Nova Iguaçu celebra 188 anos com missa, mas sem festa por conta da Covid-19

janeiro 15, 2021 /

Ao contrário de anos anteriores, o município de Nova Iguaçu, por conta da pandemia, não fez festa hoje ( 15/01) para comemorar seus 188 anos de fundação. Para participarem da solenidade religiosa, presidida por Dom Gílson Andrade, todos que compareceram à Catedral de Santo Antônio de Jacutinga, no Centro, tiveram que usar máscara facial e manter distanciamento social. O governo municipal não se mobilizou, havia muito espaço dentro da igreja.

A missa foi transmitida, ao vivo, pelo canal da Diocese no Youtube. O prefeito Rogério Lisboa, que é evangélico, não comparececeu. Dos 11 vereadores, quatro deles participaram da missa, entre eles Eduardo Reina, o presidente da Câmara. O deputado estadual Elton Elton Cristo, que acabou de assumir o mandato ( era suplente ), participou da missa.

O município elegeu quatro deputados federais, mas nenhum deles foi à missa de hoje pelo aniversário da cidade. No entanto, os federais eleitos com os votos de eleitores de Nova Iguaçu  e o presidente da Alerj, André Ceciliano, ocuparam as redes sociais com mensagens alusivas à data de hoje.,parabenizando Nova Iguaçu pelos 188 anos de criação.Apenas dois secretários municipais, o de Saúde e o de Cultura, ouviram Dom Gílson Andrade pedir orações e conforto para as famílias de quase mil vítimas fatais da covid-19 em Nova Iguaçu  desde o início da pandemia ,em março do ano passado, e também para os profissionais de saúde.

 

Homilia de Dom Gílson Andrade, Bispo da Diocese de Nova Iguaçu:

 

Aniversário da cidade de Nova Iguaçu – 188 anos

 

 

Nesta ocasião, em que o nosso município celebra seus 188 anos, nos reunimos aqui como filhos de Deus, agradecidos a Ele pela nossa longa história, marcada pelo amor a esta terra e pela luta para superar os desafios que ao longo dos tempos se apresentam. Também os amigos do paralítico curado hoje por Jesus, conforme o Evangelho que lemos nesta celebração, tiveram que enfrentar desafios e pensar em estratégias para que o seu amigo pudesse estar diante de Jesus e receber a bênção de que precisava, ser liberto de sua paralisia. A multidão apinhada à porta da casa de Pedro e a dificuldade de acesso não foram suficientes para impedir que se abrisse um buraco no telhado e se descesse a maca em que ele se encontrava.

O episódio do paralítico curado por Jesus, revela, de alguma forma, o projeto de Deus para a humanidade e a nossa participação nele.

Os escribas ficam escandalizados quando Jesus diz perdoar os pecados do homem paralítico, afinal, só Deus pode perdoar os pecados. O que os escandaliza é o fato de que um homem se apresenta com esse poder que é exclusivamente de Deus.

Eles não conhecem o mistério de Cristo, não sabem que Ele é Deus feito homem, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Por isso, polemizam diante das palavras de Jesus.

Nas palavras de Jesus e na atividade do Senhor se revelam o desígnio divino: Deus quer salvar a humanidade por inteiro, por dentro e por fora. Não há verdadeira reconstrução da humanidade, se não houver uma reconciliação com Deus e, consequentemente, com os irmãos, se não se é renovado por dentro. Muitos dos nossos projetos se frustram porque em boa parte dependem da integridade do coração. Se o coração não estiver curado da chaga do pecado, os projetos humanos caem no vazio.

Por outro lado, Deus quer contar com a nossa colaboração. Se aqueles quatro homens não tomassem uma decisão de pensar numa saída para o seu amigo enfermo, nada aconteceria. O milagre não acontece sem a intervenção de amigos corajosos, que não temem abrir o telhado da casa para introduzir aquele homem diante da presença de Jesus. Sem aqueles amigos no seu caminho, o pobre paralítico não poderia ter dado nenhum passo.

Quem são os amigos do paralítico? 4 homens de fé e determinados pela força da sua fé. A fé não é um sentimento vago de confiança que me isola numa segurança só minha, mas é “possuir o que se espera”, como diz a Carta aos Hebreus. Ela tem uma força operativa porque abre espaço para a ação de Deus na vida do ser humano que acolhe a palavra que Deus lhe dirige.

A fé traz consigo a força de transpor montanhas, mas os braços daqueles amigos são os instrumentos que Deus se utiliza para realizar o bem àquele homem que não conseguia valer por si mesmo.

