Negros têm 4,5 vezes mais chance que brancos de morrer em ações policiais no Rio, diz relatório

Relatório Pele Alvo aponta que 86% das vítimas da polícia fluminense em 2024 eram negras; Bahia lidera ranking nacional de letalidade | Foto: Raull Santiago-Redes sociais

Negros têm 4,5 vezes mais chance de morrer em ações policiais do que brancos no Rio de Janeiro, segundo o relatório Pele Alvo, divulgado pela Rede de Observatórios da Segurança. O estudo analisa a letalidade policial sob a ótica racial e mostra que o estado, palco da operação mais letal da história do país, continua entre os que mais matam no Brasil.

Em 2024, foram registradas 703 mortes por intervenção policial no território fluminense, das quais 546 eram de pessoas negras. Embora representem 57,8% da população, pretos e pardos corresponderam a 86,1% dos mortos pela polícia.

Juventude negra é principal vítima

Mais da metade dos mortos (57,1%) tinha entre 18 e 29 anos. Para a Rede de Observatórios, o dado reforça que a violência policial recai sobre a juventude negra e pobre das periferias. Os pesquisadores destacam ainda que o Rio concentra operações de alta letalidade, com um padrão de uso excessivo da força e pouca transparência sobre as circunstâncias das mortes.

Megaoperação na Penha agravou cenário

A situação se agravou em 2025 com a megaoperação no Complexo da Penha, na zona norte do Rio, que deixou 121 mortos em apenas dois dias e foi classificada como a ação policial mais letal da história do país. A operação, batizada de Contenção, mobilizou forças estaduais e federais sob o argumento de enfrentar o crime organizado, mas provocou forte reação de entidades de direitos humanos e de órgãos internacionais.

Para especialistas, o episódio simboliza o fracasso das políticas de segurança baseadas em confrontos armados e reforça o alerta do relatório sobre a escalada da violência contra populações negras e periféricas.

Letalidade e desigualdade racial

O relatório compara o risco de morte por raça e aponta que, enquanto 1,3 branco é morto para cada 100 mil habitantes, entre negros a taxa é de 5,9. Essa diferença coloca o estado acima da média nacional de disparidade, que é de 3,5 vezes.

Segundo o documento, os números refletem uma política de segurança baseada no confronto e sem integração com ações de prevenção. “Sem dados raciais, não há estatística; sem estatística, nega-se o problema; sem problema, não há cobrança por justiça. É assim que opera o racismo de Estado”, afirma o relatório.

Medidas sugeridas

A Rede de Observatórios recomenda o uso obrigatório de câmeras corporais em todas as unidades policiais, o registro obrigatório da raça das vítimas e a criação de um programa nacional de atenção à saúde mental dos agentes. O relatório também propõe vincular repasses federais à redução da letalidade policial.

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