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Trump mantém críticas às eleições, porém anuncia que conversará com Lula

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*Luiz Carlos Azedo

A disposição para o contato abre uma possibilidade de acomodação, mas convive com declarações que alimentam a narrativa do candidato derrotado

A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos foi politicamente desastrosa aqui no Brasil. Derrotado nas urnas, o senador tinha condições de disputar o comando de uma oposição numerosa, com força no Congresso e nos estados. Ao deixar o país e divulgar uma carta na qual se proclamava “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, transformou esse patrimônio numa crise de credibilidade. O recuo, substituindo a expressão por “líder do Brasil”, agravou o constrangimento. Essa iniciativa não encontrou sustentação entre seus próprios aliados nem teve respaldo da Casa Branca.

A carta pretendia conferir dimensão histórica à saída do país. As comparações com personagens que enfrentaram ditaduras e organizaram resistências no exílio procuravam converter um problema judicial em missão política. Mas a autoproclamação produziu o efeito contrário. Em lugar de estabelecer uma liderança incontestável, obrigou os apoiadores a escolher entre acompanhar uma aventura ou preservar sua participação nas instituições brasileiras. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o próprio presidente do PL, Valdemar Costa Neto, reconheceram a eleição de Lula com um “bola pra frente”.

Todos os integrantes do grupo político de Flávio disseram ter sido surpreendidos pela fuga. Verdade ou não, depois vieram as manifestações em defesa do resultado eleitoral. Rogério Marinho, coordenador de sua campanha, tratou a carta como desabafo e reconheceu que faltavam provas para sustentar a acusação de fraude. Tarcísio de Freitas defendeu o respeito às urnas. O próprio PL reconheceu o resultado.

A tentativa de atribuir as versões contraditórias da carta a problemas na utilização de inteligência artificial, por Paulo Figueiredo, um dos mais radicais aliados de Flávio, só aumentou o desgaste. O que acabou chegando à Casa Branca. Integrantes da administração republicana consideraram inviável a pretensão de Flávio de apresentar-se como presidente eleito e pressionaram pelo recuo. Há uma diferença entre acolher um aliado e reconhecer um governo paralelo. A carta tentou atravessar essa fronteira.

Entretanto, o episódio não está encerrado. Segundo reportagem do New York Times, Jason Miller, funcionário da Casa Branca, providenciou o avião utilizado pelo senador, em articulação com Eduardo Bolsonaro. A entrada da família sob autorização migratória temporária teria ocorrido por ordem de Donald Trump. A operação, portanto, teve participação de integrantes do governo norte-americano.

Essa proteção assegura a Flávio condições para continuar atuando do exterior, embora não lhe restitua automaticamente a autoridade perdida entre os aliados. O bolsonarismo mantém expressão eleitoral, organização e capacidade de mobilização. Sua fuga pode enfraquecer o candidato, mas não deixou baratinada a oposição. Confundir essas duas coisas subestima a oposição, que continuará explorando os conflitos com o Supremo e as dificuldades econômicas enfrentadas pelo governo Lula.

Decantação

Trump age com ambiguidade: ainda não reconheceu formalmente a vitória de Lula, continua desqualificando a eleição e lança suspeitas sem apresentar provas. Ao mesmo tempo, declarou que pretende conversar com o presidente brasileiro e parabenizá-lo. A disposição para o contato abre uma possibilidade de acomodação, mas convive com declarações que alimentam a narrativa do candidato derrotado.

A orientação do Itamaraty é não estressar a relação ainda mais. Cobrar publicamente um reconhecimento poderia transformar a hesitação de Trump numa disputa pessoal, oferecendo a Flávio a centralidade que perdeu no Brasil. A legitimidade de Lula decorre das urnas e das instituições brasileiras, daí o amplo apoio internacional que sua eleição obteve. O governo pretende preservar as negociações comerciais, manter os canais diplomáticos e dar tempo para que Washington absorva a derrota de seu aliado.

O termômetro das relações será o possível encontro entre Mauro Vieira e Marco Rubio, à margem da reunião de chanceleres do G20, em Atlanta. Até agora, não há confirmação de uma bilateral. Principal interlocutor do bolsonarismo na administração Trump, Rubio representa a vertente mais ideológica da política norte-americana para a América Latina e sua aposta no fortalecimento da direita sul-americana. Uma conversa permitirá avaliar quanto espaço haverá para o pragmatismo. Se a fuga de Flávio Bolsonaro foi um fiasco político, o Itamaraty ainda opera para impedir que esse fracasso seja convertido numa crise duradoura entre os dois países.

No Congresso, enquanto bolsonaristas e petistas se digladiam, está em curso um realinhamento de forças operado pelo Centrão. Na Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) tenta manter o controle da Casa e isola o PL, que tem a maior bancada. No Senado, uma luz amarela foi acesa porque uma ala do PL resolveu tentar um acordo na eleição de Davi Alcolumbre (União-AP) em troca da aprovação de um indulto para Jair Bolsonaro, o que já foi criticado pelo senador eleito Rui Costa (PT-BA). Enquanto as conversas rolam nos bastidores do Senado, governistas e bolsonaristas sobem o tom dos ataques na Câmara. De um lado, o deputado André Janones (Rede-MG), general do “Exército de Lula; de outro, Nikolas Ferreira (PL-MG), com sua “Turma do Flávio”.

*Luiz Carlos Azedo, jornalista, é colunista do Correio Braziliense.

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