Meus irmãos, estamos aqui hoje, começando um novo ano, recordando os feitos históricos que fazem o orgulho dos cidadãos de Nova Iguaçu, mas numa hora muito desafiadora. Certamente atravessamos um período da história que deixará seu registro para as gerações futuras. E nestas circunstâncias, o homem de fé se dá conta da presença de Deus que caminha conosco e partilha das nossas lutas.

A imagem do paralítico impossibilitado pode bem representar tantas situações que no contexto pessoal e social nos afligem, as várias crises que nos paralisam e nos deixam amedrontados. Hoje parece haver uma crise generalizada, onde os vários setores da vida social se encontram neutralizadas na sua missão de colaborar para o respeito da dignidade da vida humana. A crise de falta de sentido da vida que atinge a muitos, especialmente aos jovens, a crise de famílias sem teto, trabalho e terra (para retomar aqui esses elementos que o Papa lembra como fundamentais para um verdadeiro caminho da paz. Cf. FT 33), a crise da saúde, agravada pelas disputas políticas; a desigualdade social aumentada durante esses meses da pandemia e tantas outras que poderíamos seguir aqui apresentando, colocam um sentido de urgência na missão de todos e cada um na vida social.

Diante de tudo o que está acontecendo não se pode continuar fazendo nossas atividades sociais, educativas, políticas e religiosas da forma que vínhamos realizando antes. A pandemia escancarou as fragilidades de nossas instituições ao mesmo tempo que mostrou a prioridade que a família tem na vida social. Se não voltarmos o nosso olhar para a casa e a família não teremos aprendido uma das lições importantes desse tempo da pandemia.

Esses inúmeros desafios também revelam a insuficiência de uma resposta isolada ao problema que é de todos. É preciso, a exemplo dos amigos do paralítico, que haja uma nova cultura de cooperação para respondermos juntos aos desafios que fazem parte da vida de todos nós que somos amados por Deus e que deseja se aproximar sempre mais de nós e realizar o que só Ele pode realizar.

Os amigos do paralítico não se estabelecem no seu conforto, mas se unem para que algo de novo aconteça na vida e, assim, superar a dor do outro. O Papa Francisco denunciou corajosamente que este tempo da pandemia mostrou a nossa fragilidade de não conseguirmos dar respostas conjuntas.

O tempo presente não deve favorecer a divisão, mas a solidariedade, lembrados que “a paz real e duradoura é possível só ‘a partir de uma ética global de solidariedade e cooperação ao serviço de um futuro modelado pela interdependência e a corresponsabilidade na família humana” (Francisco, FT, n. 33)

Em uma entrevista de alguns dias atrás o Papa dizia que “é preciso pensar ao nós e cancelar por um tempo o eu. O nos salvamos “nós” ou não se salva ninguém. A esperança se semeia com a proximidade. Ninguém se salva sozinho e se você não se aproxima para colaborar para que todos se salvem, nem mesmo você se salvará”.

Ninguém pode tudo sozinho, nenhuma instituição pode por si mesma ter todas as respostas. Como cristãos temos clara consciência do nosso dever de colaboração com a coisa pública, pois a salvação que Deus oferece em Jesus Cristo tem a ver com todas as dimensões de tudo o que é humano e entendemos que temos um papel também importante no fomento dessa nova cultura do encontro. Que possamos sempre mais construir um tempo novo marcado por mais colaboração entre os diversos setores da vida social, sem divisões.

Parabéns à nossa cidade e ao nosso povo e que, com as bênçãos de Deus, possamos juntos estar mais unidos para fazer valer as palavras do nosso hino, fazendo de Nova Iguaçu “o encanto fluminense e o orgulho do Brasil”.

 

 

Paulo Cézar

PAULO CEZAR PEREIRA, também chamado de PC ou Paulinho da Baixada, aprendeu jornalismo nas redações de alguns principais veículos – rádios,jornais e revistas. Conheceu, como Repórter Especial do GLOBO, praticamente todos os estados brasileiros, as duas antigas Alemanhas antes da reunificação, Suiça, Austria, Portugal, França, Itália, Bélgica, Senegal, Venezuela, Panamá, Colômbia e a Costa Rica. É casado com Ana Maria e tem três filhas que já lhe deram cinco netos. Tem três paixões: a família, o jornalismo e o Flamengo. No passado, assessorou um governador, um senador, dois prefeitos e vários deputados. Comandou a área de Comunicação de Nova Iguaçu num total de 12 anos. Já produziu três livros : um para a Coleção Tiradentes, outro contando a evolução de Nova Iguaçu quando a cidade completou 170 anos, e o do jubileu de ouro da Diocese de Nova Iguaçu.