*Luiz Carlos Azedo
É essa a lógica que conecta iniciativas aparentemente distintas, como o fim da escala 6 x 1 e a renegociação de dívidas com cartões de crédito, que voltam à pauta do Congresso
A “economia do afeto”, conceito formulado pelo historiador Alberto Aggio para explicar uma das características centrais da cultura política do lulismo, talvez seja a melhor chave para compreender os movimentos recentes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em busca da reeleição. Trata-se de uma relação de reciprocidade entre ele e os setores populares, construída pelo reconhecimento simbólico, pela identificação pessoal e por políticas que produzam benefícios concretos no cotidiano.
É essa lógica que conecta iniciativas aparentemente distintas, como o fim da escala 6 x 1; a redução da chamada “taxa das blusinhas”; a renegociação de dívidas com cartões de crédito e outras medidas voltadas para renda, consumo e qualidade de vida. Lula procura reconstruir a percepção de que seu governo melhora a vida dos “de baixo”. Ao mesmo tempo, isso depende da aliança pragmática com o Centrão, materializada na aproximação com os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
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No seu livro A Construção da Democracia no Brasil (Fundação Astrojildo Pereira/Annabrume), ao analisar a política brasileira de 1985 a 2025, Aggio identifica três dimensões da cultura política petista: o rechaço à política tradicional, a economia do afeto e a cultura da escolha racional. A aparente contradição entre elas explicar as “metamorfoses” de Lula. O partido que nasceu denunciando a “velha política” passou a operar suas engrenagens. Entretanto, Lula negocia com partidos de centro e direita sem perder conexão emocional com sua base popular.
Essa combinação será levada ao limite na nesta campanha de 2026. O pacto com Alcolumbre e Motta ultrapassa as conveniências eleitorais no Amapá e na Paraíba, respectivamente, e ganha dimensão nacional. Formou-se uma “troika” para preservação do poder no Executivo e no Congresso. Os resultados começaram a aparecer. Depois de meses parada no Senado, a proposta que extingue a escala 6 x 1 voltou a andar. Omar Aziz (PSD-AM) decidiu manter o texto aprovado pela Câmara, para matéria não retornar aos deputados.
A proposta reduz gradualmente a jornada semanal de 44 para 40 horas e assegura dois dias remunerados de descanso. Poucas bandeiras possuem capacidade semelhante de produzir identificação entre Lula e os trabalhadores de menor renda. Segundo dados do Ipea, 80% dos trabalhadores submetidos a jornadas superiores a 40 horas recebem até dois salários mínimos e 90%, até três. O benefício concentra-se justamente no eleitorado em que a economia do afeto tem mais repercussão eleitoral.
Endividamento
Movimento semelhante ocorre com a “taxa das blusinhas”. A medida provisória editada pelo governo zerou o imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. Após reunião de Lula com Alcolumbre e Motta, o Congresso antecipou a instalação da comissão mista encarregada de analisar a MP. A medida tem forte apelo entre consumidores de menor renda, ao reduzir impostos sobre compras, embora enfrente resistência da indústria nacional e riscos para a produção e o emprego.
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Mais uma vez, Lula aposta na transformação de demandas econômicas imediatas em vínculos políticos. Existe, entretanto, uma diferença fundamental entre 2026 e outras eleições: Lula não controla o comportamento da economia. Os números são contraditórios. O mercado de trabalho permanece forte. O desemprego caiu para 5,3% no trimestre encerrado em julho, menor nível para o período desde o início da série histórica, em 2012. São 103,3 milhões de ocupados e 39,4 milhões de empregados com carteira assinada no setor privado.
O IPCA-15 caiu 0,40% em agosto e acumulou 4,24% em 12 meses, devido principalmente a fatores pontuais: o bônus de Itaipu nas contas de luz e as quedas de combustíveis e passagens aéreas. A inflação de serviços, porém, permanece resistente. O maior problema está no crédito. Com a Selic a 14% ao ano, o nível continua restritivo para consumidores e empresas. Soma-se a isso a questão fiscal. O governo central acumulou deficit primário de R$ 81,3 bilhões entre janeiro e julho, e se projeta um deficit de aproximadamente R$ 59,1 bilhões, em 2026.
É no orçamento doméstico, porém, que aparece o maior risco eleitoral. Em julho, 82% das famílias brasileiras estavam endividadas. Quase 30% tinham contas atrasadas e as famílias endividadas comprometiam, em média, 29,5% da renda mensal com pagamentos. O cartão de crédito estava presente em mais de 85% dos casos. A pressão já chegou às empresas. Grandes redes varejistas precisaram reestruturar mais de R$ 68 bilhões em dívidas nos últimos dois anos e meio. Juros elevados, crédito restrito, endividamento dos consumidores e transformação estrutural provocada pelo comércio eletrônico formam uma combinação perigosa. É ai que a centralidade da democracia pode fazer a diferença.
*Luiz Carlos Azedo, jornalista, é colunista do Correio Braziliense.
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