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Mesmo com locaute, Lula vence Flávio de virada e conquista quarto mandato

Lula De Chapeu

*Luiz Carlos Azedo

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A recuperação de Lula veio de uma reação vigorosa da sociedade civil, que devolveu o movimento à campanha, com presença nas ruas e mobilização digital

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistou seu quarto mandato numa virada espetacular sobre Flávio Bolsonaro. Derrotado no primeiro turno, quando recebeu 45,16% dos votos válidos, contra 47,03% do adversário, recuperou a iniciativa e venceu de forma inequívoca. Quando o Tribunal Superior Eleitoral reconheceu sua reeleição, às 21h08, com 97,69% da apuração concluída, tinha 51,74%, contra 48,26% do senador: uma vantagem de aproximadamente 4,2 milhões de votos. O resultado reafirma a capacidade de sobrevivência e de mobilização, inclusive da juventude, do principal líder popular da nossa história contemporânea.

A vitória ocorreu apesar das dificuldades de acesso às urnas, num domingo marcado por denúncias de locaute no transporte coletivo. Ônibus retidos, frotas insuficientes e longas esperas atingiram sobretudo quem depende dos serviços públicos para exercer a cidadania. A intenção deliberada de impedir votos precisa ser investigada. Oferecer transporte insuficiente numa eleição significa transformar a desigualdade social em obstáculo ao sufrágio.

O Ministério da Justiça identificou falhas em sete estados. Em Salvador, a Justiça Eleitoral determinou a recomposição integral da frota e ordenou a prisão do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza. A prefeitura atribuiu os problemas à necessidade de retirar propaganda eleitoral dos veículos. A explicação terá de ser confrontada com a fiscalização e os registros da operação.

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A atuação do presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, também exige avaliação crítica. À tarde, reconheceu dificuldades, mas afirmou que estavam sendo corrigidas. Somente às 16h44 veio a notícia de sua determinação para que autoridades eleitorais da Bahia prestassem esclarecimentos em meia hora, ou seja 16 minutos antes do fim da votação. Coube ao ministro Cristiano Zanin, do Supremo, estender a votação até as 19h, nas seções cujas urnas ainda estavam abertas. As já encerradas não puderam receber novos eleitores.

O episódio se somou às controvérsias sobre o canal “Exército do Lula”. Nunes Marques havia determinado sua suspensão em decisões posteriormente revertidas. Na reta final, uma nova disputa exigiu intervenção do ministro Floriano Azevedo Marques para preservar o canal até análise colegiada. Fiscalizar propaganda e reprimir desinformação são deveres da Justiça Eleitoral. Exercê-los exige critérios transparentes e proporcionais, especialmente quando a intervenção pode desmobilizar milhões de apoiadores às vésperas da votação.

Desafios permanecem

Lula também precisou enfrentar suas próprias limitações. O primeiro turno desfez a expectativa de que a experiência presidencial e as realizações sociais bastariam para assegurar a liderança. O custo de vida, o endividamento e a insegurança alimentaram o desejo de mudança. A defesa da democracia precisava encontrar tradução nas preocupações de quem termina o mês sem dinheiro ou convive com o domínio territorial do crime.
Flávio explorou essas vulnerabilidades com acusações de corrupção, críticas ao preço dos alimentos e promessas de repressão mais dura. Procurou associar Lula à tolerância com criminosos e ao desgaste dos escândalos. Houve falsidades verificadas, como a afirmação de que Lula e Janja gastaram R$ 7 bilhões em viagens. No debate da Band, acusações recíprocas empobreceram a escolha oferecida ao eleitor.

A recuperação de Lula veio de uma reação vigorosa da sociedade civil, que devolveu o movimento à campanha, com presença nas ruas e mobilização digital, focadas no eleitor inclinado à abstenção. Deu certo: a ausência às urnas, mesmo com o locaute, caiu de 21,08% para 19,21%. Lula conseguiu transformar uma posição defensiva numa convocação popular, recuperando a ligação entre sua trajetória e as expectativas de proteção social.

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Entretanto, a vitória presidencial não reverteu o resultado do Congresso. O PL conquistou 121 cadeiras na Câmara e elegeu 19 senadores. No Senado, terá 28 integrantes, enquanto o PT permanece com nove. O bolsonarismo perdeu o Planalto, mas ampliou instrumentos de pressão, fiscalização e bloqueio. A composição da Casa acirrará as disputas sobre indicações, competências do Judiciário e iniciativas contra ministros do Supremo.

O quarto mandato começará, portanto, com legitimidade renovada e governabilidade difícil. Lula precisará construir maiorias sem entregar o comando do orçamento, preservar políticas sociais com financiamento sustentável e enfrentar o crime organizado com coordenação nacional e resultados concretos. Terá de elevar produtividade, melhorar serviços e defender a autonomia internacional do Brasil. Também precisará preparar uma renovação política que sobreviva à sua liderança. A virada demonstrou sua força pessoal; o desafio será convertê-la em instituições confiáveis e melhorias duradouras na vida da população.

*Luiz Carlos Azedo jornalista, é colunista.do Correio Braziliense.

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