Após quase três horas de conversa em uma base militar no Alasca, os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Rússia, Vladimir Putin, parecem ter dado um passo inicial e importante para a reaproximação entre os dois países, usando a guerra na Ucrânia — teoricamente a principal pauta — como um pretexto. Não houve qualquer anúncio de um cessar-fogo, embora o líder americano tenha revelado “avanços importantes”. Trump disse que os dois “se verão muito em breve”, e o líder russo sugeriu que se encontrassem em Moscou.
Em uma rápida declaração, recheada de elogios ao anfitrião mas sem perguntas da imprensa, Putin classificou o diálogo como “construtivo”, e disse concordar com Trump “que a segurança da Ucrânia precisa ser garantida”, e que “está pronto para trabalhar nisso”. Em sua opinião, EUA e Rússia deveriam ter conversado há mais tempo, o que poderia ter “evitado o confronto”. O último encontro entre líderes dos dois países foi em 2021, quando Joe Biden estava na Casa Branca.
— É importante e necessário que nossos países virem a página e retornem à cooperação — afirmou. —Gostaria de esperar que o acordo que alcançarmos juntos nos ajude a aproximar esse objetivo e abra caminho para a paz na Ucrânia.
Putin declarou que “a situação na Ucrânia tem a ver com as ameaças fundamentais à nossa segurança”, repetindo um discurso que antecede a invasão, e que está relacionado à expansão da Otan, a principal aliança militar do Ocidente, no Leste Europeu. Moscou não admite que Kiev se junte à organização, mas desde o início da guerra, outros dois países — Suécia e Finlândia — aderiram à aliança, inclusive, no caso finlandês, diretamente em suas fronteiras.
— Estamos convencidos de que, para tornar o acordo duradouro e de longo prazo, precisamos eliminar todas as raízes primárias, as causas primárias desse conflito — disse Putin, advertindo para que as nações europeias “não tentem torpedear” eventuais avanços. — Considerar todas as preocupações legítimas da Rússia e restabelecer um equilíbrio justo de segurança na Europa e no mundo como um todo.
Em uma fala especialmente curta, o presidente americano disse acreditar que “Putin está tão interessado em acabar com o conflito quanto ele”. Repetindo o líder russo, afirmou que o diálogo foi “muito construtivo”, mas que ainda “resta muito a ser feito” até um acordo conciso, e também que espera uma melhora nas relações entre as duas maiores potências nucleares do planeta.
— Tivemos reuniões boas e produtivas ao longo dos anos. Esperamos continuar assim no futuro — disse o líder americano. — Não conseguimos [um acordo], mas temos boas chances de conseguir.
Ao final da declaração, ele revelou que telefonará aos líderes europeus e à Ucrânia para relatar o que foi conversado, e declarou a Putin que “o veria em breve” — em resposta, o líder russo sugeriu, em inglês, que o novo encontro fosse em Moscou.
— Essa é interessante, vou ser um criticado por isso — afirmou Trump. — Mas eu consigo ver que pode acontecer.
Em entrevista à Fox News, após a reunião, Trump a classificou, em uma escala de 1 a 10, como “10”, declarou sempre ter tido um ótimo relacionamento com o presidente russo, e que “é bom quando duas grandes potências se dão bem”. Ele ainda disse que, agora, depende do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, além dos governos europeus, conseguir um acordo de paz.
— Quero ter certeza de que isso será feito — acrescentou, sem mencionar que Zelensky ou representantes europeus não foram convidados para o Alasca. —E temos uma boa chance de conseguir.
‘Quebrando o gelo’
O encontro, o primeiro entre os dois desde o retorno do republicano à Casa Branca, foi um dos mais aguardados e escrutinados desde fevereiro de 2022, quando Moscou lançou contra a Ucrânia a maior invasão terrestre em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial. E, à sua forma, quebrou o isolamento que o presidente russo encontrava entre lideranças do Ocidente após o início da guerra.
Trump o recebeu de maneira efusiva, com direito a palmas na pista na base militar de Elmendorf-Richardson, no estado americano do Alasca. Depois, o convidou para o seu veículo oficial, “A Besta”, que os levou ao local onde ocorreu a reunião — dentro do carro não havia assessores ou tradutores. Antes de embarcarem, um jornalista perguntou a Putin se ele “vai parar de matar civis”. O líder russo apontou para o ouvido, como se não tivesse escutado.
Ao contrário de cúpulas passadas, eles não estavam sós na sala de reunião: ali, foram acompanhados pelos chefes das diplomacias americana, Marco Rubio, e russa, Sergei Lavrov (que chegou ao Alasca com um moletom da União Soviética), além de Yuri Ushakov, assessor de Putin, e Steve Witkoff, principal negociador da Casa Branca e que esteve no Kremlin na semana passada, e pelos tradutores.
