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Voto de assalariado e empreendedor acirra disputa do segundo turno

Assalariado E Empreendedor

*Luiz Carlos Azedo

Lula oferece medidas populistas a assalariados e empreendedores; Flávio procura preservar a identificação com quem considera insuficientes essas respostas do governo

A 10 dias da eleição, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro disputam os corações e os bolsos de assalariados e empreendedores. A pesquisa Quaest divulgada ontem mostra Flávio com 46% das intenções de voto e Lula com 44%, um empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos. Outros 9% declaram voto branco, nulo ou disposição de não votar — apenas 1% está indeciso. A eleição continua aberta, mas não há eleitores disponíveis em grandes proporções. Convencer alguém a trocar de candidato ou a comparecer às urnas exige mais do que reafirmar as convicções dos convertidos.

Lula procura deslocar o confronto para o terreno onde sempre nadou de braçada: o mundo do trabalho. Ao transformar o fim da escala 6 x 1 numa bandeira central, tenta substituir o plebiscito sobre seu governo por uma escolha sobre o futuro dos trabalhadores. Descanso, convivência familiar e tempo para estudar são questões compreensíveis para quem passa seis dias por semana trabalhando e ainda enfrenta longos deslocamentos. A proposta permite ao presidente apresentar uma mudança concreta, apesar de ocupar o cargo de chefe de governo e carregar o desgaste da situação.

O debate também cria dificuldades para Flávio. Não se pode dizer que é uma proposta que saiu do nada. Trata-se de uma bandeira do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), criado pelo ex-balconista de farmácia Rick Azevedo, vereador do PSol recém-eleito deputado federal. Em 2023, ele publicou um vídeo no TikTok relatando o cansaço e a rotina exaustiva da escala de seis dias de trabalho para um de descanso. O video viralizou e deu origem ao movimento.

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Ao recuar da resistência e declarar apoio com ressalvas, Flávio procura evitar que Lula monopolize uma reivindicação popular. Entretanto, precisa conciliar esse movimento com os interesses de empregadores preocupados com custos e contratação. Apoiar a proposta reduz o espaço para o ataque petista, mas transfere a disputa para sua execução: quando entraria em vigor, quais seriam as regras de transição e como preservar empregos e salários?

Com isso, a tramitação no Senado virou uma espécie de Batalha de Itararé. Em outubro de 1930, tropas revolucionárias vindas do Sul, lideradas por Getúlio Vargas e por Miguel Costa, pretendiam invadir o estado de São Paulo pela cidade de Itararé, na divisa com o Paraná. Do outro lado, forças do Exército, da Força Pública paulista e voluntários leais ao presidente Washington Luís postaram-se para conter o avanço. Pouco antes do grande combate, um golpe de Getúlio depôs Washington Luís, em 24 de outubro de 1930, e a ordem de combate foi cancelada.

O fim da escala de 6 x 1 enfrentava forte resistência da oposição no Senado, que queria adiar a votação para depois das eleições. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), decidiu colocá-la em votação nesta semana. Flávio e a bancada do PL recuaram da posição e decidiram apoiar a proposta. Não houve confronto. A proposta foi aprovada com 75 votos. Somente o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), que é general, votou contra. O avanço oferece a Lula uma oportunidade de mobilização, mas o novo direito ainda não estará assegurado para todos os assalariados. A oposição pretende mitigar a decisão ao regulamentar a nova jornada.

Jovens e idosos

Em outra frente de batalha, Flávio construiu fortes vínculos com os empreendedores, ao associar prosperidade ao esforço individual e apresentar o Estado como obstáculo. Nesse segmento, vence por larga margem. Lula tenta romper essa identificação com medidas que falam diretamente ao caixa dos pequenos negócios. O pacote anunciado nesta semana pelo Palácio do Planalto inclui proposta de transferência de até R$ 5 mil para investimentos e perdão de R$ 12,6 bilhões em dívidas de 3,6 milhões de MEIs.

Politicamente, Lula tenta superar um ponto fraco de seu governo. Defender programas sociais não basta para conquistar quem deseja deixar de precisar deles. Esse eleitor pode ter origem popular, utilizar serviços públicos e, ao mesmo tempo, rejeitar uma identidade fundada na carência. O empreendedor quer reconhecimento como alguém capaz de produzir, contratar e crescer.

É um equívoco interpretar essa aspiração apenas como adesão ideológica aos ricos ou uma traição à classe de origem. Nem todo MEI é bolsonarista, porém, em localidades com forte presença de microempreendedores, Flávio venceu por boa margem. Religião, renda, segurança e experiência de vida também influenciam esses resultados.

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Jovens e idosos atravessam essas duas frentes. Entre os primeiros, a promessa de tempo para estudar dialoga fortemente com o desejo de abrir um negócio e conquistar independência. Para os mais velhos, pesam mais a segurança da renda, o custo dos medicamentos, o endividamento familiar e a estabilidade dos benefícios. Lula tenta oferecer respostas imediatas, numa fronteira sinuosa entre medidas populistas e o abuso de poder econômico. Flávio procura preservar sua força eleitoral, adquirida com a identificação com quem considera excessivos os impostos e insuficientes as respostas do governo Lula.

Do ponto de vista objetivo, porém, Lula e Flávio precisam explicar como financiar suas promessas. É preciso demonstrar que as propostas cabem nas contas públicas — ou seja, combinar redução de tributos, equilíbrio fiscal e preservação de direitos. Assalariados e pequenos empreendedores desejam trabalhar sem viver permanentemente no sufoco.

Em quatro anos de governo, para a maioria dos eleitores, Lula não conseguiu transformar proteção em perspectiva de ascensão, o que promete agora. Flávio acerta a mão ao associar autonomia econômica à segurança pública, entretanto, carrega um passivo histórico por suas relações com as milícias.

*Luiz Carlos Azedo, jornalista, é colunista do Correio Braziliense.

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