Mangueira ‘busca remédio’ na Amazônia para conquistar título  e homenageia o Mestre Sacaca

Sem conquistar um título desde 2019 (“História para ninar gente grande”), a Mangueira leva para a Sapucaí no domingo de carnaval (15-02) o enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”, enaltecendo as tradições afro-indígenas do Norte brasileiro por meio de um dos seus mais célebres personagens.

O enredo mostra que na épica saga amazônica, é momento da celebração do Turé – ritual de agradecimento a seres de Outro Mundo. Invocado por sua plenitude e em estado de encantamento, Mestre Sacaca se manifesta espiritualmente para nos mostrar, como em delírio catártico, sua gente, seu lugar, seus mistérios e saberes.

Palafita amparada de palmeiras buçu

Palafitas são residências construídas em cima de estacas ou pilares (Divulgação)

O carnavalesco Sidnei  França descreve na sinopse que o Xamã Babalaô entra na palafita amparada de palmeiras buçu, relembrando as tecnologias e as invenções de seu povo, além das místicas da sua gente. Contempla os regatões do presente, o transporte dos sacos das farinhas e a alegria das brincadeiras dos inocentes, que também lembram as crianças.

A leitura do enredo percebe-se que o texto também destaca  a forte presença negra e indígena na Amazônia, baseando-se principalmente em narrativas de cura, oralidade e ancestralidade do Amapá. O enredo aborda a vivência do mestre, sua relação com os rios, as matas e os saberes populares de cura.

Sacaca foi casado com miss e teve 14 filhos

Mestre Sacaca era conhecedor de medicina natural, artesão de instrumentos e se casou com miss (Divulgação)

Nascido em 1926, em Macapá, Raimundo dos Santos Souza, o Mestre Sacaca era conhecedor de medicina natural, artesão de instrumentos, além de ter um papel fundamental na cultura indígena tucuju. Mestre Sacaca foi casado com a primeira miss Amapá, Madalena Souza, com quem teve 14 filhos. Ele participou ainda da fundação da União dos Negros do Amapá e da primeira associação de idosos do estado. Ele morreu em 1999, aos 73 anos de idade.

‘Doutor da Floresta’ ou ‘Curador’

Mestre Sacaca será homenageado pela Mangueira

Conhecido como “Doutor da Floresta” ou “Curador da Floresta” era procurado por moradores de todo o Amapá em busca de tratamentos naturais, chás e ervas medicinais. Ele escreveu três livros e catalogou plantas com uso terapêutico.

“O trabalho de mestre Sacaca com as plantas “Seu trabalho com as plantas foi referência para muitos pesquisadores que desenvolviam estudos sobre a fauna e a flora amazônica. A Universidade Federal do Amapá (Unifap) concedeu a ele, o título de doutor ‘Honoris Causa – Post Mortem’, pelos diversos serviços ofertados para a comunidade”,  destaca um informe do Governo do Amapá.

Conheça o samba da Mangueira

Enredo: “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”

Carnavalesco: Sidnei França

Compositores: Joãozinho Gomes, Pedro Terra, Tomaz Miranda, Paulo César Feital, Herval Neto e Igor Leal

Finquei minha raiz
No extremo norte onde começa o meu país
As folhas secas me guiaram ao turé
Pintada em verde-e-rosa, jenipapo e urucum

Árvore-mulher, mangueira quase centenária
Uma nação incorporada
Herdeira quilombola, descendente palikur
Regateando o amazonas no transe do caxixi
Corre água, jorra a vida do oiapoque ao jari

Çai erê, babalaô, mestre sacaca
Te invoco do meio do mundo pra dentro da mata
Salve o curandeiro, doutor da floresta

Preto velho, saravá
Macera folha, casca e erva
Engarrafa a cura, vem alumiar
Defuma folha, casca e erva… Saravá
Negro na marcação do marabaixo

Firma o corpo no compasso
Com ladrões e ladainhas que ecoam dos porões
Ergo e consagro o meu manto
Às bençãos do espírito santo e são josé de macapá
Sou gira, batuque e dançadeira (areia)

A mão de couro do amassador (areia)
Encantaria de benzedeira que a amazônia negra eternizou
No barro, fruto e madeira, história viva de pé
Quilombo, favela e aldeia na fé

De yá, benedita de oliveira, mãe do morro de Mangueira
Ouça o canto do uirapuru
Yá, benedita de oliveira, benze o morro de Mangueira
E abençoe o jeito tucuju
A magia do meu tambor te encantou no jequitibá
Chamei o povo daqui, juntei o povo de lá
Na estação primeira do Amapá

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