Putin apostava que as chances de ser pressionado por um acordo imediato no Alasca eram pequenas. Durante a semana, Trump disse que seu plano era “ouvir”, e talvez plantar as sementes para uma nova reunião, possivelmente com Zelensky, também à mesa — a ideia inicial da Casa Branca era um encontro trilateral já nesta sexta-feira, uma possibilidade que Trump novamente ventilou na entrevista à Fox News. Pelo lado russo, as demandas eram bem mais claras.
A principal delas: a Rússia não abre mão de suas conquistas na Ucrânia, onde domina cerca de 20% do país, em um futuro acordo de paz. Hoje, boa parte dessas áreas já contam com a presença do Estado russo, especialmente a Crimeia, anexada em 2014, e cidades no leste, onde milícias pró-Moscou estão no controle efetivo há mais de uma década.
Ceder terreno é impensável para Kiev, e a insistência de Moscou travou as conversas preliminares, que de concreto levaram a um acerto para a troca de prisioneiros e restos mortais de combatentes. Enquanto seus mísseis e drones continuavam a cair, e suas forças avançavam no leste, a Rússia ignorava os novos pacotes de sanções da Europa, contando com uma certa boa vontade de Trump, um notório admirador de Putin, e muito mais afável do que seu antecessor, Joe Biden.
Desde o retorno à Presidência, em janeiro, o republicano já fez críticas ao líder russo, o chamando de “louco” após bombardeios contra cidades ucranianas, que deixaram dezenas de mortos — segundo um levantamento da rede britânica BBC, desde a eleição de Trump, em novembro do ano passado, a Rússia intensificou o ritmo de seus ataques aéreos. Em mais de uma ocasião, ameaçou impor novas sanções a Moscou, e chegou a dar um ultimato a Putin para que aceitasse um cessar-fogo incondicional. O prazo venceu na semana passada, e nenhuma nova medida foi anunciada.
Por outro lado, Trump conversou bem mais com Putin do que Biden, algo notado pelo russo logo na abertura da entrevista coletiva no Alasca. Dentro do tarifaço global, a Rússia sofreu uma alíquota de 10%, a mais baixa, embora a maior compradora de seu petróleo, a Índia, tenha recebido uma tarifa adicional de 25% por causa das importações do produto russo. E nos últimos dias, Trump falou abertamente em “troca de territórios”, o que poderia significar a concessão das áreas ocupadas pela Rússia na Ucrânia — na entrevista à Fox News, ele disse que o assunto foi levantado com Putin na reunião desta sexta-feira, e que os dois concordaram em determinados pontos, sem dar detalhes.
Para Putin, evitar as sanções americanas, manter o diálogo com a Casa Branca e, como clímax, ser convidado para a primeira visita oficial aos EUA desde 2007, quando a Rússia ainda integrava o G7 (G8 à época), foi a prova de que está no caminho certo.
O encontro com o líder da maior potência militar do planeta, em solo americano, também era encarado como a chance de quebrar o isolamento imposto pelos países ocidentais. Com uma ordem internacional de prisão emitida pelo Tribunal Penal Internacional em 2023, as opções de viagem foram restritas a alguns países amigos, como China, Bielorrússia e Coreia do Norte, o deixando de fora de cúpulas multilaterais, como do G20 e, mais recentemente, do Brics, no Brasil. A maioria dos chefes de Estado e governo europeus evita visitas a Moscou, preferindo prestar apoio a Zelensky em Kiev.
Somado a isso, Putin conseguiu convencer, mesmo que indiretamente, Trump a aceitar seu próprio tempo, no fuso horário de Moscou, e não correr em busca de um acordo de paz. Na quarta-feira, o americano conversou com lideranças da Europa e com Zelensky, prometendo que não tomaria decisões por conta própria — ainda a bordo do Força Aérea Um, nesta sexta-feira, ele disse à Fox News que “não é meu trabalho negociar um acordo sobre a Ucrânia, mas certamente posso preparar o cenário para a negociação de um acordo”, e que a paz só pode ser acordada entre Moscou e Kiev.
Horas antes dos dois líderes se sentarem frente a frente, o presidente ucraniano afirmou que a Rússia continua a bombardear suas cidades, que cabe a Putin encerrar o conflito, e que conta com uma “posição forte dos americanos” na mesa de negociações.
— Tudo dependerá disso, os russos levam em conta o poder americano. Se trata de poder — afirmou.
Com informações do O Globo
