*Dom Gílson Andrade

As celebrações natalinas deste ano guardam um tom particularmente jubiloso. Há 2025 anos o Natal marcou a história da humanidade, como um divisor de águas entre o antes e o depois de Cristo. De forma particular, o Ocidente é devedor de suas raízes socioculturais e religiosas ao cristianismo. A encarnação do Verbo divino é um fato, e a história o demonstra não apenas com dados arqueológicos, mas, sobretudo, com realidades que configuram o ser e o estar dos homens e mulheres ao longo destes 21 séculos. A fé não simplesmente entrou no coração de tantas pessoas durante este período, mas também deixou sua marca na forma de pensar e agir, pretendendo oferecer uma humanidade melhor. Conscientes ou não, celebrar o Natal tem a ver com entrar em contato com o que nos dignifica para além de qualquer circunstância.
Trata-se de acolher o mistério de um Deus que entra na história concreta do seu povo para elevá-lo, restaurando a dignidade ferida pelo afastamento do projeto original de Deus. O Filho de Deus nasce imerso na realidade humana, em meio à pobreza, à insegurança e à fragilidade. Escolhe um lugar simples e marginalizado para, assim, manifestar o seu amor incondicional.
Celebrar o Natal necessariamente ilumina a realidade que nos corresponde viver. Neste sentido, lembro-me de um belo costume do saudoso Cardeal D. Lucas Moreira Neves. Como arcebispo de Salvador, optava por celebra a missa da noite do 24 de dezembro, a “Missa do Galo”, em algum lugar da arquidiocese que fora marcado pela necessidade de apelo à esperança. Compreendia que o Natal traz consigo uma força de renovação da dignidade humana.
Entre os primeiros escritores do cristianismo era comum ouvir durante as festas natalinas a afirmação de que “Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus”. São Leão Magno, nos seus sermões natalinos, exortava os fiéis a se admirarem pela tamanha dignidade que a natureza humana adquirira com a encarnação do Verbo eterno.
Não pode ser diferente a nossa atitude ao celebrarmos o Natal e ao anunciarmos a vinda do Filho de Deus a cada ano. Diariamente enfrentamos situações que ferem a dignidade humana e obscurecem o projeto de Deus. As desigualdades sociais, a corrupção, a violência estrutural, o domínio de facções criminosas impõem medo, silenciam comunidades e comprometem o direito básico à vida e à liberdade. Muitos vivem sob a tensão constante da insegurança, jovens crescem em contextos em que as oportunidades são escassas e as referências positivas, fragilizadas. Tudo isso constitui uma grave forma de desumanização.
A esse quadro soma-se uma decadência cultural e religiosa que afeta profundamente o tecido social. A banalização da violência, o enfraquecimento da educação, a perda do apreço pela cultura como espaço de humanização e o empobrecimento do diálogo ético criam um vazio que facilmente é ocupado pelo relativismo e por ideologias de ódio, intolerância e manipulação. No campo religioso, percebe-se ao mesmo tempo uma sede de Deus e uma fragmentação da experiência de fé. Cresce a indiferença religiosa em alguns, enquanto outros são atraídos por propostas que prometem soluções fáceis, mas nem sempre conduzem à verdadeira libertação evangélica.
Nesse contexto, o mistério do Natal se torna anúncio de esperança. O Menino de Belém nos lembra que Deus não se afasta dos sofredores, nem abandona os lugares marcados pela dor. Ele nasce lá onde a vida parece mais ameaçada, para afirmar que nenhuma realidade está perdida. Ao assumir a nossa carne, Deus eleva o ser humano inteiro e reacende a esperança de que a história pode ser transformada.
Após mais de 2025 anos do nascimento de Jesus, o Natal continua a dizer à nossa gente e a cada um que a última palavra é a do amor que se faz próximo e não a da violência, da corrupção ou da decadência cultural. Cada comunidade que resiste com fé, cada família que educa para os valores do Evangelho, cada jovem que escolhe a vida, cada trabalhador que contribui para uma sociedade nova, cada agente pastoral que permanece fiel à missão é sinal concreto de que a luz brilhou nas trevas e as trevas não conseguiram vencê-la.
Celebrar o Natal, portanto, é assumir o compromisso de ser presença de Deus que humaniza, promovendo a dignidade, a justiça, a cultura do encontro e uma fé madura e encarnada. Deus nasceu entre nós para elevar a nossa humanidade inteira. E onde isso acontece, mesmo de forma simples e silenciosa, o Natal continua manifestando a sua força transformadora no hoje e no aqui, no coração da nossa realidade.
- *Dom Gilson é carioca, nascido no Méier e criado em Mendes, no sul fluminense. Fez parte do clero de Petrópolis, estudou em Roma e foi bispo auxiliar de Salvador (BA). Nomeado pelo Papa Francisco em 27 de junho de 2018, tornou-se o 6º bispo da Diocese de Nova Iguaçu. Em 2018, durante a 57ª Assembleia Geral da CNBB, foi eleito pelos bispos do Rio de Janeiro como vice-presidente do Regional Leste 1 – CNBB.