A Light anunciou um plano de investimentos de R$ 10 bilhões para os próximos cinco anos nos 31 municípios de sua área de concessão no Estado do Rio de Janeiro, informa o jornal O Globo. O montante representa mais que o dobro do valor aplicado pela companhia nos últimos cinco anos e faz parte da nova fase da empresa após a renovação da concessão de distribuição de energia por mais 30 anos.
A extensão do contrato foi autorizada pelo Ministério de Minas e Energia após recomendação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), aprovada na última sexta-feira.
A decisão é considerada estratégica para a sobrevivência financeira da companhia, que entrou em recuperação judicial em 2023 diante de um cenário marcado por elevado endividamento, perdas bilionárias com furtos de energia e dificuldades para renegociar compromissos financeiros.
Como concessionárias de energia elétrica não podem recorrer diretamente à recuperação judicial, o pedido foi apresentado pela holding Light S.A., responsável pelo controle da distribuidora.
A empresa atende atualmente 4,3 milhões de unidades consumidoras em 31 municípios fluminenses, alcançando cerca de 12 milhões de pessoas.
Renovação da concessão destrava reestruturação
A renovação do contrato era considerada uma condição essencial para o avanço do processo de recuperação judicial da companhia.
Com a garantia de continuidade da concessão, a Light prepara agora uma nova etapa de reorganização financeira, que inclui aumento de capital e conversão de dívidas em ações.
Segundo a empresa, a distribuidora deverá realizar, nos próximos 90 dias, uma capitalização entre R$ 1 bilhão e R$ 1,5 bilhão.
Além disso, cerca de R$ 2,2 bilhões em dívidas serão convertidos em participação acionária.
O CEO da Light, Alexandre Nogueira, afirmou que a redução do endividamento foi decisiva para permitir a continuidade das operações e criar condições para a saída definitiva da recuperação judicial.
“Esse é o último ato para que a empresa finalmente saia da recuperação judicial e encerre esse ciclo. Nossa esperança é sair da recuperação judicial no segundo semestre. Esse cenário só foi possível devido à redução drástica do endividamento pela negociação com os credores, além dos avanços nos indicadores operacionais”, afirmou.
A dívida da empresa, que chegou perto de R$ 11 bilhões no auge da crise, encerrou 2025 em R$ 6,4 bilhões.
Plano prevê modernização e digitalização
Os recursos previstos no novo ciclo de investimentos serão destinados principalmente à modernização da infraestrutura elétrica, renovação de equipamentos, expansão da rede e reforço tecnológico.
A Light também pretende ampliar ações de recuperação de energia e investir em sistemas digitais para melhorar o monitoramento da operação.
Segundo Alexandre Nogueira, a estratégia busca aumentar a eficiência da distribuição elétrica e reduzir interrupções no fornecimento.
O executivo destacou que a empresa vem ampliando gradualmente os investimentos mesmo durante o período de recuperação judicial.
“Em 2023, investimos R$ 824 milhões e, no ano seguinte, o investimento subiu a R$ 967 milhões. Já em 2025, os acionistas deram suporte à aceleração do plano, e o investimento atingiu R$ 1,6 bilhão. Para este ano, a perspectiva é que fique entre R$ 1,8 bilhão e R$ 2 bilhões”, disse.
A companhia pretende substituir equipamentos antigos, automatizar sistemas operacionais e reforçar a capacidade de resposta da rede elétrica diante de eventos climáticos extremos.
O plano também leva em consideração o crescimento futuro da demanda por energia, impulsionado pelo avanço de data centers e pelo aumento do uso de ferramentas ligadas à inteligência artificial.
“O novo contrato dá à Light sustentabilidade para realizar esses investimentos, seguir melhorando o serviço e voltar a remunerar os acionistas. Investir na renovação é cuidar da base que sustenta todo o sistema elétrico”, afirmou Nogueira.
Lucro caiu em 2025
Apesar do avanço operacional e da renegociação financeira, a companhia registrou queda significativa no lucro em 2025.
Segundo dados divulgados pela empresa, a Light encerrou o ano passado com lucro de R$ 213 milhões, resultado 87% menor do que o registrado no ano anterior.
Ainda assim, a companhia afirma que conseguiu manter pagamentos a fornecedores, funcionários e obrigações regulatórias mesmo durante o período de recuperação judicial.
A expectativa da direção da empresa é que a nova estrutura financeira permita maior estabilidade operacional nos próximos anos.
Furtos de energia seguem como desafio
Um dos principais problemas enfrentados pela Light continua sendo o elevado índice de perdas de energia, especialmente em áreas consideradas de risco.
A empresa defende mudanças regulatórias que permitam tratamento diferenciado para regiões com grande concentração de furtos e dificuldades operacionais.
O tema está atualmente em discussão na Aneel, que deverá regulamentar novas regras para essas áreas ainda neste ano.
Segundo Alexandre Nogueira, a criação de tarifas específicas para regiões de risco pode ser determinante para reduzir perdas financeiras e combater a inadimplência.
“A possibilidade de tarifa específica para áreas de risco, no novo arcabouço contratual, é fundamental para a redução de furtos e inadimplência”, afirmou.
Nos bastidores do setor elétrico, a discussão sobre furtos de energia é vista como um dos maiores desafios para distribuidoras que atuam em regiões metropolitanas com alta presença de áreas dominadas pelo crime organizado.
A expectativa da Light é que a renovação da concessão e o novo pacote de investimentos permitam consolidar a recuperação financeira da companhia e ampliar a capacidade de modernização da rede elétrica fluminense ao longo da próxima década.
