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Quaresma e fraternidade

Fotos: Diocese de Nova Iguaçu / Divulgação.

*Dom Gílson Andrade

Com a Quarta-Feira de Cinzas tem início a Quaresma que, no calendário litúrgico da Igreja Católica, é um período celebrativo direcionado ao núcleo da fé cristã, a Páscoa do Senhor e, ao mesmo tempo, um apelo forte à escuta da Palavra de Deus em vista de uma conversão profunda de vida. A oração, a penitência e a prática da caridade são os elementos “facilitadores” desse processo de reforma pessoal e comunitária.

A relação pessoal com Deus, quando autêntica, necessariamente transborda no ambiente em que se vive. Jesus disse que veio “atear o fogo” do seu amor nesta terra e que almejaria muito que esse fogo já estivesse aceso (cf. Lc 12, 49). O empenho pessoal e comunitário por uma sociedade mais justa e fraterna é consequência, sobretudo, do amor de Deus nos corações.

Por isso, a Igreja Católica no Brasil, há mais de 60 anos, celebra neste período a Campanha da Fraternidade que mobiliza todas as Dioceses do Brasil. Com ela pretende-se despertar o espírito comunitário e cristão na busca do bem comum, fomentando iniciativas que fortaleçam a fraternidade entre as pessoas.

O tema escolhido este ano para a Campanha da Fraternidade é o da “fraternidade e moradia” e o lema, retirado do evangelho de São João, é “Ele veio morar entre nós” (1, 14). Trata-se de uma temática importante no contexto da sociedade brasileira, pois muitas vezes a falta de moradia digna é invisibilizada ou tratada apenas como problema econômico, quando é também uma crise ética e humana, impactando saúde, educação, trabalho e dignidade humana. Colocar a moradia dentro da reflexão quaresmal ajuda a Igreja e a sociedade a conectar as realidades sociais com o ensinamento social cristão sobre dignidade, justiça e bem comum, motivando a caridade e a ação transformadora estruturada. A Campanha da Fraternidade não tem a pretensão de resolver sozinha um problema estrutural do país. Ela chama à consciência cristã e à ação solidária, inspirando indivíduos e comunidades a se comprometerem com a transformação social.

A Campanha da Fraternidade 2026 recorda que a falta de moradia não é apenas um problema social, mas uma ferida na fraternidade e na dignidade da pessoa humana, imagem e semelhança de Deus!Quem não tem casa: não tem segurança, não tem intimidade e, muitas vezes, não tem reconhecimento social, tornando-se “invisível”.

Na Diocese de Nova Iguaçu a Campanha vem acompanhada de uma proposta de resgate da memória do testemunho de doação de vida da Ir. Filomena Lopes, membro da família religiosa das Irmãs Franciscanas de Bonlanden, da comunidade do IESA, morta em 7 de junho de 1990. Este ano completaria 80 anos!

Irmã Filomena escolheu entrar nas casas precárias, nas periferias, nas situações de abandono, não como visitante, mas como irmã que sofre a dor do irmão. Ao tocar a precariedade com que viviam famílias inteiras que não tinham moradia digna, mobilizou inúmeras pessoas e instituições a fim de buscar resposta. Liderou um mutirão para construção de casas e de infraestrutura no bairro da Viga, a fim de socorrer os ribeirinhos que todos os anos sofriam com as inundações do rio Botas. O seu amor por Jesus a comprometeu de forma radical na doação de sua vida até à morte, tendo sido assassinada em consequência do bem que sempre incomoda os que querem deixar as coisas do jeito que estão.

Irmã Filomena não se limitou a falar de fraternidade,
mas a construiu com as próprias mãos. Nos mutirões populares, organizava a construção de casas para quem nada tinha, carregava cimento, coordenava a comunidade, partilhava o esforço, espalhava a força da fé.
Acreditava que o Evangelho precisava tornar-se parede, teto, porta. Sua vida foi uma tradução concreta de quem estava convicta de que: “Ele veio morar entre nós.” O seu exemplo nos estimula hoje a estender as mãos aos pobres e marginalizados através de ações concretas.

Talvez nem todos possamos levantar casas com tijolos.
Mas todos podemos fazer da nossa casa um espaço de acolhimento, escuta e partilha. Além disso, podemos participar de mobilizações da sociedade civil no empenho por políticas públicas a favor da moradia digna.

Uma campanha dura um tempo, mas uma necessidade pode durar uma vida inteira. Por isso, não deve ser apenas um tema para refletir durante um tempo, mas um chamado a nos comprometer. Cada gesto de misericórdia amplia o espaço onde Deus pode morar no mundo.

Na sua mensagem para a CF 2026, o Papa Leão XIV, expressou o seu desejo de “que a reflexão sobre a dura realidade da falta de moradia digna, que afeta tantos irmãos nossos, leve não somente a ações isoladas – sem dúvida, necessárias – que venham de modo emergencial em seu auxílio, mas gere em todos a consciência de que a partilha dos dons que o Senhor generosamente nos concede não pode restringir-se a um período do ano, a uma campanha ou a algumas ações pontuais, mas deve ser uma atitude constante, que nos compromete a ir ao encontro de Cristo presente naqueles que não têm onde morar.”. Que este seja o nosso desejo e o nosso empenho.

*Dom Gilson é carioca, nascido no Méier e criado em Mendes no sul fluminense. Fez parte do clero de Petrópolis, estudou em Roma e foi bispo auxiliar de Salvador (BA). Nomeado pelo Papa Francisco em 27 de junho de 2018, tornou-se o 6º bispo da Diocese de Nova Iguaçu. Em 2018, durante a 57ª Assembleia Geral da CNBB, foi eleito pelos bispos do Rio de Janeiro como Vice-presidente do Regional Leste 1 – CNBB.

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