O Smart Sampa, principal programa de segurança pública da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), ficou vulnerável ao acesso indevido de imagens de mais de 58 mil câmeras de vigilância espalhadas por São Paulo. Uma investigação publicada pelo portal UOL revelou que informações sigilosas permaneceram disponíveis na internet por aproximadamente 11 meses, permitindo a visualização de imagens de crianças em escolas e creches, pacientes em hospitais, agentes de segurança e pessoas que circulavam pelas ruas da capital paulista.
A exposição atingiu o maior sistema público de videomonitoramento da América Latina, apresentado pela prefeitura como uma das principais ferramentas de combate à criminalidade. Especialistas ouvidos pela reportagem classificaram o episódio como uma grave ameaça à privacidade dos cidadãos e à própria segurança do Estado, diante da possibilidade de utilização das imagens por organizações criminosas.
O caso ganha dimensão política por envolver uma das principais vitrines da administração Ricardo Nunes. O modelo paulistano também inspirou uma proposta do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), que prometeu implantar o Smart Brasil, com 2 milhões de câmeras em todo o país, caso seja eleito.
A Prefeitura de São Paulo reconheceu a divulgação ilegal de informações, mas negou a existência de vulnerabilidades nos mecanismos de segurança da plataforma. Segundo a administração municipal, o responsável pelo vazamento seria um servidor público, já identificado e afastado, cuja conduta está sob investigação da Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana.
Reportagem conseguiu acessar imagens de creches, hospitais e bases policiais
A investigação do UOL começou com a identificação de um repositório público na internet que armazenava informações internas do Smart Sampa. Entre os dados encontrados estavam 181 credenciais de usuários autorizados, informações de mais de 6 mil agentes de segurança e instruções técnicas que permitiam reproduzir funcionalidades da plataforma em computadores e celulares.
Para verificar a extensão da exposição, a reportagem desenvolveu, com auxílio de inteligência artificial, uma interface capaz de reproduzir informações do sistema a partir dos arquivos disponíveis.
O teste permitiu navegar pelo mapa de São Paulo e visualizar imagens transmitidas por câmeras instaladas em diferentes regiões da cidade. Os jornalistas também conseguiram registrar seus próprios acenos diante de oito equipamentos privados conveniados ao Smart Sampa, localizados nos Campos Elíseos, na região central.
O acesso não se restringiu às vias públicas. A investigação identificou imagens de ambientes sensíveis, incluindo creches, escolas, hospitais, unidades de atendimento a dependentes químicos e instalações utilizadas por guardas-civis metropolitanos.
A disponibilidade dessas imagens representa um risco adicional porque permite acompanhar a movimentação de pessoas e agentes públicos em tempo real.
Após ser comunicada sobre a exposição, a prefeitura providenciou a retirada do repositório da internet. A administração, entretanto, não detalhou quais mecanismos impediriam a repetição de episódios semelhantes.
Especialista vê risco à segurança nacional e ao combate ao crime
O professor Rafael Alcadipani, da Fundação Getulio Vargas (FGV), especialista em segurança pública, afirmou que a exposição de um sistema dessa dimensão ultrapassa a discussão sobre proteção de dados pessoais e pode comprometer operações policiais.
“Consigo saber onde as autoridades estão, onde as viaturas estão, onde os equipamentos de defesa da cidade estão se deslocando. É gravíssimo”, disse.
Alcadipani citou como exemplo o uso de imagens de câmeras de vigilância por Israel para mapear a rotina de seguranças do líder iraniano Ali Khamenei, antes do ataque realizado em conjunto com os Estados Unidos que resultou em sua morte, em fevereiro.
Para o professor, o maior perigo está na possibilidade de uma ferramenta criada para proteger a população acabar oferecendo informações estratégicas a organizações criminosas.
“Você pega uma estrutura que o Estado tem para enfrentar o crime, e que possivelmente pode ser utilizada pelo crime para enfrentar o Estado”, completa.
Outro especialista em tecnologia consultado pelo UOL identificou indícios de uma vulnerabilidade adicional: a possibilidade de inserir informações no sistema sem a devida autenticação.
Segundo a análise, determinadas interfaces responsáveis pelo recebimento de registros de reconhecimento facial e leitura de placas não verificavam adequadamente a identidade de quem enviava os dados.
A reportagem também constatou que credenciais expostas permitiam acessar diretamente a plataforma da Sentinelx, empresa responsável pela tecnologia do Smart Sampa, sem autenticação em duas etapas.
Depois dos questionamentos enviados à prefeitura, esse mecanismo adicional de segurança passou a ser exigido.
A Sentinelx foi procurada pelo UOL, mas não apresentou manifestação.
Exposição de dados pessoais levanta questionamentos sobre privacidade
Além das imagens captadas pelas câmeras, o sistema permite consultar informações pessoais, como nomes, CPFs, placas de veículos e boletins de ocorrência.
O pesquisador Pedro Saliba, da organização Data Privacy Brasil, considera especialmente preocupante a concentração de dados sensíveis em uma plataforma de vigilância sem controles suficientemente transparentes.
