconstrução da vida financeira, emocional e familiar” , conclui Cláudia.

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