*Luiz Carlos Azedo
O ex-governador mineiro tenta romper sua condição de candidato periférico. Com 4% no primeiro turno, adotou o discurso antissistema mais radical
A semana começou em clima de campanha eleitoral e com pesquisas que confirmam a resiliência da polarização numa disputa sucessória que está aberta. O novo levantamento da Nexus/BTG Pactual, divulgado ontem, mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em empate técnico no segundo turno: 46% a 45% pontos percentuais de intenções de votos, respectivamente. No primeiro turno, Lula aparece com 41% das intenções de voto, contra 36% de Flávio, mantendo uma distância estável, porém insuficiente para afastar o risco de derrota no segundo turno.
Lula e Flávio enfrentam dificuldades para avançar sobre o eleitorado indeciso. Por isso, a eleição está aberta e dependerá tanto da fidelidade dos eleitores já alinhados, quanto da capacidade de construir um discurso que dialogue com o centro e os eleitores que ainda podem mudar o voto nos segmentos mais voláteis do eleitorado. As estratégias são distintas, porém, revelam que esse é o objetivo imediato de ambos.
O governo corre para aprovar uma agenda econômica de alívio imediato para as famílias endividadas, um dos principais focos de insatisfação social. O Ministério da Fazenda anunciou um novo programa de renegociação de dívidas, o Desenrola 2.0, com descontos que podem chegar a 90% sobre débitos de cartão de crédito e empréstimos sem garantia.
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O endividamento das famílias atingiu 49,9% da renda, o maior nível da série histórica recente. Ao tentar rolar essas dívidas, o governo busca reduzir a pressão sobre o consumo e, sobretudo, recompor sua base eleitoral nas classes médias e populares, onde o desgaste é perceptível. Ainda assim, a aprovação do governo segue apertada: 46% aprovam e 49% desaprovam, o que ajuda a explicar o empate técnico com Flávio.
No campo da oposição, Flávio Bolsonaro intensifica a vinculação com o agronegócio, setor estratégico para sua campanha, do ponto de vista econômico e eleitoral. Ao participar do Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), disse que o agro é “tratado como lixo” pelo governo. O segmento historicamente gravita em torno da direita e é disputado pelo ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), liderança histórica dos ruralistas.
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No mesmo evento, ao seu lado, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), anunciou uma “virada de chave” em outubro e declarou que o senador “vai honrar o legado” do ex-presidente Jair Bolsonaro, de quem é o primogênito. A dobradinha com Tarcísio, somada ao desempenho do senador Sergio Moro no Paraná (lidera isolado com até 42%), reforça a formação de um bloco competitivo no campo conservador, com forte capilaridade regional.
Boneco estilizado
Enquanto isso, o ex-governador Romeu Zema (Novo) faz das tripas coração para romper sua condição de candidato periférico. Com 4% no primeiro turno, o político mineiro adotou uma estratégia de alto risco: a radicalização do discurso antissistema. Em vídeos produzidos com inteligência artificial, intensificou os ataques ao ministro Alexandre de Moraes e ao Supremo Tribunal Federal, que virou sua principal agenda eleitoral. Zema propõe, inclusive, a criação de uma nova Corte com regras mais rígidas de nomeação e controle. Essa tentativa de capturar o eleitorado mais crítico às instituições ainda não deu resultados.
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Em material divulgado domingo, um boneco criado pelo Novo, o Romeu Zema estilizado, com uma camisa com os dizeres “Sô mineirin sim, uai”, faz referência ao contrato firmado pelo Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes: “Tem um ministro careca de saber que a casa dele já caiu, mas o que ele tem que fazer é explicar R$ 129 milhões para o Brasil”.
No plano regional, as pesquisas mostram uma disputa nacional. No Rio de Janeiro, o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) aparece com até 40% das intenções de voto, consolidando-se como principal aliado do presidente em um dos estados-chave da Federação. Já no Paraná, a liderança de Moro indica vantagem para o campo oposicionista, reforçando a divisão territorial da disputa.
A eleição já não tem um favorito, a polarização não resolve a disputa. Lula mantém a ligeira dianteira no primeiro turno e tenta recuperar terreno com medidas econômicas de impacto social imediato. Flávio Bolsonaro cresce na esteira do bolsonarismo e busca ampliar sua base junto ao agronegócio e aos aliados regionais. Zema tenta furar a bolha com discurso disruptivo, enquanto outros nomes orbitam o cenário sem ainda alterar o eixo central da disputa. A palavra que melhor define a largada da campanha é incerteza.
*Luiz Carlos Azedo, jornalista, é colunistado Correio Braziliense.
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