*Luiz Carlos Azedo
Tarifas atingem interesses econômicos, porém sanções contra autoridades alcançam instituições, e ameaças de intervenção militar afetam a segurança regional
Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump escalaram as tensões entre ambos ao discursarem na Assembleia Geral da ONU, nessa terça-feira, porém sem citar um ao outro. Sem que ambos se encontrassem nos bastidores, como já era esperado, suas falas compuseram uma troca de recados na qual os Estados Unidos e o Brasil estão em polos opostos. Lula afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”; Trump advertiu que os Estados Unidos usarão seu poder militar para proteger seus interesses no Hemisfério Ocidental.
Entre a defesa da soberania brasileira e a reafirmação da força americana, há uma tensão que vai muito além de uma divergência entre presidentes. Lula chegou a Nova York a menos de duas semanas da eleição. Diante dos demais países, declarou que o pleito brasileiro é “transparente e competitivo”, mas advertiu contra “interesses estrangeiros contrários ao país” que tentariam desvirtuar o debate público. A mensagem ficou ainda mais clara quando afirmou: “A democracia brasileira pertence aos brasileiros”.
Foi uma resposta às pressões de Washington sobre autoridades nacionais e ao temor, no governo, de novas medidas americanas em plena campanha. Trump não falou do Brasil. Sua linguagem, porém, explica a apreensão no governo Lula. Ao apresentar as ações dos Estados Unidos na Venezuela como prova de que não aceitará ameaças no hemisfério, prometeu empregar, “se necessário”, seu poderio militar. Também equiparou cartéis de drogas ao Estado Islâmico.
Lula defendeu o combate ao crime organizado, mas situou a segurança do país no âmbito da soberania brasileira. O perigo iminente está no alcance que Washington pretende dar à própria autoridade na região. Os discursos também foram opostos no comércio. As tarifas americanas continuam em negociação, enquanto paira a possibilidade de novas sanções contra integrantes do Supremo Tribunal Federal. Para Lula, qualquer concessão feita sob pressão terá repercussão eleitoral. Medidas econômicas e punições individuais tornaram-se instrumentos da política externa de Trump em relação ao Brasil. Sem uma reunião bilateral prevista, os dois usaram a tribuna da ONU para marcar posições perante seus públicos e perante o mundo.
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Há precedentes de interferência direta dos Estados Unidos no Brasil, mas é preciso guardar a devida distância entre a desconfiança e os fatos. No começo dos anos 1960, a política externa independente do governo João Goulart entrou em choque com prioridades de Washington na Guerra Fria. Em março de 1964, quando houve o golpe militar que destituiu Jango, os Estados Unidos chegaram a preparar apoio logístico e naval às forças contrárias a Goulart, na operação conhecida como “Brother Sam”.,
Distância regulamentar
A situação brasileira de hoje é outra; a lembrança histórica ajuda a compreender por que declarações sobre o uso da força no continente são recebidas com gravidade. Outra crise ocorreu em 1977, já sob a ditadura de Ernesto Geisel. O governo de Jimmy Carter pressionou o Brasil por causa das violações de direitos humanos e do acordo nuclear com a Alemanha Ocidental. Brasília denunciou uma afronta à sua soberania e rompeu o acordo bilateral de assistência militar firmado em 1952. A comparação revela uma diferença decisiva: naquela ocasião, Washington cobrava uma ditadura por violações de direitos; agora, a tensão envolve uma eleição em uma democracia e a possibilidade de punições americanas a autoridades brasileiras.
Até agora, o ponto mais sensível são as tarifas impostas às exportações brasileiras para os Estados Unidos. Tarifas atingem interesses econômicos, porém sanções contra autoridades alcançam instituições e ameaças de intervenção militar no entorno do Brasil afetam a segurança regional. Tudo isso na reta final do processo eleitoral. Para se fortalece, Lula empunha a bandeira da soberania, mas a narrativa de que o Brasil não combate ao crime organizado como deveria, escolhido por Trump para justificar sua ofensiva hemisférica, mira uma área na qual o governo não deu resposta à altura necessária.
Tanto Lula como Trump conhecem o peso político das palavras que escolheram. Lula falou para afirmar que o resultado das urnas não será decidido fora do país. Trump falou para declarar que considera o hemisfério uma área de interesses vitais americanos. Nenhum chamou o outro pelo nome. Ambos falam também para seus respectivos públicos internos. Na Assembleia Geral, quando cada um expôs sua visão sobre quem pode decidir os destinos da América Latina, o antagonismo entre ambos se tornou muito visível.
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Nos bastidores da assembleia da ONU, Lula evitou a aproximação do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. A cena ocorreu após o discurso de Donald Trump. Rubio tentou se aproximar de Lula, que estava acompanhado do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. O secretário de Estado chegou a acelerar o passo, mas não conseguiu alcançar o presidente brasileiro. Na sequência, dirigiu-se ao chanceler. Rubio mantém um tom crítico ao governo Lula. No Planalto, há especial incômodo com a aproximação de integrantes do movimento Maga (Make America Great Again) com familiares e aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
*Luiz Carlos Azedo, jornalista, é colunista do Correio Braziliense.
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