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Sônia Monteiro Chiappini – a artista que transformou a arte em encontro, acolhimento e pertencimento

Sonia Monteiro Chiappini – Foto De Alziro Xavier

* Claudina Oliveira


A cultura da Baixada Fluminense perdeu nesta semana – 31/07, uma de suas mais generosas e criativas representantes. Faleceu, a artista plástica, artesã, oficineira e produtora cultural Sônia Monteiro Chiappini, mulher que fez da arte um instrumento de transformação social, acolhimento e esperança.

Conheci Sônia em 2005, quando eu atuava como coordenadora cultural do Fórum Cultural da Baixada Fluminense. Naquele período, eu tinha a missão de mobilizar agentes culturais dos treze municípios da região para celebrar o Dia da Baixada Fluminense, instituído pela Lei Estadual nº 3.822/2002 e posteriormente alterado pela Lei Estadual nº 5.087/2007.

Ao localizar Sônia como agente cultural em Guapimirim, telefonei para convidá-la a participar desse movimento. Sugeri que promovesse ao menos uma roda de conversa com artesãos sobre a importância da data e sobre o fortalecimento da identidade cultural da Baixada. Ela aceitou imediatamente. Naquele primeiro contato já era possível perceber uma de suas maiores virtudes: a capacidade de reunir pessoas em torno de um propósito coletivo.

Compartilhávamos a convicção de que era preciso fortalecer o sentimento de pertencimento, valorizar nossos artistas, elevar a autoestima da população e combater o preconceito que, durante tantos anos, invisibilizou os talentos da periferia por falta de oportunidades e investimentos na formação cultural.

Dessa afinidade nasceram muitos anos de parceria. Juntos, participamos da divulgação do Dia da Baixada Fluminense e do fortalecimento do Prêmio Baixada, iniciativa que reconhecia pessoas comprometidas com a cultura regional. Com sua humildade característica, Sônia participou da premiação e foi reconhecida com o chamado “Oscar da Baixada”, distinção que simbolizou o respeito conquistado por sua trajetória.

Sua produção artística era vasta e marcada pela liberdade criativa. Pintava obras de inspiração naïf, abstratas e impressionistas, sempre com cores intensas e vibrantes. Produzia esculturas em papel machê, reaproveitando sucatas e materiais recicláveis, transformando aquilo que muitos descartavam em obras carregadas de beleza e significado. Para Sônia, reciclar era também ressignificar vidas.

Seu ateliê, o Recanto das Artes, em Guapimirim, tornou-se muito mais do que um espaço de criação. Era um verdadeiro ponto de encontro da cultura regional. Ali conviviam músicos, cantores, atores, artesãos, escritores, produtores culturais, professores, estudantes e moradores da comunidade. Quem chegava era recebido com afeto, incentivo e generosidade.

Uma das marcas de seu trabalho eram as oficinas das famosas “Petnecas”, brinquedos confeccionados com garrafas PET que encantavam crianças e adultos, ao mesmo tempo em que despertavam consciência ambiental e criatividade. Ao longo dos anos, essas oficinas chegaram a escolas, feiras, eventos culturais e projetos sociais, formando novas gerações de artistas e multiplicadores.

Sônia jamais desejou brilhar sozinha. Sua maior alegria era abrir espaço para outras pessoas. Organizava exposições coletivas, feiras de artesanato, feiras literárias, encontros culturais e fazia questão de levar consigo artistas e artesãos de diferentes linguagens. Seu lema, repetido incontáveis vezes, era simples e profundo: “Tudo junto e misturado.” Era uma forma de compreender a cultura como encontro, diversidade e colaboração.

Outro princípio que guiava sua caminhada era a frase “Arte em Movimento, A Arte Cura.” Essa visão tornou-se realidade quando conseguimos realizar, por meio da Lei Aldir Blanc, o projeto Arte em Movimento, que tive a alegria de elaborar e escrever. Durante três dias, Guapimirim e Magé receberam uma intensa programação artística que reuniu diferentes expressões culturais e reafirmou o poder da arte como instrumento de transformação humana.

Nos últimos anos, entretanto, Sônia enfrentou perdas profundas. A morte prematura de seu filho, Gerson Monteiro, em 2020, e o falecimento de sua mãe, em janeiro deste ano, deixaram marcas dolorosas. Ainda assim, sua história permanece inseparável da cultura que ajudou a construir.

Recentemente, seu talento voltou a ser reconhecido ao conquistar o primeiro lugar na categoria Artes Plásticas do Prêmio Talma, homenagem mais do que merecida para quem dedicou a vida inteira ao fazer artístico e à valorização da cultura popular.

Sônia Monteiro Chiappini deixa um legado que ultrapassa suas pinturas, esculturas e oficinas. Permanece na memória de todos aqueles que encontraram em seu abraço um incentivo, em suas ideias uma inspiração e em sua generosidade um exemplo de cidadania cultural.

Sua partida entristece profundamente amigos, familiares e toda a comunidade artística da Baixada Fluminense. Mas sua obra continua viva nas centenas de pessoas que formou, nas amizades que cultivou, nos projetos que inspirou e na certeza de que a arte, quando compartilhada, tem o poder de transformar pessoas, comunidades e destinos.

Hoje nos despedimos de Sônia com imensa tristeza, mas também com profunda gratidão. Sua história permanecerá como uma das mais belas páginas da cultura de nossa região.


CLAUDINA OLIVÊIRA,
Produtora Cultural

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