O incêndio em um ônibus no Túnel Rebouças, que paralisou o trânsito do Rio na semana passada, acendeu um alerta sobre as condições de segurança das galerias que cortam a cidade. Uma equipe de reportagem do jornal O Globo percorreu, ao lado de engenheiros do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-RJ), alguns dos principais túneis da capital. O diagnóstico é contundente: estruturas centenárias, essenciais para a mobilidade, precisam de modernização urgente e manutenção contínua.
Ao longo de uma série de vistorias na Zona Sul e em outras regiões, os engenheiros Miguel Fernández e Ana Carolina Tavares avaliaram oito túneis — entre eles Rebouças, Santa Bárbara, Zuzu Angel, Rafael Mascarenhas, Noel Rosa, João Ricardo, Rua Alice e Covanca. Juntos, esses corredores viários recebem uma média de 458 mil veículos por dia útil.
Túneis descumprem normas de segurança
A inspeção confirmou que todos os túneis visitados violam parâmetros básicos de segurança estabelecidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Entre as falhas mais frequentes estão ausência de recuos para veículos avariados, falta de telefones de emergência, inexistência de hidrantes pressurizados, mangueiras inadequadas, deficiência de sinalização de rotas de fuga e sistemas de ventilação e alarme insuficientes.
Um levantamento do setor de fiscalização do Crea-RJ revela que, entre 2006 e 2025, apenas 15 dos 28 túneis da cidade tiveram Anotações de Responsabilidade Técnica (ARTs) registradas. O Rebouças concentra 35 ARTs e o Santa Bárbara, dez. Já 13 túneis jamais tiveram o documento emitido, entre eles os da Rua Alice, Alaor Prata, Engenheiro Marques Porto e José Alencar.
Manutenção irregular e estruturas antigas
O engenheiro Miguel Fernández pondera que a ausência de ART não significa, por si só, risco imediato, mas indica a necessidade de atenção reforçada, sobretudo em galerias que precedem a legislação moderna. O Túnel da Rua Alice, por exemplo, data de 1886.
A prefeitura afirma que os registros são feitos por contrato, e não por túnel, gerando divergências com o Crea. O órgão federal de fiscalização, contudo, mantém a posição de que a ART deve ser emitida por obra específica.
João Ricardo é o caso mais crítico
Construído em 1919, o Túnel João Ricardo, na Gamboa, é o que mais preocupa. Escavado diretamente na rocha, sem revestimento, apresenta infiltrações ao longo de toda a extensão, erosão, fiação exposta e não possui ventilação. Em julho, registrou um incêndio.
Já no Santa Bárbara, foram identificados danos causados pela queda de trecho de muro de contenção e ventiladores fora do padrão. Os túneis Noel Rosa, Zuzu Angel e Rafael Mascarenhas não têm nenhum sistema de ventilação instalado.
Curiosamente, o Rebouças — palco do recente incêndio — está em situação estrutural considerada boa. Segundo a engenheira Ana Carolina Tavares, as placas de concreto são novas e não há infiltrações, embora ela recomende a ampliação da ventilação no sentido do Centro.
A melhor situação é a da Covanca, na Linha Amarela, onde a concessionária Lamsa instalou, no fim de 2024, extintores, sirenes, painéis de mensagem e megafonia. A previsão é que hidrantes sejam implantados em 2026.
Tecnologia como aliada da segurança
Para avançar além do básico, especialistas defendem a adoção de tecnologias modernas, já usadas em túneis internacionais. O professor Alexandre Landsman, da Coppe/UFRJ, destaca sensores inteligentes e ventilação automatizada como ferramentas essenciais.
Ele também aponta o uso de “gêmeos digitais”, softwares que simulam cenários de incêndio e infiltração e auxiliam no planejamento de intervenções.
— Modernizar não é uma dificuldade técnica. É decisão e continuidade — diz o professor.
Medidas emergenciais e fiscalização deficiente
A prefeitura reconhece a gravidade do caso do João Ricardo e promete abrir um edital emergencial para resolver os danos. Entre 2022 e 2024, foram investidos R$ 140 milhões na readequação de túneis, e mais R$ 15 milhões estão previstos para 2026. O município afirma ainda que as galerias são monitoradas por 120 câmeras, algumas com inteligência artificial para detectar fumaça e veículos parados.
No próximo dia 19, a prefeitura participará de uma reunião com o Corpo de Bombeiros, que vistoriou 25 túneis e aprovou apenas dois: Via Binário e Marcello Alencar. Preocupado com a fiscalização frágil, o vereador Pedro Duarte (Novo) apresentou, em parceria com o Crea-RJ, um projeto de lei que obriga laudos independentes a cada cinco anos.








