*Luiz Carlos Azedo

Que país queremos? Essa pergunta está posta novamente nas eleições, com o agravante de os liberais não terem um projeto claro. Muito da polarização se deve a isso
A eleição presidencial mostra uma polarização assimétrica. Candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera a disputa nacionalmente e conserva vantagem nas simulações de segundo turno, enquanto Flávio Bolsonaro demonstra resiliência suficiente para permanecer como seu principal adversário. Apesar das denúncias, erros e brigas na campanha do filho 01 de Jair Bolsonaro, as possibilidades de uma terceira via continuam restritas. Os ex-governadores Ronaldo Caiado (GO) e Romeu Zema (MG), mesmo com a projeção conquistada como governadores, não conseguem transformar seus redutos regionais em alavanca para nacionalizar as candidaturas.
Os principais colégios eleitorais mostram dois Brasis: o meridional e o setentrional. Essa divisão foi apontada a primeira vez em 1920, em Populações Meridionais do Brasil, de Oliveira Viana. Escrito entre 1916 e 1918, levou dois anos para ser publicado, pela livraria José Olympio. O que dizia Viana? Ele definia três arquétipos para o povo brasileiro: o sertanejo, o matuto e o gaúcho. O primeiro volume de Populações Meridionais do Brasil dedicou aos paulistas, fluminenses e mineiros; o segundo, ao campeador rio-grandense. Foram sucedidos pela publicação meteórica de mais quatro ensaios: O Idealismo da Constituição (1920), Pequenos Estudos da Psicologia Social (1921), Evolução do Povo Brasileiro (1923) e O Ocaso do Império (1924). Partia do homem para criticar as instituições da época.
“O sentimento das nossas realidades, tão sólido e seguro nos velhos capitães gerais, desapareceu, com efeito, das nossas classes dirigentes: há um século vivemos praticamente em pleno sonho (….) O grande movimento democrático da Revolução Francesa; as agitações parlamentares inglesas; o espírito liberal das instituições que regem a república americana, tudo isto exerceu e exerce sobre nossos dirigentes, políticos, estadistas, legisladores, publicistas, uma fascinação magnética que lhes daltoniza completamente a visão nacional dos nossos problemas. Sob esse fascínio inelutável, perdem a noção objetiva do Brasil real e criam para uso deles um Brasil artificial”.
Oliveira Viana atacou frontalmente os liberais brasileiros, corroborado pela iniquidade social que havia sido desnudada por Euclydes da Cunha, ao descrever a Guerra de Canudos em Os Sertões. Concluía que era preciso “coragem infinita” para “contravir ostensivamente às ideias de liberdade e construir um poderoso Estado centralizado, capaz de impor-se a todo o país pelo prestígio fascinante de uma grande missão nacional”. Ao dizer que era impossível reproduzir aqui no Brasil o parlamentarismo inglês, o liberalismo democrático à francesa, ou o federalismo e descentralização republicana ao estilo americano, Oliveira Viana recomendava uma intervenção radical pelo Estado, destinado a criação de bases sociais aptas a sustentar futuros governos liberais. Para ele, esse “autoritarismo instrumental” da elite agrária e as populações meridionais, de recente imigração europeia, seriam protagonistas do moderno, enquanto o Brasil setentrional, sobretudo o Nordeste, representaria o atraso.
Faixa de fronteira
A consagração das ideias antissistema de Oliveira Viana viria com o Estado Novo, do qual foi o grande ideólogo, e com a “Polaca”, a Constituição de 1937, redigida por Francisco Campos e outorgada pelo ditador Getúlio Vargas. Ironicamente, Jorge Caldeira, em História da Riqueza no Brasil (Estação Brasil), destaca que o colapso político da República Velha interrompeu mudanças importantes que estavam em curso, alavancadas por nosso mercado interno e a economia do sertão, como o aumento de rentabilidade da exportação de café, a grande acumulação de capital dos cafeicultores paulistas, que apostaram na industrialização, e não no patrimonialismo, ao contrário das oligarquias rurais que Viana enaltecera.
enfrenta o mesmo obstáculo. Estribado nos resultados do governo de Goiás, sobretudo na segurança pública, na educação e na gestão administrativa, entretanto, não atravessa as fronteiras estaduais. No primeiro turno, Ronaldo Caiado lidera com 33% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro tem 27%. Lula (PT) registra 23%. Os demais candidatos pontuaram com 1% cada. Em cenários de segundo turno, Caiado tem 67% das intenções de voto contra 23% de Lula. Nos demais estados analisados, porém, oscila entre 1% e 4%: chega a 4% em Minas, registra 3% no Pará, no Rio e em São Paulo, 2% no Paraná e somente 1% na Bahia e em Pernambuco.
Apesar da trajetória política mais longa e da estrutura do PSD, ainda não conseguiu apresentar uma alternativa nacional ao bolsonarismo. Nas simulações de segundo turno, Caiado alcança resultados melhores: 30% contra 38% de Lula em Minas, 30% contra 45% no Pará, 34% contra 35% em São Paulo e 33% contra 29% no Paraná. Esse crescimento decorre, em boa medida, da transferência do voto contrário a Lula quando Flávio é retirado da disputa.
Vale a pena ler de novo:
Quando a “pequena política” põe em risco o papel do Estado Democrático
Uma história do jazz, a decadência da política e a blindagem eleitoral
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*Luiz Carlos Azedo,jornalista. é colunista do Correio Braziliense.
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