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Medo move o centro político diante da radicalização e da crise do STF

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*Luiz Carlos Azedo

A 15 dias das eleições, o centro se move, porém não caminha unido. Divide-se entre o medo da continuidade de Lula e o medo da volta do bolsonarismo ao poder

A proximidade das eleições começa a provocar um movimento de placas tectônicas no centro político. Liberais que rejeitam o governo Lula se aproximam do presidente por medo de uma vitória da extrema-direita. Conservadores que mantinham alguma distância do bolsonarismo ensaiam o voto útil em Flávio Bolsonaro para impedir a reeleição do petista. Em ambos os casos, a decisão não nasce da esperança, mas do medo.

Lula aposta todas as suas fichas na chamada “economia do afeto”, na feliz expressão do historiador Alberto Aggio: programas sociais, aumento da renda, proteção aos mais pobres e recuperação do poder de compra. O reajuste do Bolsa Família, anunciado a poucos dias do primeiro turno, tornou-se a expressão mais evidente dessa estratégia. O valor mínimo passará de R$ 600 para R$ 691, com impacto estimado de R$ 5,8 bilhões neste ano.

O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, nega qualquer motivação eleitoral. A explicação técnica, porém, não elimina o efeito político. Em campanha eleitoral, sobretudo tão perto da votação, uma medida dessa magnitude inevitavelmente será interpretada como jogada populista. É no terreno econômico que o presidente se sente mais confortável.

A maioria dos eleitores continua preocupada com emprego, renda, preços dos alimentos, saúde, segurança e condições concretas de vida. Lula procura reconstruir sua candidatura por meio da memória dos anos de ascensão social e da ideia de que seu governo protege os mais pobres. Ao mesmo tempo, incorpora a defesa da soberania nacional, diante das pressões da Casa Branca, ao discurso que fará na Assembleia-Geral das Nações Unidas.

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Flávio Bolsonaro escolheu outra trincheira. Explora a crise do Supremo Tribunal Federal, associa Lula aos ministros indicados pelo PT e procura transformar o desgaste da Corte em combustível eleitoral. Sua frase de que “quem está votando em Lula está votando em Alexandre de Moraes” resume a estratégia de apresentar o presidente como fiador de um sistema judicial que, aos olhos de parte do eleitorado, perdeu a imparcialidade e passou a agir politicamente.

A pesquisa Atlas/Bloomberg mostra que a crise do Supremo pesa mais sobre Lula. Para 49,5% dos entrevistados, o episódio prejudica principalmente sua candidatura; 20,9% acreditam que o maior dano recai sobre Flávio. Outros 14,4% avaliam que os dois são atingidos igualmente. Por isso, o candidato do PL insiste na associação entre Lula e Moraes, embora o ministro tenha sido indicado ao STF por Michel Temer.

Lula reage tentando vincular Flávio ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. O caso Master, assim, deixou de ser apenas um escândalo financeiro e uma crise institucional. Tornou-se munição eleitoral utilizada pelos dois principais candidatos.

Supremos temores

A sessão na qual o Supremo tentou decidir se autorizaria uma investigação contra Moraes agravou o problema. O julgamento terminou sem conclusão, depois de um áspero confronto entre ministros e do pedido de vista de Flávio Dino. O tribunal acabou expondo divisões, suspeitas recíprocas e dificuldades para estabelecer um procedimento consensual. Quanto mais o Supremo se divide, mais se transforma em protagonista da eleição. A crise alimenta o discurso de Flávio, desgasta Lula e deixa o centro diante de uma escolha dramática.

Nesse espaço político, a decisão começa a ser tomada não pela adesão a um programa, mas pela definição de qual risco deve ser evitado. Nessa quinta-feira, o sociólogo Zeca Martins, coordenador do Derrubando Muros, anunciou que votará em Lula, embora o propósito existencial desse grupo heterogêneo de políticos e intelectuais seja romper a polarização. Martins não absolve Lula nem revê sua avaliação severa do governo. Considera desastrosos os resultados na política, na ciência, na tecnologia e na segurança pública, além de medíocres os desempenhos na saúde e na educação.

Mesmo assim, anuncia que votará no presidente, com o argumento de que um governo ruim pode ser criticado, enfrentado e substituído. Um governo que ameace as instituições capazes de garantir a crítica representa um perigo de natureza diferente. Martins quer preservar o “direito de não gostar”, isto é, a liberdade de combater o governo sem colocar em risco a própria segurança ou a de sua família.

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Seu posicionamento revela uma movimentação mais ampla, embora ainda não seja possível medir sua dimensão eleitoral: a centralidade da democracia. Liberais, democratas e antigos adversários do PT começam a considerar que a rejeição a Lula não pode colocá-los no mesmo campo de um projeto identificado com o autoritarismo, a hostilidade à imprensa, a contestação das urnas e a instrumentalização política das instituições. Para esse setor, votar em Lula não significa aprovar seu governo, mas impedir o que considera uma ameaça maior.

No campo oposto, conservadores e eleitores de centro-direita também se movem pelo medo. Temem a continuidade do PT, a expansão do papel do Estado, o aumento dos gastos públicos e a consolidação de uma maioria política associada a Lula e oin crustrada no Supremo. Mesmo desconfortáveis com o sobrenome Bolsonaro, podem concluir que Flávio é o único candidato capaz de derrotar o presidente. A 15 dias das eleições, o voto útil à direita nasce dessa rejeição. O centro se move, porém não caminha unido. Divide-se entre dois receios: o medo da continuidade de Lula e o medo da volta do bolsonarismo ao poder.

*Luiz Calos Azedo, jornalista, é colunista do Correio Braziliense.

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