O sequestro de Dom Adriano Hipólito, bispo da Diocese de Nova Iguaçu ( 1966-1994), completa hoje 50 anos. Sergipano, poeta e músico, Dom Adriano combateu o Esquadrão da Morte na Baixada Fluminense durante o regime militar, defendia os pobres e pregava a justiça social. Ele criou a Comissão de Justiça e Paz da Diocese, incentivou os mutirões habitacionais e os movimentos populares, como o Movimento Amigos dos Bairros (MAB) para pressionar as autoridades a resolver problemas básicos das comunidades.

Na noite de 22 de setembro de 1996, Dom Adriano foi sequestrado por seis homens armados pouco depois de deixar a Diocese. Encapuzado pelos seus algozes, foi agredido e humilhado, pintado de vermelho com tinta spray e deixado, nu , num matagal em Jacarepaguá, Zona Oeste, no Rio.. O automóvel dele (um Fusca) foi levado pelos agressores até as proximidades da sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), no bairro da Glória, e destruído por uma explosão.


A ação contra Dom Adriano Hipólito foi amplamente atribuída a agentes da linha-dura militar e a grupos paramilitares como a Aliança Anticomunista Brasileira (AAB), embora o inquérito oficial jamais tenha punido os responsáveis. O atentado gerou choque e revolta nacional e internacional, resultando em manifestações de apoio e cartas de solidariedade enviadas de vários países da Europa e das Américas. Apesar das ameaças de morte e da violência sofrida, Dom Adriano recusou-se a deixar a Baixada Fluminense, prosseguindo com sua linha pastoral progressista e de denúncia das violações de direitos humanos. Igrejas da Diocese de Nova Iguaçu foram pichadas em 1979 e padres eram ameaçados e perseguidos por grupos extremistas em Nova Iguaçu.
Natal com os operários
Nas semanas do Natal era hábito de Dom Adriano visitar os operários da Mitra Docesana e com eles almoçar. Meu sogro, Inocenzo Guidone, um italiano de Castel di Sangro, uma pequena comuna da Região d’Abruzzo, era um deles. Estive várias vezes com Dom Adriano: nas missas de crisma, na igreja de São Judas Tadeu, em Heliópolis, Belford Roxo, nas reuniões com lideranças comunitárias, no Sumaré, como jornalista do GLOBO no dia seguinte ao sequestro e quando ele foi visitado em Nova Iguaçu pelo Prêmio Nobel da Paz de 1980, o argentino Adolfo Pérez Esquivel. Tivemos encontros casuais também em Viena ( Áustria) e em Colônia antes da reunificação da Alemanha, onde o líder da Igreja Católica na Baixada falava sobre Direitos Humanos.

A ação contra Dom Adriano Hipólito foi amplamente atribuída a agentes da linha-dura militar e a grupos paramilitares como a Aliança Anticomunista Brasileira (AAB), embora o inquérito oficial jamais tenha punido os responsáveis. O atentado gerou choque e revolta nacional e internacional, resultando em manifestações de apoio e cartas de solidariedade enviadas de vários países da Europa e das Américas. Apesar das ameaças de morte e da violência sofrida, Dom Adriano recusou-se a deixar a Baixada Fluminense, prosseguindo com sua linha pastoral progressista e de denúncia das violações de direitos humanos.
Por tudo isso, o Nova Iguassu Online, portal de notícias que fará 10 anos em 2027, foi atrás de personagens que conviveram com Dom Adriano Hipólito dentro e fora das igrejas da Diocese de Nova Iguaçu. O “Profeta da Baixada”, como é lembrado até hoje, 30 anos após sua morte, ganhou um memorial em sua homenagem e empresta seu nome a uma rua, a um viaduto e a uma escola na cidade que não esquece do seu bispado.
O testemunho de Dom Waldir Calheiros, bispo de Volta Redonda durante a ditadura militar, 20 anos após o sequestro de Dom Adriano Hipólito. Dom Waldir morreu em dezembro de 2013

