A história de Xica Manicongo, considerada a primeira travesti do Brasil, será contada na Marquês de Sapucaí pela Paraíso de Tuiuti, segunda escola a desfilar na terça – feira de carnaval (04-03. Vi9ce-campeã em 2018, a agremiação, que ficou em nono lugar em 2024, será a segunda a desfilar. O enredo “Que tem medo de Xica Manicongo” foi desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos.
Xica Manicongo, que era congolesa, viveu em Salvador durante o século 16 e foi uma mulher trans escravizada. Ela teria sido queimada viva em praça pública por não aceitar o nome masculino e os trajes de homem. Se vestia de acordo com a sua identidade de gênero, sempre como mulher e com um pano amarrado ao corpo.
Parlamentares desfilarão na Paraíso do Tuiuti
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De acordo com informações da Agência Brasil, o desfile contará com lideranças e ativistas trans na avenida. As deputadas federais trans Érika Hilton e Duda Salabert. A vereadora Amanda Paschoal (PSOL- SP), e a deputada estadual Dani Balbi (PC do B) também confirmaram presença.
O enredo descreve que Xica Manicongo pagou um preço alto por não aceitar as imposições do “cis-tema” (a palavra aspeada refere-se ao termo cis, de cisgênero (pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi atribuídos ao nascer) e a sistema. Xica foi escravizada e transferida para Salvador, capital da colônia na época, sendo registrada como Francisco Manicongo. Vendida a um sapateiro, ela se libertou das vestes masculinas para se chamar Francisca Manicongo,
Veja a letra do samba da Paraíso do Tuiuti
Enredo: Quem tem medo de Xica Manicongo”
Carnavalesco: Jack Vasconcelos
Compositores: Cláudio Russo / Gustavo Clarão (A escola não abriu disputa na quadra para o samba, que foi encomendado aos dois compositores)
Ouça o samba da Tuiuti: https://www.letras.mus.br/gres-paraiso-do-tuiuti/samba-enredo-2025-quem-tem-medo-de-xica-manicongo/
A cada 34 horas
Há um assassinato de pessoa LGBTQIAPN+
Colocando o Brasil como número 1 neste tipo de morte violenta
Por isso, trazer luz à história de Xica Manicongo é fundamental
O paraíso do Tuiuti é Xica
Todas somos Xica
Xica vive na fumaça
Vim da África Mãe, ê-ô
Mas se a vida é vã, ê-ô (mumunha)
Kimbanda me fiz, nganga é raiz
Eu pego o touro na unha
Ê pajubá
Acuendar sem xoxar pra fazer fuzuê
É mojubá
Põe marafo, fubá e dendê (pra Exu) Ê pajubá
Acuendar sem xoxar pra fazer fuzuê
É mojubá
Põe marafo, fubá e dendê
Só não venha me julgar, ô-ô
Pela boca que eu beijo
Pela cor da minha blusa
E a fé que eu professar
Não venha me julgar
Eu conheço o meu desejo
Este dedo que acusa
Não vai me fazer parar
Faz tempo que eu digo não
Ao velho discurso cristão, sou Manicongo
Há duas cabeças em um coração
São tantas e uma só, eu sou a transição
Carrego dois mundos no ombro
Vim da África Mãe, ê-ô
Mas se a vida é vã, ê-ô, mumunha
Kimbanda me fiz, nganga é raiz
Eu pego o touro na unha
Vim da África Mãe, ê-ô
Mas se a vida é vã, ê-ô, mumunha
Kimbanda me fiz, nganga é raiz
Eu pego o touro na unha
(Eu sou) a bicha, invertida e vulgar
A voz que calou o cis tema
A bruxa do conservador
O prazer e a dor
Fui pombogirar na jurema
Chama a Navalha, a da Praia e a Padilha
As perseguidas na parada popular
E a Mavambo reza na mesma cartilha
Pra quem tem medo, o meu povo vai gritar
Eu, travesti
Estou no cruzo da esquina
Pra enfrentar a chacina
Que assim se faça
Meu Tuiuti
Que o Brasil da terra plana
Tenha consciência humana
Xica vive na fumaça
Ê pajubá
Acuendar sem xoxar pra fazer fuzuê
