Crédito: Caio Gomez
*Luiz Carlos Azedo
Essa hipótese está nas cabeças dos aliados de Lula e de muitos petistas, a favor ou não da candidatura. Quem ficou na berlinda foi o ex-ministro Fernando Haddad
Na versão da peça Hamlet, de William Shakespeare, filmada para a tevê pela emissora estatal britânica BBC, o ator escocês David Tennant aparece sozinho em cena no começo do terceiro ato. Com ar de quem reflete profundamente e com grande sofrimento, murmura lentamente: “Ser ou não ser: eis a questão”. A frase foi imortalizada porque serve de analogia para todos os momentos de decisões difíceis. É a síntese de um drama humano e político ao mesmo tempo.
Nascido por volta de 1564, morto em 1616, Shakespeare ( escreveu A Tragédia de Hamlet por volta de 1599. Grande autor reconhecido em seu próprio tempo, sua peça mais longa foi aclamada desde a primeira encenação. Outras frases muito conhecidas de Hamlet também ganharam vida própria na peça. Por exemplo: “Há algo de podre no reino da Dinamarca” e “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que as sonhadas por sua filosofia”. Quando analisamos a conjuntura política, na qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é candidato à reeleição, todas se aplicam ao contexto.
A história é a seguinte: o fantasma do rei da Dinamarca pede a seu filho, o príncipe Hamlet, que vingue sua morte. Ele diz ao filho que quem o matou foi seu próprio irmão, tio de Hamlet e atual rei, Claudius, agora casado com a mãe de Hamlet, Gertrude. À beira ou fingindo insanidade, Hamlet reflete sobre a vida e a morte, e planeja matar seu tio. Claudius também faz planos para matar o sobrinho. A peça culmina com um duelo no qual Claudius e Hamlet morrem. Assim, Fortinbras, o príncipe da Noruega, toma o poder na Dinamarca.
Interpretar Hamlet é o sonho de todos os grandes atores. Laurence Olivier, Ian McKellen, Ralph Fiennes, Keanu Reeves e Kenneth Branagh foram alguns. No Brasil, Sérgio Cardoso, Walmor Chagas, Wagner Moura e Thiago Lacerda. Eis a sequência da reflexão sobre a vida e a morte que desafiou a todos: “Será mais nobre suportar na mente/ As flechadas da trágica fortuna,/ Ou tomar armas contra um mar de escolhos/ E, enfrentando-os, vencer?”.
O monólogo expressa a obsessão de Hamlet com uma questão moral. Sua alma seria condenada à danação eterna ou estaria considerando cometer suicídio? O mundo de Hamlet não tem vida, é cheio de desesperança, corrupto e fedido. Valeria a pena viver nesse mundo? As dúvidas são existenciais: “É melhor ficar vivo ou dar fim à minha vida? É mais nobre enfrentar o que a vida coloca no meu caminho ou dar um fim a mim mesmo.
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Essas indagações, em sentido figurado, talvez estejam passando pela cabeça de Lula. A especulação faz sentido diante do cenário eleitoral, por causa da grande rejeição do presidente da República e de comentários que rondam o Palácio do Planalto e já emergem nos bastidores do PT desde quando o jornalista e ex-assessor Ricardo Kotscho, em 12 de abril passado, analisou a possibilidade de Lula não disputar a reeleição em 2026. Kotscho destacou como algo atípico o fato de o presidente ter admitido, publicamente, dúvidas sobre sua candidatura.
Aviões de carreira
Na sua avaliação, Lula demonstrou insegurança sobre a candidatura, em razão de pesquisas desfavoráveis. “Lá pelas tantas, assim de passagem, como não quer nada, em meio a muitos outros assuntos, Lula deixou a dúvida no ar. Falou que só vai tomar uma decisão em junho, na convenção do PT. Como assim? O que aconteceu? Acordou de mau humor, falou brincando ou está achando que uma vitória ficou mais difícil?” Ao abordar a falta de um nome competitivo claro no PT caso Lula decida não concorrer, Kotscho acabou abrindo o debate sobre quem poderia assumir o lugar.
Kotscho destacou que esse comportamento não é uma característica de Lula, ao contrário: “Quando as pesquisas eram desfavoráveis, era sempre ele quem procurava animar os companheiros e militantes, o primeiro a acordar e o último a ir dormir, achando que ainda daria para virar o jogo, como aconteceu em 1994, depois do tsunami do Plano Real”. É aí que a jornalista Mônica Bergamo, colunista do UOL, na avaliação de Kotscho, avançou duas casas: “Para surpresa dela e dos leitores, os homens do dinheiro grosso, que não perdem tempo, até já tinham ido sondar Fernando Haddad sobre a possibilidade de ele entrar no lugar de Lula, como aconteceu em 2018, quando o amigo estava preso.”
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Essa hipótese está nas cabeças dos aliados de Lula e de muitos petistas, a favor ou não da candidatura à reeleição. Quem ficou na berlinda foi o ex-ministro da Fazenda, que disputou a eleição contra Jair Bolsonaro, em 2018, com um bom desempenho, considerando que fez três semanas de campanha e chegou ao segundo turno. Haddad deixou a pasta a pedido de Lula, contra a vontade, para ser candidato a governador de São Paulo. Desde então, nas conversas com empresários e aliados para discutir a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, o petista passa pelo constrangimento de ser perguntado sobre essa possibilidade e negá-la. Mas “há mais coisas no ar do que os aviões de carreira”, como diria o Barão de Itararé.
*Luiz Carlos Azedo, jornalista, é colunista do Correio Braziliense.
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