Nova Iguassu Online

O que será o amanhã depois do debate entre Lula e Flávio

O confronto entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro pode decidir a eleição, mas a maior incerteza está no futuro que cada candidato oferece ao país

O conhecido samba-enredo da União da Ilha do Governador, apresentado no carnaval carioca de 1978, que inspira o título desta coluna, é de autoria de Didi e João Sérgio. Didi era o procurador da República Gustavo Adolfo de Carvalho Baeta Neves, fundador da escola e autor de outros sambas antológicos. Naquele ano, na voz de Aroldo Melodia, O Amanhã empolgou o público. A União da Ilha terminou em quarto lugar, mas a composição conquistou um lugar permanente na memória dos brasileiros.

A carnavalesca Maria Augusta levou para a avenida uma indagação que atravessa gerações. Entre adivinhações e expectativas, o enredo traduzia a ansiedade diante do desconhecido. “Como será o amanhã? Responda quem puder.” Quase meio século depois, a pergunta serve de abertura para o debate entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, hoje à noite, na TV Globo.

Em 1978, o Brasil atravessava a abertura lenta, gradual e controlada do regime militar. O milagre econômico havia perdido o fôlego e o desgaste da ditadura contrastava com a vitalidade de uma sociedade que procurava recuperar sua voz. Havia incerteza, mas também esperança. Agora, a interrogação volta em circunstâncias muito diferentes. O país pode escolher seu presidente pelo voto, mas continua com dificuldades para discutir o que pretende construir.

O risco de essa discussão ser novamente soterrada por acusações recíprocas é real. O encontro anterior, na Band, no domingo passado, mostrou como a disputa pode se transformar numa espécie de briga de rua, que não tem regras, para definir quem tem a biografia mais comprometida. Cada candidato estudou os pontos vulneráveis do adversário e procurará explorá-los.

Lula carrega o desgaste de quem governa. Precisa explicar por que o crescimento e as políticas sociais não dissiparam a insegurança econômica de tantas famílias; como pretende enfrentar o custo de vida, o endividamento e a criminalidade; e de onde virão os recursos para suas promessas. Também enfrenta o custo político das suspeitas envolvendo pessoas próximas, inclusive seu filho, no contexto das apurações relacionadas ao INSS.

Flávio procura encarnar a mudança, embora pertença a um clã há décadas na política. Precisa esclarecer suas relações políticas e financeiras, as negociações com Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre seu pai e os vínculos de seu entorno que se tornaram objeto de questionamentos. Ele nega ilegalidades. O encerramento de investigações anteriores, como a das rachadinhas, não elimina as perguntas sobre sua trajetória.

O futuro incerto

Cobrar esclarecimentos é necessário, porém, o eleitor perde quando tudo se converte numa mesma acusação e o debate vira um tribunal sem provas e contraditório. O desafio da abertura recíproca de sigilos, descrito no acordo apresentado pelas campanhas de Lula e Flávio, é um jogo de truco que oferece combustível para mais uma rodada desse confronto. Transparência exige documentos verificáveis e tempo para examiná-los. O debate pode produzir o corte de vídeo que dominará os celulares nas horas seguintes e decidir a eleição, que está numericamente empatada segundo a pesquisa Datafolha divulgada ontem: 50% a 50% dos votos válidos.

Lula representa uma tradição de inclusão social, valorização do trabalho e atuação do Estado na economia, associada ao pacto constitucional de 1988. Essa trajetória ajuda a explicar sua identificação com os mais pobres, mas não responde, por si só, às exigências do próximo mandato. O presidente precisa mostrar como financiar a proteção social, elevar a produtividade e melhorar os serviços públicos. A lembrança das conquistas anteriores ainda demanda uma proposta de futuro.

A contradição de Lula aparece na distância entre a ambição reformadora e a dependência de alianças conservadoras, negociações pouco transparentes e interesses que bloqueiam mudanças. Se reeleito, terá de governar com um Congresso mais adverso. Precisa explicar o que pretende negociar e quais compromissos considera inegociáveis.

Flávio representa a força do bolsonarismo, a extrema-direita que capturou boa parte do centro conservador e combina promessas de liberalização econômica, redução de impostos, dura repressão à criminalidade e fortalecimento da autoridade. Sua candidatura oferece ao eleitor descontente a perspectiva de ruptura com o PT. Precisa demonstrar, porém, como a redução de receitas se concilia com melhores serviços e equilíbrio fiscal, além de esclarecer quais despesas pretende cortar e quem suportará o seu custo.

Há também uma questão institucional. O bolsonarismo mantém uma relação conflituosa com os limites impostos ao poder pelas instituições, a promessa de eficiência precisa ser confrontada com perguntas sobre pluralismo, imprensa, direitos das minorias e independência dos Poderes. Uma maioria eleitoral autoriza governar, mas não autoriza transformar o Estado em instrumento de uma família ou de perseguição aos adversários.

A diferença alcança o lugar do Brasil no mundo. Lula defende autonomia diplomática e diversificação de parceiros. Flávio sinaliza maior aproximação com Donald Trump. Cabe explicar como preservar os interesses brasileiros diante das disputas entre Estados Unidos e China.

Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo#Debate, #Eleições, #Flávio, #Globo, #Lula

Sair da versão mobile