É mojubá
Põe marafo, fubá e dendê (pra Exu)
Ê pajubá
Acuendar sem xoxar pra fazer fuzuê
É mojubá
Põe marafo, fubá e dendê
Só não venha me julgar, ô-ô
Pela boca que eu beijo
Pela cor da minha blusa
E a fé que eu professar
Não venha me julgar
Eu conheço o meu desejo
Este dedo que acusa
Não vai me fazer parar
Faz tempo que eu digo não
Ao velho discurso cristão, sou Manicongo
Há duas cabeças em um coração
São tantas e uma só, eu sou a transição
Carrego dois mundos no ombro
Vim da África Mãe, ê-ô
Mas se a vida é vã, ê-ô, mumunha
Kimbanda me fiz, nganga é raiz
Eu pego o touro na unha
Vim da África Mãe, ê-ô
Mas se a vida é vã, ê-ô, mumunha
Kimbanda me fiz, nganga é raiz
Eu pego o touro na unha
(Eu sou) a bicha, invertida e vulgar
A voz que calou o cis tema
A bruxa do conservador
O prazer e a dor
Fui pombogirar na jurema
Chama a Navalha, a da Praia e a Padilha
As perseguidas na parada popular
E a Mavambo reza na mesma cartilha
Pra quem tem medo, o meu povo vai gritar
Eu, travesti
Estou no cruzo da esquina
Pra enfrentar a chacina
Que assim se faça
Meu Tuiuti
Que o Brasil da terra plana
Tenha consciência humana
Xica vive na fumaça
Ê pajubá
Acuendar sem xoxar pra fazer fuzuê
É mojubá
Põe marafo, fubá e dendê (pra Exu)
Ê pajubá
Acuendar sem xoxar pra fazer fuzuê
É mojubá
Põe marafo, fubá e dendê
Ô, ô, ô, ô, ô
Ô, ô, ô, ô, ô
Entenda o samba da Tuiuti através das palavras
Kimbanda: é uma religião afro-brasileira que tem raízes na mitologia Bantu.
Mumunha: procedimento a um só tempo lamentoso, astucioso, birrento; manha.
Nganga: em muitas sociedades africanas significa “curandeiro espiritual” espirituais significa.
Pajubá: A linguagem “pajubá” tem origem africana e era utilizada aqui no Brasil para designar um dialeto de linguagem popular que mesclava diversas línguas do seu continente de origem. Ao longo do tempo, o pajubá começou a ser falado como um código entre as travestis e, eventualmente, pela comunidade LGBT durante o período da ditadura militar como meio de enfrentar a repressão policial e despistar a presença de pessoas indesejadas.
Acuendar: é uma prática LGBTQIA+ que consiste em esconder o órgão genital.
Mojubá: é uma saudação do Candomblé que significa “o ato de louvar” ou “saudação aos ancestrais e divindades
Fuzuê: encontro de pessoas felizes, confraternização barulhenta, festa, comemoração em grupo.
Manicongo: era, originalmente, um título para governantes do Reino do Congo (Mwene Kongo, literalmente, Senhor do Congo), que foi transformado pela corruptela que conhecemos pelos portugueses em um termo para designar pessoas oriundas da região
Xoxar: é uma gíria que significa debochar, zoar ou falar mal de alguém ou algo.
Marafo: é uma aguardente de origem religiosa, utilizada principalmente na umbanda e no candomblé.
Chama a Navalha, a da Praia e a Padilha: Maria Navalha é uma pomba-gira que atua na linha da malandragem. Também é conhecida como mulher de Zé Pelintra. Maria da Praia é uma pomba-gira da falange dos Mulambos, é uma feiticeira muito velha que usava sortilégios para manter a aparência jovem. Já Maria Padilha é uma pomba-gira respeitada e invocada por seus atributos de amor, proteção e prosperidade.
Pombogirar: Não há definição específica, mas refere-se à pomba-gira. Pombogirar no samba funciona como uma espécie de “verbo”
Jurema: é uma falange espiritual cultuada no sincretismo com o animismo dos povos indígenas.
Mavambo ou Mavambu: é um nkisi, guardião muito presente nas cantigas de candomblé angola. É frequentemente associado ao barro vermelho.