Há 12 anos sem título (o último foi em 2013 com “A Vila Canta o Brasil, Celeiro do Mundo – Água no Feijão que Chegou Mais Um), a Vila Isabel, segunda escola a desfilar na terça-feira de carnaval (17/02), levará para a avenida o enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, uma homenagem a Heitor dos Prazeres, criador dos termos “Pequena África” e “África em miniatura” para se referir à região da antiga Praça Onze, no Centro do Rio.
Os carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora começam o enredo com uma frase de Heitor dos Prazeres: “(…) A Macumba é o ritual mais aproximado do Samba. Já está a Macumba aí.
Quanto ao Samba… a origem do Samba é a Macumba.”
Pintura, samba, Tia Ciata e Pedra do Sal
Heitor imaginava África como quilombo em festa

Daí em diante, Gabriel Bora e Leonardo Bora descrevem a trajetória de Heitor dos Prazeres nas artes como pintura e no samba. Heitor imaginava a África como um quilombo em festa “…cuja pedra angular é a Pedra do Sal e cuja capital é a Praça Onze. Com fé, mandinga e saudade, balangandãs brilhosos (as joias da nossa coroa)”.
O enredo cita ainda Tia Ciata e relata que era em sua casa o lugar da roda, onde as pessoas se reuniam para celebrar os cultos de matriz africana. “No tempo da aprendizagem”, como ele mesmo dizia, o terreiro era casa e travessa; a praça (pública), o ponto riscado – assentamento e conga”, escreveram os carnavalescos.
Um dos pioneiros na composição dos sambas
Heitor dos Prazeres nasceu no Rio de Janeiro, no dia 23 de setembro de 1898. Cantor, compositor e pintor brasileiro, foi um dos pioneiros na composição dos sambas. Heitor também participou da fundação das primeiras escolas de samba no Brasil. Entre os familiares, ele era conhecido como Lino e tinha duas irmãs: Acirema e Iraci.
Heitor morou na Praça Tiradentes e sua casa era muito frequentada. Foi lá que conheceu o estudante de medicina Noel Rosa. Reza a lenda que Noel o chamou para enfrentar um marinheiro que andava assediando sua namorada. Neste episódio, Heitor dos Prazeres estava compondo “Pierrô Apaixonado” (1936). Noel sugeriu algumas mudanças e acabou ficando como coautor da música. Ele participou ainda da formação da Estação Primeira de Mangueira com Cartola e fundou, em 1928, a União do Estácio.
Telas retratavam favelas e crianças brincando
Heitor dos Prazeres começou a exibir suas pinturas em 1937. As telas retratavam as favelas, crianças brincando e jovens dançando samba. Ele se casou com Nativa Paiva, como quem teve dois filhos: Idrolete e Heitorzinho dos Prazeres. Aos 68 anos de idade, Heitor dos Prazeres morreu em 4 de outubro de 1966 deixou um catálogo com cerca de 300 composições.
Enredo: “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”
Autores: ANDRE DINIZ, EVANDRO BOCÃO E ARLINDINHO
Intérprete: TINGA
Carnavalescos: Gabriela Haddad e Leonardo Bora
SONHEI MACUMBEMBÊ, SONHO SAMBOREMBÁ
MACUMBA É SAMBA E O SAMBA É MACUMBA
PODE ATÉ FAZER QUIZUMBA, SÓ NÃO PODE É SEPARAR
SONHO SAMBOREMBÁ, MACUMBEMBÊ
VEM DA MÃE-TERRA, FIRMOU PONTO NA BAHIA
E NA ÁFRICA PEQUENA GERMINOU PRA FLORESCER
Ê, QUILOMBO… É A PEDRA DO SAL
ARRAIGOU EM TERREIRO E QUINTAL
NO CHÃO BATIDO ASSENTOU O FUNDAMENTO
FOI O LINO DE MADRINHA
DE PADRINHO, ESPELHAMENTO
FLUTUOU NA CAPOEIRA AO PERFUME DE CIATA
NEGRO PRÍNCIPE DE OURO…
O ANJO DE ASAS DE PRATA
UM OGÃ-ALABÊ, MACUMBEIRO
A FUMAÇA DO CACHIMBO, PRETO-VELHO SOPROU
ENCANTO DA GIRA E DA RODA DE BAMBA
POESIA NA CURIMBA, BATUQUEIRO E CANTADOR
FOI DO LUNDU E DO CATERETÊ
ALINHOU NO LINHO SANTO, CAVAQUINHO NA MÃO
APAIXONADO PIERROT, AFRO-REI
A FLECHA CERTEIRA DE OXÓSSI NA CANÇÃO
RELUZ NAS ESCOLAS, EM NOEL E CARTOLA
GANHOU O MUNDO COM O MUNDO DE PAULO BRAZÃO
DE TODOS OS TONS, A VILA NEGRA É
DE TODOS OS SONS, A NEGRA VILA É
DE CHINA E FERREIRA, MOCAMBO MACACOS E PAU DA BANDEIRA
DA NOSSA FAVELA BRANCA E AZUL DO CÉU
NO BRANCO DA TELA, O AZUL DO PINCEL
VEM SER AQUARELA, PINTAR A UNIDOS DE VILA ISABEL
ORA YÊ YÊ Ô, OXUM
KABECILÊ, XANGÔ
MEUS SONHOS E TAMBORES, TINTAS E “PRAZERES”
PRA VOCÊ, HEITOR