*Dom Gílson Andrade

A liturgia da solenidade de Todos os Santos, celebrada neste 1º de novembro, apresenta como ideal de santidade as Bem-aventuranças, pronunciadas por Jesus, no famoso “Sermão da Montanha” (Mt 5-7). O Catecismo da Igreja Católica lembra que elas descrevem o rosto de Jesus (cf. n. 1716) e, assim, representam uma estrada segura no seguimento do Senhor. O apóstolo Paulo apresenta o ideal do discípulo de Jesus como aquele em quem Cristo vive. Ele mesmo declara que para ele viver é Cristo (Fil 1, 21).
Dentre os traços do rosto de Jesus e que seus discípulos são chamados a reproduzir está a bem-aventurança da paz. Jesus declara “felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9).
A festa de Todos os Santos neste ano nos obriga a dar destaque a esta dimensão do compromisso cristão, uma vez que nesta semana fomos tristemente surpreendidos pelo resultado da megaoperação nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio, que vitimou 121 pessoas, dentre elas 4 policiais no exercício da missão.
É impossível ficar indiferentes diante das cenas que, à distância, presenciamos, mas que tocou de perto a vida de inúmeras famílias, penalizadas pela dor da perda de seus entes.
É normal que o fato suscite um acalorado debate, pois uma tamanha expressão de violência traz consigo sempre indignação e muitas perguntas. Além disso, coloca-nos diante de busca de respostas que nem sempre são fáceis de encontrar. De fato, a expansão do crime organizado alcançou proporções capilares, penetrando as diversas regiões do Brasil e muitos setores da organização da sociedade. O tema pede que se leve a cabo uma reflexão responsável e atitudes coerentes diante da gravidade do assunto.
Recentemente o Papa Leão XIV, dirigindo-se aos participantes do Encontro com os Movimentos Sociais, no último dia 23 de outubro, dizia: “muitas vezes nos sentimos impotentes perante tudo isso, mas a esta que eu defini como ‘globalização da impotência’, devemos começar a opor uma ‘cultura de reconciliação e compromisso’[…]. O cristianismo se refere ao Deus do amor, que nos torna todos irmãos e nos pede para viver como irmãos e irmãs”. Ao mesmo tempo exortava o Papa a um “compromisso que não se limita ao protesto, mas procura soluções”. O Papa destacava, neste sentido, as iniciativas que os Movimentos Sociais realizam e que globalizam novas possibilidades para a humanidade a partir das periferias. Ao pedir que não nos limitemos a protestar, mas que procuremos soluções, o Papa tinha presente que já existem no nosso mundo tantos esforços de pessoas de boa vontade que não se rendem diante do mal e insistem em semear o bem que podem fazer e nisso nossas Igrejas sempre se empenham.
O debate atual, diante do ocorrido, tem lembrado a responsabilidade das várias esferas do poder público por buscar caminhos de soluções. Mas aqui gostaria de lembrar com muita simplicidade o que o Mestre já nos indicou: “felizes os que promovem a paz!”
No lugar em que vivemos, estudamos, trabalhamos, convivemos com as outras pessoas, como seres sempre semeadores de paz? A criatividade humana pode encontrar muitas pequenas soluções de promoção social, luta pela justiça e de reconciliação entre os seres humanos.
Mas não quero finalizar sem lembrar um aspecto importante dessa construção da paz que é a oração. Por ocasião da celebração dos 60 anos da Declaração Nostra Aetate, do Concílio Vaticano II, sobre o diálogo interreligioso, Leão XIV, lembrava a urgente missão dos líderes religiosos neste momento crucial da história: “despertar em todos os homens e mulheres o seu sentido de humanidade e do sagrado”. E exortava à oração, pois ela “tem o poder de transformar os nossos corações, as nossas palavras, as nossas ações e o nosso mundo. Ela nos renova a partir de dentro, reacendendo em nós o espírito de esperança e amor” (28 de outubro de 2025).
Concluindo, lembramos que a santidade não é um ideal distante, mas um caminho concreto, feito de gestos diários de amor, reconciliação, diálogo, perdão e promoção da dignidade humana. Não nos deixemos paralisar pela sensação de impotência diante da violência. Deixemos que o Espírito Santo reacenda em nós a esperança e a coragem de agir pelo bem. Que cada um de nós, em sua família, comunidade e ambiente de trabalho, seja um sinal humilde, porém firme, da paz que Cristo nos confiou.
*Dom Gilson é carioca, nascido no Méier e criado em Mendes no sul fluminense. Fez parte do clero de Petrópolis, estudou em Roma e foi bispo auxiliar de Salvador (BA). Nomeado pelo Papa Francisco em 27 de junho de 2018, tornou-se o 6º bispo da Diocese de Nova Iguaçu. Em 2018, durante a 57ª Assembleia Geral da CNBB, foi eleito pelos bispos do Rio de Janeiro como Vice-presidente do Regional Leste 1 – CNBB.