O combate às milícias e ao crime organizado dominou o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste sábado, 23 de maio, durante agenda oficial no Rio de Janeiro. Ao lado de autoridades, na inauguração das novas instalações do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, Lula fez um apelo direto ao governador interino do estado, Ricardo Couto, para que concentre sua atuação na prisão de criminosos e de agentes públicos ligados a grupos paramilitares.

A cobrança foi pública, em tom firme, e expôs o peso político que a segurança pública voltou a assumir no Rio de Janeiro. Diante de um estado marcado por sucessivas crises institucionais e pela expansão territorial de facções e milícias, o presidente afirmou que a principal expectativa da população, neste momento, não é a realização de grandes obras, mas uma resposta efetiva contra a criminalidade.
“Ninguém está esperando que você faça um viaduto. Ninguém está esperando que você faça uma ponte. Ninguém está querendo que você faça uma praia artificial. Sabe o que essas pessoas esperam de você nesses meses? Trabalhe para prender todos os ladrões que governaram esse estado. E deputados que fazem parte de uma milícia organizada”, disse Lula.
A declaração foi feita durante cerimônia que também marcou o lançamento do Centro de Desenvolvimento e Produção de Terapias CAR-T e a entrega de 42 veículos dos programas Agora Tem Especialistas-Caminhos da Saúde e do Samu para o estado do Rio. Embora a pauta principal do evento estivesse voltada à saúde pública, foi a fala sobre segurança que acabou dando o tom político da agenda.
Ao citar o avanço do crime organizado, Lula associou a crise fluminense a uma deterioração da imagem do estado, dentro e fora do país. Segundo ele, é incompatível que o Rio de Janeiro, pela visibilidade que tem no Brasil e no mundo, continue sendo frequentemente retratado como território dominado por grupos criminosos.
“Não é possível o Rio de Janeiro, o estado mais conhecido no mundo, a cidade mais famosa no mundo, a gente ouvir nos jornais que o crime organizado tomou conta do território, que as facções tomaram conta do território”, afirmou o presidente.
O recado foi direcionado nominalmente a Ricardo Couto, que ocupa interinamente o comando do Palácio Guanabara. Lula procurou reforçar a ideia de que, mesmo em um mandato temporário, há espaço para ações de impacto na área mais sensível da administração fluminense. Ao falar do tempo limitado à frente do governo, o presidente pediu que Couto aproveite o período para fazer o que, segundo ele, outros gestores não conseguiram realizar ao longo de anos.
“Aproveite esses seis meses que você tem. Ou 10 meses. Aproveite. Faça o que muita gente não fez em 10 anos nesse estado. Ajude a consertar esse estado. Pode ficar certo que é isso que o povo do Rio de Janeiro espera de você. Não é possível esse estado poderoso, bonito, ser governado por miliciano. O povo do Rio não merece isso”, declarou.
Além da cobrança, Lula sinalizou apoio do governo federal ao governador interino. O presidente disse que o Palácio do Planalto está disposto a atuar em conjunto com o estado e voltou a defender a ampliação da participação da União na segurança pública. Para isso, mencionou a Proposta de Emenda à Constituição 18/25, chamada de PEC da Segurança Pública, já aprovada pela Câmara dos Deputados e ainda pendente de análise no Senado.
Segundo Lula, a proposta é necessária para redefinir o papel da União no enfrentamento à violência e abrir caminho para a criação do Ministério da Segurança Pública. Na avaliação do presidente, a atual divisão de competências limita a capacidade do governo federal de agir com mais força em situações graves vividas pelos estados.
“Pra gente poder enfrentar [questões envolvendo segurança pública], de fato, tem que definir qual é o papel da União. Pela Constituição de 88, a União não tem muito papel na segurança”, afirmou.
No mesmo trecho, Lula também fez uma observação sobre a relação entre governadores e as forças policiais. Sem citar casos específicos, ele disse que muitos chefes do Executivo estadual acabam fragilizados diante das estruturas da própria segurança pública.
“Muitas vezes, o governador fica refém da polícia. E aí, não se liberta mais”, completou.
A fala do presidente reforça um diagnóstico que vai além da repressão ao crime nas ruas. O discurso aponta para dificuldades políticas e institucionais no comando da segurança pública, especialmente em estados onde o tema se tornou um problema crônico. No caso do Rio, esse cenário ganha contornos ainda mais delicados por causa da instabilidade no comando do governo estadual.
Ricardo Couto está no cargo por decisão judicial. Em abril, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, decidiu manter o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro na função de governador interino. Com isso, ele segue à frente do Executivo estadual até que a Corte defina a situação das eleições para o mandato-tampão no estado.
Esse contexto ajuda a explicar o teor do discurso presidencial. Ao falar diretamente com um governador interino, Lula não apenas cobrou providências, como também buscou transformar a brevidade da gestão em argumento para uma atuação concentrada e objetiva. A mensagem central foi a de que o tempo curto não pode servir de justificativa para inércia.
O gancho do discurso está justamente aí. Em vez de fazer uma fala protocolar em um evento da área da saúde, Lula usou a agenda para empurrar o debate da segurança pública de volta ao centro da política fluminense. O presidente tirou o foco de promessas administrativas genéricas e apontou para um alvo específico: o enfrentamento às milícias, tema que há anos atravessa o cotidiano do Rio e afeta diretamente a vida da população.
Na prática, o pronunciamento também amplia a pressão sobre Ricardo Couto. A partir de agora, a gestão interina passa a ser observada sob essa cobrança explícita, feita em público e em um evento oficial. O peso simbólico da declaração é relevante porque parte do presidente da República e toca em uma das maiores feridas políticas do estado.
Apesar do tom duro, Lula procurou deixar claro que a União pretende participar dessa agenda, desde que haja avanço institucional para isso. Ao vincular a promessa de apoio à discussão da PEC da Segurança Pública, o presidente reforçou a estratégia do governo federal de defender maior coordenação nacional no combate ao crime organizado.
A agenda na Fiocruz, originalmente voltada para saúde, ciência e estrutura de atendimento, acabou servindo de palco para uma mensagem política de alcance mais amplo. O evento incluiu a inauguração das novas instalações do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde, o lançamento do Centro de Desenvolvimento e Produção de Terapias CAR-T e a entrega de 42 veículos para programas de atendimento no estado. Ainda assim, foi a crise da segurança pública no Rio que dominou o discurso e deve seguir repercutindo nos próximos dias.
Para além da crítica, Lula procurou resumir em poucas frases aquilo que considera ser a prioridade do governo fluminense neste momento: enfrentar grupos criminosos que, segundo ele, há anos interferem no funcionamento do estado. Sem anunciar novas medidas concretas no evento, o presidente colocou o tema no centro da agenda e marcou posição ao dizer que o povo do Rio não merece conviver com esse cenário.
Com informações do portal A Critica