*Luiz Carlos Azedo
O canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones, com cerca de 3,6 milhões de inscritos, se tornou alvo da campanha do Flávio Bolsonaro
O PT conseguiu, na última semana, dar forma política à reação de setores da sociedade ao resultado do primeiro turno. Depois da perplexidade provocada pela vantagem de Flávio Bolsonaro (PL), a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva começou a encontrar nas ruas uma energia que lhe faltara antes da votação. Universitários e secundaristas aparecem como protagonistas dessa retomada. A mobilização ainda não comprova uma virada eleitoral, mas rompe a imagem de uma candidatura paralisada diante do avanço do adversário.
Flávio busca preservar sua vantagem e conter a recuperação do adversário, inclusive pela via judicial. Lula precisa fazer a energia dos estudantes e das manifestações chegar às periferias, aos trabalhadores e aos eleitores que rejeitam ambos. A rua devolveu iniciativa à campanha governista. A mudança consiste em aproximar a estrutura partidária de uma disposição de resistência política ampla, que ultrapassa suas fronteiras.
Para parte desses jovens, a eleição passou a representar uma escolha sobre educação pública, direitos trabalhistas e democracia. O desafio petista é transformar essa percepção em participação organizada e, depois, em votos. Uma praça cheia pode devolver confiança à militância, porém, conquistar quem está fora dela exige propostas capazes de responder ao custo de vida, à insegurança e à falta de perspectivas.
No dia 7, estudantes convocados pela União Nacional dos Estudantes percorreram o centro do Rio, da Candelária à Cinelândia. A defesa da educação pública e do programa Pé-de-Meia apareceu entre as reivindicações. No dia seguinte, milhares de jovens saíram da Praça Santos Andrade, diante da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, em direção à Boca Maldita. Cartazes em defesa da democracia e dos direitos trabalhistas associaram o apoio a Lula à oposição a Flávio e ao governador eleito Sérgio Moro.
O ponto de maior visibilidade foi a Marcha pela Democracia na Avenida Paulista, no domingo, com a presença de Lula. A jornada teve atos em outras 76 cidades. Ontem (12/10), Copacabana reuniu milhares de apoiadores, mesmo sem o presidente, numa concentração que ocupou cerca de sete quarteirões da Avenida Atlântica. Houve também mobilizações em Belo Horizonte, Recife, Vitória, Goiânia e Campinas. A dispersão territorial importa: mostra capacidade de convocação além da agenda pessoal do candidato.
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Há uma ligação direta entre essa ocupação das ruas e a tentativa de reduzir a desvantagem digital do presidente. As redes convocam, distribuem argumentos e fazem circular as imagens dos atos, enquanto as manifestações devolvem às redes uma demonstração de força, que alcança pessoas que não frequentam reuniões partidárias. O celular funciona como instrumento de organização, enquanto a presença física oferece a experiência coletiva que as mensagens nas redes não produzem.
Disputa judicial
É nesse circuito que se insere o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones, com cerca de 3,6 milhões de inscritos. Seu alcance ajuda a explicar por que se tornou alvo da campanha de Flávio Bolsonaro. Ao pedir sua suspensão, sob a alegação de disseminação de desinformação, a oposição procurou retirar de funcionamento um instrumento importante da reação petista. A disputa judicial interfere na capacidade de mobilização do Lula.
O cabo de guerra no Tribunal Superior Eleitoral agrava essa dimensão. O presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão do canal depois que a campanha de Flávio o procurou, embora o caso já estivesse sob análise do corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva. O relator revogou a ordem, considerou insuficientes os elementos para uma restrição tão abrangente e remeteu a controvérsia ao plenário. Manteve, entretanto, a proibição de divulgar conteúdos considerados ilícitos.Nunes Marques convocou as duas campanhas para esclarecimentos.A área técnica do TSE não econtrou motivos para a proibição do canal.
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Combater informações falsas é necessário, mas bloquear integralmente um canal exige fundamentação proporcional ao impacto da medida. A indicação de Nunes Marques por Jair Bolsonaro não demonstra, por si, parcialidade, porém, torna ainda mais importante a transparência de uma decisão que beneficia eleitoralmente o filho do ex-presidente. A sobreposição de ordens tumultua o processo. E oferece aos dois lados argumentos para contestar a atuação dos ministros do TSE quando lhes é desfavorável.
Politicamente, a suspensão também produziu um efeito contrário ao pretendido. O canal ganhou inscritos, Janones converteu a controvérsia em campanha contra a censura, e Lula encontrou um episódio concreto para mobilizar seus apoiadores. Isso não resolve a discussão sobre o conteúdo das mensagens nem autoriza a divulgação de fake news.
A reação de Lula ocorre junto com uma reorganização do comando petista. Camilo Santana passou a cuidar da articulação política; Rui Costa, da agenda; e Rafael Fonteles, do aconselhamento na comunicação. Lula ampliou seu controle sobre as decisões da campanha, enquanto Geraldo Alckmin deve ganhar espaço na aproximação com eleitores não petistas. A redistribuição procura combinar coordenação territorial, comunicação e ampliação de alianças.
*Luiz Carlos Azedo,jornalista, é colunista do Correio Braziliense.
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