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Moradora de Nova Iguaçu, Daniele transforma luto em acolhimento para crianças afastadas de suas famílias

Para Daniele, o acolhimento vai muito além de oferecer abrigo temporário. Fotos: PMNI/Divulgação.

Quando perdeu o marido para o câncer, em março do ano passado, a assistente social Daniele Basílio, de 46 anos, encontrou forças para seguir um propósito que os dois construíram juntos: acolher crianças afastadas judicialmente de suas famílias. Em meio ao luto e à reconstrução da própria vida, ela abriu as portas de casa para dois irmãos, de 1 e 3 anos, em situação de vulnerabilidade. Acolhidas pelo Serviço de Acolhimento Familiar (SAF), da Prefeitura de Nova Iguaçu, as crianças vivem com Daniele desde novembro de 2025 e compartilham com ela a mesma casa, a mesma rotina e o mesmo afeto.

A história de Daniele ajuda a mostrar a importância do SAF, implantado em setembro de 2018 para oferecer acolhimento familiar temporário a meninos e meninas afastados judicialmente de suas famílias. Considerado uma alternativa aos abrigos institucionais, ele permite que crianças e adolescentes possam viver temporariamente em um ambiente familiar, recebendo afeto, proteção e acompanhamento individualizado. Desde sua implementação, 48 acolhimentos já foram realizados.

Foi através do SAF que Daniele iniciou sua trajetória como família acolhedora. Há cerca de três anos, após conhecer o serviço em uma unidade da assistência social do município, ela e o marido Geraldo Basílio decidiram abrir as portas de casa — e do coração — para crianças que precisavam de proteção temporária. Desde então, a família já participou de quatro acolhimentos. Geraldo esteve presente nos três primeiros, mesmo em meio ao tratamento contra o câncer.

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“Meu esposo faleceu durante nosso terceiro acolhimento. Esse era um propósito nosso, então pensei em não acolher mais, porque achei que não daria conta sozinha. No último dia de acolhimento daquela criança, recebi uma ligação do SAF perguntando se eu estaria disposta a receber um casal de irmãos”, conta Daniele, que aceitou o novo desafio. “Neste serviço, lidamos com vidas, com crianças que já chegam emocionalmente fragilizadas. Eu não poderia recusar essa missão”, relembra.

Os irmãos atualmente acolhidos foram afastados da família por determinação judicial e passaram a receber proteção por meio do serviço. Enquanto o caso é acompanhado pela Justiça e pela rede de proteção, eles vivem em ambiente familiar e mantêm contato com os pais por meio de visitas assistidas.

“O que percebemos é que essa passagem temporária por um lar acolhedor favorece a construção de vínculos, do afeto e do apego seguro — elementos fundamentais para esse processo de transição, seja para a reintegração à família de origem ou extensa, seja para o encaminhamento à adoção por uma família substituta”, explica Larissa La Cava, psicóloga do SAF.

Para Daniele, o acolhimento vai muito além de oferecer abrigo temporário.

“Família acolhedora é isso: colocar no colo, puxar para perto, dar calor humano. Você não muda o que aquela criança viveu, mas pode tornar a caminhada dela mais leve. Pode fazer parte de um processo de mudança. A criança recebe amor, mas a gente também recebe muito delas”, afirma.

Emocionada ao lembrar do companheiro, que participou dos primeiros acolhimentos da família, ela resume o que considera a essência do SAF. “Eu acredito muito nesse serviço. As crianças precisam viver em família, sentir carinho, rotina e afeto. É isso que transforma.”

Município busca novas famílias acolhedoras

Apesar da importância do SAF na vida de crianças e adolescentes, o número de famílias participantes ainda é pequeno. Atualmente, apenas dez estão habilitadas, sendo quatro delas responsáveis pelo acolhimento de cinco crianças. Hoje, 41 meninos e meninas vivem em acolhimento institucional no município. Por isso, a Prefeitura segue cadastrando famílias interessadas em abrir as portas de seus lares para o acolhimento temporário.

O SAF busca compreender os motivos que levaram ao afastamento judicial da criança ou adolescente da família de origem e trabalha para sua reinserção familiar até que todas as possibilidades sejam esgotadas. Em último caso, a criança ou adolescente é encaminhado para adoção. Por isso, as famílias cadastradas no serviço assinam um termo de não interesse em adoção.

“O acolhimento familiar é considerado menos prejudicial e mais benéfico para o desenvolvimento de crianças e adolescentes do que o acolhimento institucional. Em uma família, elas recebem cuidados individualizados, com atenção às suas necessidades específicas, diferentemente da dinâmica coletiva existente em abrigos e instituições”, reforça Larissa.

As famílias acolhedoras recebem uma ajuda de custo destinada exclusivamente às despesas dos acolhidos. Ainda assim, Daniele destaca que o principal combustível do serviço é o compromisso com o bem-estar das crianças.

“Esse serviço não é emprego. É doação de amor, carinho e afeto. Ninguém acolhe sozinho. Existem familiares, amigos, vizinhos e pessoas da igreja que ajudam e fazem parte dessa rede de cuidado”, afirma ela, que mantém contato com todas as crianças que já passaram por sua casa. “Os pais dizem que eu faço parte da história dos filhos deles. Isso não tem preço. Esse é o verdadeiro retorno.”

Histórias como a de Daniele ajudam a mostrar o impacto do acolhimento familiar e a importância de ampliar o número de famílias participantes do serviço, permitindo que mais crianças e adolescentes possam viver temporariamente em um ambiente de afeto, proteção e convivência familiar.

Como acolher

Para fazer parte do Serviço de Acolhimento Familiar, é preciso morar em Nova Iguaçu há pelo menos dois anos, ter uma residência com condições adequadas para atender às necessidades básicas da criança, entre outros requisitos. Também é fundamental que todos os membros da família estejam de acordo com a participação no serviço e cientes de que não se trata de adoção, mas da oferta de um lar temporário para o acolhido.

As famílias interessadas passam por avaliação psicossocial e por um processo de capacitação para que estejam preparadas para acolher crianças e adolescentes afastados judicialmente de seus lares de origem.

Os interessados em se cadastrar podem procurar a sede do serviço, localizada na Rua Dr. Luiz Guimarães, 956, no Centro de Nova Iguaçu. Também é possível entrar em contato pelo WhatsApp (21) 99575-1913 ou pelo e-mail familiaacolhedora.ni@gmail.com.

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