Que impacto causou na Igreja o sequestro de Dom Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu? Dom Adriano vivia na Baixada Fluminense, dormitório desarrumado e sem condições de vida humana, localidade sofrida, desconhecida pelos governantes, manchada pela difamação de certa imprensa e apresentada como cidade violenta. A região encontrou em Dom Adriano um pastor solidário à sua gente e à sua sorte, de posição firme nas denúncias sobre o desprezo e a injustiça dirigidos contra Nova Iguaçu e sua população, que ele repetia sempre ser de gente boa, trabalhadora e sacrificada. As pequenas crônicas n’A Folha, semanário da diocese de Nova Iguaçu, relatam os problemas de sua gente sofredora.
Havia muita afinidade entre nós, e algumas coincidências. Éramos ambos nordestinos. Ele havia sido auxiliar em Salvador e eu no Rio. Tomou posse como bispo de Nova Iguaçu em 1966 e, dias depois, em 8 de dezembro, fui empossado em Volta Redonda. O sequestro aconteceu em 22 de setembro de 1976, aproximadamente às 19 horas, e repercutiu fortemente na Igreja, principalmente junto ao episcopado. Na época, Dom Alfonso Trujillo, secretário do Conselho Episcopal Latino-Americano, estava de passagem pelo Rio e foi visitar Dom Adriano, quando este deixou a residência de Dom Eugênio, no Sumaré. O núncio apostólico, Dom Carmine Rocco, também foi ao seu encontro. A imprensa noticiou o fato sobejamente. Mas não se pode desprezar a provocação dos extremistas da linha-dura do Exército, que agiram para agravar a situação de conflito entre a Igreja e o governo. No final do sequestro, explodiram o Fusca do dom Adriano na frente da sede da CNBB. Não aceitavam uma igreja do lado dos pobres. Mesmo que a Igreja não quisesse fazer a opção pelos pobres, os pobres fizeram a opção pela Igreja e a obrigaram a fazer a opção por eles. Em conversa com o senhor, Dom Adriano chegou a revelar detalhes das violências a que foi submetido? Adriano me confidenciou uma coisa muito interessante, que não chegou a dizer à imprensa. Quando foi preso e jogado dentro do carro, depois que libertaram a namorada do sobrinho, colocaram-lhe um capuz na cabeça e começaram a se referir ao seu trabalho com palavrões, chamando-o de subversivo, de agitador, disso e daquilo. Naquele momento, disse-me ele que pensou: ‘Ah, já sei por que estão me sequestrando.
É por causa do meu trabalho com os pobres’. E concluiu: ‘Quando percebi isso, fui invadido por uma grande tranquilidade.’ Acrescentou que, depois de muito circularem, os sequestradores fizeram-no descer do carro, despiram suas roupas e pintaram todo o seu corpo com spray vermelho. Ao sentir o líquido sobre o corpo, ele pensou: ‘Estão ungindo meu corpo para depois tocar fogo’. Já aceitando o desfecho, que felizmente não ocorreu. Afinal, por volta de 21:30h, o deixaram nu, pintado de vermelho e de mãos amarradas, em um lugar ermo nas proximidades de Campo Grande. Ele sofreu algum tipo de violência física? Ele relatou que socaram muito o seu sobrinho, também sequestrado, que dirigia o carro. Adriano pediu que não fizessem aquilo. Com ele, só diziam: ‘Cale a boca comunista, subversivo. Quem trabalha com comunista também é comunista’. Contou também que, mesmo com as duas mãos amarradas, à margem da estrada, fez sinal para um carro que passou, mas foi inútil. Até que viu um homem a pé, chamou-o, e esse o atendeu.
Enquanto conversavam, um carro aproximou-se, e o motorista, ao ver aquele homem sentado, com as mãos amarradas, diminuiu a marcha e perguntou quem era. Adriano explicou o que acontecera e disse: ‘Eles tiraram a minha roupa. Preciso pelo menos de uma calça para vestir’. O motorista morava perto, levou-o à sua casa, deu-lhe uma roupa, e com ele foi até a delegacia. Em sua declaração à imprensa, Dom Adriano disse que os sequestradores haviam mandado um recado:
Dom Gílson Andrade, atual bispo da Diocese de Nova Iguaçu: ” O significado deste fato atravessa o tempo”

