As exportações brasileiras para países do Golfo Pérsico caíram em março, em meio aos efeitos da guerra no Irã e às dificuldades de navegação no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas do comércio mundial.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), compilados na plataforma ComexStat, mostram que as vendas brasileiras para a região somaram US$ 537,1 milhões no mês. O valor representa uma queda de 31,47% em relação a março do ano passado.
O Golfo Pérsico reúne mercados importantes para o Brasil, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Omã e Bahrein. A maior parte do comércio com esses países é formada por produtos do agronegócio, que representam cerca de 75% das exportações brasileiras para a região.
Isso porque a interrupção parcial do transporte marítimo afetou principalmente alimentos que dependem de embarques regulares em grande escala.
O milho praticamente deixou de ser enviado no mês, enquanto as exportações de açúcar e melaços sofreram forte retração. Outros grãos também sentiram o impacto: no caso do trigo e do centeio, não houve embarques relevantes ao Golfo Pérsico em março (veja os detalhes na tabela abaixo).

A principal explicação para a queda está na logística. Com o aumento do risco na região, companhias de navegação passaram a cobrar taxas adicionais e a adotar rotas mais longas, muitas vezes contornando o continente africano para evitar a passagem por Ormuz.
O desvio amplia o tempo de viagem e encarece o transporte.
Para analistas do mercado financeiro, episódios como o conflito no Irã mostram como fatores políticos passaram a influenciar diretamente o comércio de commodities.
“A geopolítica voltou a ditar regras no fluxo global de mercadorias”, afirma Pedro Ros, CEO da Referência Capital.
Segundo ele, tensões internacionais podem alterar rotas logísticas, pressionar custos de seguro e aumentar a volatilidade de preços, exigindo maior planejamento das empresas exportadoras.
Carnes e commodities mantêm demanda
Mesmo com a queda das exportações brasileiras ao Golfo Pérsico em março, alguns produtos mantiveram demanda e ajudaram a sustentar o fluxo comercial com a região. As carnes seguem como um dos principais pilares da pauta brasileira nesses mercados.
O frango permanece como o principal item exportado pelo Brasil ao Golfo, liderando as vendas externas tanto em 2025 quanto no início deste ano.
A carne bovina também mostrou resiliência no período, com avanço no valor exportado — movimento associado sobretudo à alta dos preços internacionais, e não necessariamente ao aumento do volume embarcado.
A relação comercial entre Brasil e Golfo, no entanto, não se limita às exportações brasileiras.
O país também depende de produtos vindos da região — especialmente fertilizantes nitrogenados, insumos essenciais para a produção agrícola. Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos estão entre os principais fornecedores desses produtos para o mercado brasileiro.
Diante das incertezas sobre a duração do conflito e das dificuldades no transporte marítimo, empresas brasileiras passaram a antecipar compras para garantir estoques.
Não por acaso, em março, as importações de fertilizantes nitrogenados vindos desses países cresceram mais de 265%, segundo dados do MDIC.