Detentora de quatro títulos (1936, 2020, 2012 e 2014), a Unidos da Tijuca pretende quebrar o jejum de 12 anos com o enredo “Carolina Maria de Jesus”, escritora mineira, autora do clássico “Quarto de Despejo”, que faleceu em fevereiro de 1977. A escola tijucana, qu8e é a última a desfilar na segunda-feira de carnaval (16-02), pretende mostrar na a avenida a vida e a obra da escritora, uma representante na defesa das favelas e da luta pelas desigualdades sociais. O carnavalesco é o experiente Édson Pereira.
Homenageada nasceu em Minas Gerais

Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1931, em Minas Gerais. Apesar de ter pouco tempo de estudo formal, ela ficou nacionalmente conhecida ao publicar em 1960 o livro “Quarto de Despejo: diário de uma favelada”, retratando o seu dia a dia na favela do Canindé, em São Paulo.
No início da descrição do enredo, o carnavalesco Edson Pereira destaca a vida da homenageada levando ao encontro de “Bitita”, que significa “de cor preta” na língua changana do Moçambique —, nome que carrega a lembrança de sua infância nos confins do cerrado mineiro, nas entranhas de um Brasil do início do século passado.
Aprendizado com avô e seus ancestrais
Nos braços de seu avô, Benedito — o ancestral daquelas cercanias —, aprendeu os segredos que só o tempo revela no encanto do falar e do ouvir; e nas barras das saias de sua mãe, tias e madrinhas, se entrelaçou ao poder das coisas ditas, ao espírito desconhecido das letras e palavras, aquelas as quais ela desejava conhecer.
“Era esse o seu universo de menina, ainda um ramo doce de uma raiz fincada na sabedoria dos mais velhos, transmitida do ontem para o hoje nos dizeres daqueles que lhe ensinavam o espírito das coisas ditas, de tudo o que ela desejava conhecer. Bitita deu lugar à Carolina quando aprendeu que para existir aos olhos do mundo era preciso ter um nome: a sua assinatura”, destacou o carnavalesco em um dos trechos do enredo.
Livro mostra das desigualdades da sociedade
O livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada” foi publicado pela primeira vez e m 1960. A obra relata a vida cotidiana e a luta de uma mulher negra, mãe solteira de três filhos, que vivia na favela Canindé, em São Paulo. Carolina mostra a sua garra e descreve sua sobrevivência coletando papel e metal para vender para dar uma vida melhor para os seus filhos.
Na obra, Carolina Maria de Jesus descreve a necessidade de conseguir dinheiro para sobreviver catando lixo e metal. O diário relata a realidade das relações humanas das favelas, muitas vezes repletas de brigas e de solidariedade dos vizinhos. O título “Quarto de Despejo” retrata a ideia de que as favelas são locais onde são “despejados” aqueles que são indesejados ou insignificantes.
O livro denuncia diversos temas como: pobreza, miséria. discriminação racial, desigualdade de gênero, violência, crime, relações comunitárias, educação, migração, deslocamento, urbanização, política e desigualdade.
ENREDO: “Carolina Maria de Jesus”,
CARNAVALESCO: EDSON PEREIRA
COMPOSITORES: Lico Monteiro, Samir Trindade, Leandro Thomaz, Marcelo Adnet, Marcelo Lepiane, Telmo Augusto, Gigi da Estiva e Juca
Eu sou filha de uma dor
Que nasceu no interior de uma saudade
Neta de vô preto velho
Que me ensinou os mistérios
Bitita, cor que sonhou liberdade
Me chamo Carolina de Jesus
Dele herdei também a cruz
Olhem em mim, eu tenho as marcas
Me impuseram sobreviver
Por ser livre nas palavras
Condenaram meu saber
Fui a caneta que não reproduziu
A sina da mulher preta no Brasil
Os olhos da fome eram os meus
Justiça dos homens não é maior que a de Deus!
Meu quarto foi despejo de agonia
A palavra é arma contra a tirania!
Sonhei sobre as páginas da vida
Ilusões tolhidas por um sistema algoz
Que tenta apagar nossa grandeza
Calar a realeza que ainda vive em nós
Meu barraco é de madeira
Barracões são do Borel
Onde nascem Carolinas
Não seremos mais os réus
Por tantas Marias
Que viram seus filhos crucificados
Nas linhas da vida, verbo na ferida, deixei meu legado…
Meu país nasceu com nome de mulher
Sou a liberdade… Mãe do Canindé!
Muda essa história, Tijuca
Tira do meu verso a força pra vencer!
Reconhece o seu lugar… e luta
Esse é o nosso jeito de escrever!
Vocabulário da Unidos da Tijuca
Bitita – é o apelido de infância da escritora Carolina Maria de Jesus e também o nome do festival literário em Belo Horizonte, que celebra sua obra. É um termo que evoca ancestralidade, resistência e força da palavra, com raízes e línguas africanas como o xichangana (panela de barro)
Preto velho – entidade espiritual venerada na umbanda, representando os espíritos de idosos africanos escravizados no Brasil, que trazem sabedoria, humildade e conselhos. O uso de cachimbo é a fala mansa são as principais características.
Borel – referência ao Morro do Borel, comunidade da Tijuca, e à marca de cigarro que deu origem ao nome.
Canindé – Tradicional bairro localizado na região central da cidade de São Paulo. Pertence ao distrito de Pari. É considerado reduto de portugueses. No bairro está situada a sede da Portuguesa. Carolina Maria e Jesus morou no Canindé quando era favela. “Canindé” significa arara de belas penas azuis escuras e se originou do tupi (kanindé).