Há fatos que não podem ser esquecidos; merecem não apenas ser lembrados, mas também ser avaliados pela marca que eles deixaram na história de um povo, de uma cidade e de uma diocese. Penso que este peso se deve também ao sequestro de D. Adriano Hipólito que, precisamente hoje, completa 50 anos. O significado deste fato atravessa o tempo. Fala de um momento obscuro da nossa história, aliás, até hoje precisa ser lançada luz sobre o que aconteceu… Mas, ao mesmo tempo, é revelador da força do testemunho de um homem que não temeu pela própria vida, mas realizou aquele ideal de pastor de que fala Jesus: “o bom pastor dá a vida por suas ovelhas”. D. Adriano, imbuído pelos ideais do Evangelho e pelo amor ao povo “sofrido e amado” da Baixada, como ele gostava de dizer, levantou a voz em defesa dos direitos humanos. Seu gesto despertou na consciência de muitos o empenho por uma luta desarmada e desarmante em prol dos esquecidos e abandonados, e superou as instâncias eclesiais, alcançando homens e mulheres de boa vontade que se dedicaram e se dedicam até hoje em ações concretas a fim de garantir os direitos fundamentais dos que não têm vez nem voz.
Dom Luciano Bergamim, Bispo Emérito de Nova Iguaçu:

“Ele permanece sempre um exemplo do Bom Pastor”
Hoje é dia de agradecer a Dom Adriano por seu amor pelos pobres e pelas causas que defendeu, principalmente a justiça social. Dom Adriano foi martirizado e seus agressores nunca foram identificados. Dom Adriano foi guiado por Jesus e seu Evangelho, dentro de uma forte espiritualidade franciscana e conciliadora.
Por tudo isso, ele permanece sempre um exemplo vivo do Bom Pastor que dá a vida por seu povo, sobretudo pelos mais humildes, os mais necessitados.
Padre Renato Chiera, 84 anos, fundador da Casa do Menor São Miguel Arcanjo:
Dom Adriano deixou um grande amor ao povo, aos pobres, ao Reino

Cheguei no Brasil nos tempos difíceis da ditadura militar. Cheguei em 1978. Dom Adriano já tinha sido sequestrado. Quando, em 79, explodiu a bomba na catedral de Santo Antônio,a igreja de Santa Rita, Cruzeiro do Sul, onde eu era pároco ,foi pichada com grandes escritas em vermelho: Fora os comunistas do Brasil.
Aqui è Brasil , não é Rússia. O vosso Cristo não é o nosso Cristo.
Dom Adriano era uma referência segura que nos orientava e estimulava e dava segurança naqueles momentos difíceis, mas também inspiradores .
Dom Adriano era símbolo de uma igreja viva , perto do povo ,a defesa da vida em todas as suas dimensões.
Fazia isso pela fé ,pelo amor a Jesus Cristo ,ao povo e ao Reino. Ele dizia : os pobres me converteram.
Foi mestre e testemunha que me inspirou e animou na minha caminhada pastoral; me deixou um grande amor a Jesus ,ao Reino ,ao povo e aos pobres.
Antônio Lacerda, Coordenador do Arquivo da Diocese de Nova Iguaçu, vizinho de Dom Adriano no Parque Flora e ex-seminarista, fonte obrigatória para a história da Baixada e da Igreja Católica na região.

