*Luiz Carlos Azedo

Flávio condicionou sua presença à participação de Lula, porque perderia a oportunidade de confrontar diretamente o principal adversário e seria alvo de Caiado, Zema e Renan
O primeiro debate presidencial das eleições de 2026, marcado para hoje, às 20h, na Band, terá dois protagonistas invisíveis: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo PT, e o senador Flávio Bolsonaro (RJ), representante do PL. Os líderes das pesquisas decidiram não comparecer, deixando o palco para Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). A ausência expressa o cálculo político de ambos: evitar desgastes, reduzir o risco de surpresas e manter a disputa confinada à polarização que interessa aos dois.
A resistência dos favoritos aos debates não começou agora. Em 1989, Fernando Collor evitou os confrontos do primeiro turno e apareceu somente nos dois encontros finais com Lula. O segundo debate ficou marcado pela controvérsia sobre a edição exibida no “Jornal Nacional”, episódio que expôs a influência da tevê sobre a percepção dos candidatos.
Em 1998, Fernando Henrique Cardoso recusou-se a participar dos debates, que acabaram não acontecendo, e venceu a eleição no primeiro turno. Em 2006, Lula também se ausentou dos encontros iniciais, comparecendo apenas no segundo turno, contra Geraldo Alckmin. Em 2018, Jair Bolsonaro participou dos primeiros debates, mas ficou afastado após o atentado sofrido durante a campanha e não enfrentou Fernando Haddad na etapa final. Já em 2022, Lula e Bolsonaro participaram de confrontos televisionados, marcados pela intensidade da polarização.
Os números do Datafolha divulgados na sexta-feira corroboram a decisão. Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% de Flávio. Caiado registra 5%; Renan Santos, 4%; Zema, 3%; e Cury, 2%. Num eventual segundo turno, o presidente soma 47%, contra 43% do principal adversário. A margem de erro é de dois pontos percentuais. Lula mantém a dianteira, mas enfrenta uma disputa apertada, que pode transformar qualquer episódio inesperado em ameaça real à sua posição.
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Para Lula, preservar a liderança significa conservar a expectativa de poder, que atrai alianças, financia mobilizações políticas, estimula apoiadores e mantêm palanques estaduais organizados. Uma eventual ultrapassagem de Flávio, ainda que estatisticamente limitada, pode ser desastrosa, maior do que os próprios números, abrindo espaço para deserções, hesitações no centro e mudanças na percepção de quem reúne condições reais de vencer.
Novas denúncias contra seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, deixaram o petista na defensiva. Num debate com adversários à direita, seria o alvo principal de questionamentos sobre denúncias relacionadas ao INSS, investigações envolvendo pessoas do seu entorno político, dificuldades econômicas e o desgaste natural do governo. Em termos práticos, sua ausência evita exposição a vários ataques. Mas isso não significa que deixarão de existir.
Congelamento
Flávio condicionou sua presença à participação de Lula, porque perderia a oportunidade de confrontar diretamente seu principal adversário e seria alvo de Caiado, Zema e Renan, candidatos que disputam o eleitorado conservador, com objetivo de chegar ao segundo turno em seu lugar. Teria de responder a questionamentos sobre seu histórico político, suas relações com personagens investigados e o legado do bolsonarismo, enquanto seus concorrentes se apresentariam como uma direita menos vulnerável e mais confiável.
Em eventual segundo turno, Flávio recebe votos de apenas parte do eleitorado dos demais candidatos à direita: 60% dos apoiadores de Zema, 54% dos eleitores de Caiado e 48% dos que preferem Renan. Confrontá-los diretamente poderia dificultar a reunião dessas forças na etapa seguinte. Sua prioridade é se apresentar como o único adversário viável contra Lula e esvaziar uma alternativa de centro-direita ou antissistema.
Lula quer impedir que Flávio o ultrapasse e evitar que outro concorrente cresça a ponto de reorganizar a disputa. Flávio pretende consolidar sua condição de representante principal da oposição, bloqueando qualquer movimento de substituição dentro do campo conservador. Formam, assim, uma espécie de muralha na qual eles disputam a liderança na parte de dentro e os demais candidatos ficam do lado de fora.
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Mas essa tática pode resultar num cerco perigoso. Segundo o Datafolha, 72% dos eleitores afirmam estar decididos, enquanto 27% admitem mudar de voto. Entre os apoiadores de Lula, 82% se dizem convictos; entre os de Flávio, 78%. Há ainda 30% que declaram votar principalmente para impedir a vitória de outro candidato, ou seja, são eleitores voláteis, suscetíveis a acontecimentos novos, desempenho em debates e mudanças no ambiente político.
Portanto, a segmentação do eleitorado ajuda a explicar a cautela. Num eventual segundo turno, Lula lidera entre as mulheres, por 51% a 38%; entre eleitores com renda de até dois salários mínimos, por 55% a 35%; e no Nordeste, por 61% a 30%. Flávio predomina entre evangélicos, por 62% a 29%; e entre eleitores de renda mais alta. No Sudeste, região decisiva pelo tamanho do eleitorado, há empate técnico. O mau desempenho no debate poderia tornar-se uma armadilha, capaz de alterar percepções nesses segmentos e modificar o equilíbrio da disputa.
*Luiz Carlos Azedo, jornalista, é colunista do Correio Braziliense. A coluna deste domingo ( 23) está publicada também no Estado de Minas.
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