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Israel faz ataque inédito contra o Qatar e mata membros do Hamas

Ação aumenta a tensão na região, provoca uma rara repreensão dos EUA e mina negociações para uma trégua em Gaza

O governo de Israel realizou nesta terça-feira (9) um ataque sem precedentes contra lideranças políticas do grupo palestino Hamas em Doha, capital do Catar, matando seis pessoas e elevando as tensões já existentes entre Tel Aviv e os países árabes devido à sequência da guerra na Faixa de Gaza.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que a operação foi “totalmente independente”, sugerindo que os Estados Unidos — aliados próximos tanto de Israel como do Catar — não tiveram envolvimento direto na ação. Ele ainda disse que o ataque era “totalmente justificável” após dois atiradores terem matado seis pessoas em Jerusalém, um atentado reivindicado pelo braço armado do grupo palestino.

Hamas afirmou que cinco de seus membros foram mortos, mas que Israel fracassou no que chamou de “tentativa de assassinato” da equipe que negociava uma proposta de cessar-fogo em Gaza. O principal alvo da ação, segundo militares de Israel, era Khalil al-Hayya, chefe exilado do enclave palestino, que teria sobrevivido à ofensiva em Doha.

O grupo afirmou que o ataque é uma prova de que o governo de Netanyahu não quer chegar a um acordo em Gaza, já que ocorreu em um momento em que o Hamas discutia a mais recente proposta de trégua feita pelos EUA.

O Catar condenou o ataque, chamando-o de uma “violação flagrante da lei internacional” depois que várias explosões foram ouvidas na capital. Em uma postagem no X, o chanceler do país, Majed al-Ansari, afirmou que seu governo não toleraria o “comportamento irresponsável israelense” e a “contínua interferência” de Tel Aviv na segurança regional.

Mais tarde, o primeiro-ministro do país, xeque Mohammed bin Abdulrahman al-Thani, disse que foi avisado por autoridades dos EUA apenas dez minutos depois do início da ofensiva. “O Catar se reserva o direito de responder a esse ataque flagrante e tomará todas as medidas necessárias”, afirmou.

Israel declarou guerra ao Hamas em Gaza depois do ataque do grupo militante ao país em outubro de 2023. Ao lado do Egito, o Catar é um dos principais mediadores entre Tel Aviv e o grupo palestino, mas as negociações sobre um cessar-fogo, que também contam com a participação dos EUA, estão travadas desde meados de agosto.

O governo dos EUA confirmou que informou ao Catar sobre o ataque, mas se recusou a dizer se havia sido avisado por Tel Aviv.

Em uma rara censura a Israel, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que “bombardear o Catar, uma país soberano e aliado próxima dos EUA que está trabalhando arduamente e assumindo riscos corajosamente conosco para negociar a paz, não promove os objetivos de Israel ou dos EUA”.

No entanto, acrescentou que “eliminar o Hamas, que lucrou com o sofrimento daqueles que vivem em Gaza, é um objetivo válido”.

A mensagem foi replicada em uma rede social por Trump, que disse ter conversado com os líderes dos dois países. “Esta foi uma decisão tomada pelo primeiro-ministro Netanyahu, não a uma decisão tomada por mim”, disse ele, acrescentando esperar que este “infeliz incidente” poderia servir como uma oportunidade para a paz.

O ataque israelense à liderança política do Hamas deve elevar as tensões na região e mina os esforços para um cessar-fogo em Gaza. Além disso, os países do Golfo devem ficar ainda mais reticentes em relação aos EUA, que não têm se mostrado um parceiro confiável desde a volta de Trump ao poder.

Israel nunca havia atacado o Catar. A ofensiva deve aumentar a irritação dos países árabes, já alarmados com o crescente número de palestinos mortos em Gaza e com o impacto humanitário da guerra.

O xeque Abdullah bin Zayed, chanceler dos Emirados Árabes Unidos, que estabeleceram relações diplomáticas com Israel após um acordo mediado por Trump no primeiro mandato, pediu à comunidade internacional que convença Tel Aviv a interromper o que chamou de “ataques bárbaros”.

A Arábia Saudita classificou a ação militar como uma “violação flagrante” da soberania do Catar. Já o governo da Turquia disse que Israel violou a lei internacional.

Outros líderes mundiais também condenaram a ação. O presidente da França, Emmanuel Macron, descreveu os ataques como “inaceitáveis”. “Em nenhuma circunstância, a guerra deve se espalhar pela região”, disse ele.

Por sua vez, o secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou o ataque como um “flagrante violação da soberania e da integridade territorial do Catar”.

O Catar abriga a maior instalação militar americana no Oriente Médio, alvo de um ataque do Irã depois de os EUA terem bombardeado instalações militares do país. O QIA, fundo soberano do Catar, é um grande investidor nos EUA e, como parte da viagem de Trump ao país em maior, prometeu desembolsar mais centenas de bilhões de dólares nos EUA.

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