Destaco dois trechos do sermão de Dom Adriano na catedral de Santo Antônio, proferido após o seu sequestro, que me impressionaram bastante. São trechos da concelebração do ato de desagravo, em 3 de outubro de 1976.
Continuar
“Daí porque, meus irmãos, nós devemos continuar.
Uma vez que não procuramos prestígio, não procuramos posição, não procuramos vantagem; uma vez que a vida da Igreja é realmente doar-se oportuna e inoportunamente; uma vez que a vocação da Igreja é servir os irmãos e ser para todos os homens um sinal de esperança — nós temos de continuar. Como ouvimos na leitura dos Atos dos Apóstolos: Não podemos deixar de falar daquilo que vimos e ouvimos.
E se a Igreja — repito: a Igreja que não é apenas o bispo ou o padre, mas todos os cristãos engajados, — se nós, portanto, temos muitas vezes que dizer a verdade, uma verdade que dói e fere uma verdade que em primeiro lugar deve ser aplicada a nós mesmos, assim fazemos sempre para construir a paz, sempre na certeza de que é possível construir um mundo melhor; sempre na certeza de que o céu começa aqui no mundo, enquanto nós nos dispomos a servir os irmãos.
Esperanças
Minha esperança para Nova Iguaçu, esta comunidade à qual quero muito bem, com a qual me identifiquei desde o primeiro dia. São dez anos agora de atividade pastoral na Baixada Fluminense. E eu digo que continuo marcado com o mesmo amor do primeiro dia, da primeira hora, quando prometi no primeiro encontro com a comunidade: “Eu peço a Deus morrer aqui, servir sempre aqui”. Continua firme esta minha vontade, este meu desejo.
Eu gostaria que estes acontecimentos fossem o princípio de um esforço de unidade, fossem um pouco de cimento para a construção de uma comunidade mais viva, mais responsável. Eu gostaria que todos nós nos sentíssemos responsáveis pela sorte dos irmãos. Não mais uma inchação social, mas uma comunidade verdadeira que sente, que procura dar de si o melhor para crescer, para se desenvolver, para resolver os seus problemas. Com maior largueza de vistas. Com maior generosidade. Coração mais aberto, coração mais sensível para as necessidades dos irmãos.
De certo, alguma coisa de grande vai sair daqui desta comunidade de Nova Iguaçu, tão sacrificada, não só de Nova Iguaçu, mas de toda a Baixada Fluminense, em caminho para um Brasil melhor, em caminho para uma Igreja mais atuante.
Deus lhes pague. “
Jorge Gama, advogado, deputado federal por Nova Iguaçu na década de 70

UMA CIDADE ABALADA
22 de setembro de 1976. Nova Iguaçu acordou diante de uma notícia que abalaria profundamente a cidade e repercutiria em todo o país: o sequestro de Dom Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu e uma das mais expressivas lideranças católicas de seu tempo.
Vivíamos, especialmente na Baixada Fluminense, os anos sombrios do regime militar. O medo fazia parte do cotidiano. E a notícia do sequestro de Dom Adriano rapidamente ultrapassou os limites da Diocese de Nova Iguaçu, ganhando as páginas dos maiores jornais do Brasil e do exterior.
Dom Adriano Hipólito tinha uma característica que o aproximava extraordinariamente do povo: sua simplicidade. Aliada a um carisma incomum, essa simplicidade transformava sua presença em uma poderosa referência para milhares de pessoas.
À frente da Diocese de Nova Iguaçu, desenvolveu uma pastoral que despertava a população para as reivindicações sociais e políticas de uma região marcada pela pobreza, pela desigualdade e pela ausência de direitos básicos. Suas missas e as mobilizações que liderava atraíam multidões.
Um dos grandes dramas daquele período era a crise habitacional. Milhares de ações de despejo atingiam moradores dos diversos conjuntos habitacionais da Baixada Fluminense. Dom Adriano enfrentou o problema com coragem, capacidade de orientação e diálogo, ajudando a construir soluções que contribuíram para enfrentar aquela grave questão social e habitacional, algumas delas posteriormente incorporadas a políticas mais amplas no país.
Por isso, seu sequestro não pode ser visto como um episódio isolado. Assim como a explosão da bomba na Catedral de Santo Antônio, em Nova Iguaçu, ele integra um período de violência política que marcou profundamente a nossa história. São acontecimentos que não podem ser esquecidos.
Relembrá-los não significa permanecer preso ao passado. Significa compreender o preço que uma sociedade paga quando o medo tenta substituir a liberdade, quando a violência pretende calar aqueles que defendem direitos e quando a intolerância se transforma em instrumento político. Foram anos difíceis. Anos de medo. E nós, na Baixada Fluminense, convivemos lado a lado com Dom Adriano Hipólito, testemunhando sua coragem, sua simplicidade e sua extraordinária capacidade de estar ao lado do povo.
Quase cinco décadas depois, seu nome permanece vivo na memória de Nova Iguaçu. Seu legado não pertence apenas à Igreja ou à Diocese. Pertence à história da cidade, da Baixada Fluminense e à luta pela democracia e pela justiça social.
Dom Adriano Hipólito ficou para a eternidade.