“É uma falha gravíssima em termos de privacidade e vigilância”, afirma o pesquisador Pedro Saliba, da Data Privacy Brasil, sobre a exposição de uma grande quantidade de dados sensíveis descoberta.
Saliba destaca que o uso de tecnologias de monitoramento pelo poder público precisa observar princípios de proteção de dados, como finalidade, necessidade, segurança e transparência, inclusive quando empregados em atividades de segurança pública.
A presença de câmeras em escolas, hospitais e serviços de saúde mental amplia a preocupação com pessoas em situações de maior vulnerabilidade.
“É um risco adequado você expor crianças e adolescentes a esse tipo de situação? É adequado você expor pessoas que estão fazendo tratamento de saúde mental a esse tipo de situação?”
O pesquisador questiona se a expansão de sistemas integrados de vigilância está sendo acompanhada por mecanismos proporcionais de fiscalização e proteção dos direitos fundamentais.
Programa acumula prisões e virou vitrine política de Ricardo Nunes
Apesar das falhas identificadas, o Smart Sampa também apresenta resultados no cumprimento de mandados judiciais e na localização de pessoas desaparecidas.
A Prefeitura de São Paulo informa que o programa já contribuiu para a captura de 3.628 foragidos da Justiça e para a localização de 284 pessoas desaparecidas.
Os resultados são utilizados pela administração Ricardo Nunes como demonstração da eficácia do sistema. A prefeitura chegou a instalar um painel eletrônico nas ruas, apelidado de “prisômetro”, para divulgar o número de capturas realizadas com auxílio das câmeras.
Um dos episódios de maior repercussão envolveu Janaína Reis Miron, irmã do prefeito, detida após identificação pelo sistema. Ela tinha mandados de prisão relacionados a desacato, embriaguez ao volante e lesão corporal.
Levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo mostrou, entretanto, que uma parcela expressiva das prisões estava relacionada a dívidas de pensão alimentícia.
Entre 21 de novembro de 2024 e 21 de maio de 2025, 44% das 1.153 pessoas detidas eram procuradas por esse motivo.
A visibilidade política do programa ultrapassou os limites da capital paulista. Flávio Bolsonaro passou a defender a implantação de um sistema nacional inspirado no Smart Sampa, com previsão de instalação de 2 milhões de câmeras.
A proposta coloca a experiência de São Paulo no centro do debate eleitoral sobre segurança pública, inteligência artificial e proteção de dados.
Empresa responsável pela tecnologia entrou no consórcio após a licitação
A estrutura empresarial por trás do Smart Sampa também é objeto de questionamentos.
O contrato original, no valor de R$ 588 milhões por cinco anos, foi firmado após licitação realizada em 2023.
O consórcio Smart City, inicialmente composto pelas empresas CLD, Flama Serviços, PK9 e Camerite, venceu a disputa com proposta mensal de R$ 9,8 milhões.
Uma concorrente, a L8 Group, apresentou valor inferior, de R$ 9,2 milhões, mas foi desclassificada. Outra participante, a Line Service, pediu sua própria exclusão, alegando erro de digitação na proposta.
A Sentinelx, atualmente responsável pela tecnologia de reconhecimento facial, ainda não existia quando a licitação foi realizada. A empresa foi criada um mês depois da assinatura do contrato.
Sua entrada formal no consórcio ocorreu por meio de um aditivo contratual assinado em dezembro de 2025, substituindo a Camerite.
Desde 2025, a Sentinelx tem entre seus sócios Jorge Marques Moura, que também integra o quadro societário da CLD e assinou o aditivo como administrador do consórcio.
A CLD tem origem no setor de construção civil e posteriormente ampliou suas atividades para o mercado de radares. Com o antigo nome Consladel, apareceu em investigações relacionadas a contratos públicos ao longo das últimas décadas.
Mais recentemente, a empresa esteve entre as que tiveram bens bloqueados em investigação sobre suspeitas de fraude em licitação bilionária da iluminação pública de São Paulo.
Coordenação do programa tem ligação com ex-secretário de Segurança Urbana
Na estrutura da prefeitura, a coordenação do Smart Sampa está sob responsabilidade de Pamella Cecarelli Candido, de 29 anos.
Ela trabalhou anteriormente na comunicação da campanha eleitoral de 2020 de Orlando Morando (MDB), ex-prefeito de São Bernardo do Campo e ex-secretário municipal de Segurança Urbana de São Paulo.
Em seu perfil profissional no LinkedIn, Pamella registra como experiência anterior a chefia de comunicação da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo.
Morando utilizou o Smart Sampa como uma das principais referências de sua atuação na segurança pública durante sua tentativa de eleição para deputado federal, mas terminou a disputa como suplente.
Enquanto isso, a Sentinelx busca expandir comercialmente a tecnologia para outros municípios brasileiros.
A empresa apresenta experiências em cidades como São José do Rio Preto e Catanduva, no interior paulista, e utiliza como argumento comercial a tecnologia “por trás da maior operação de videomonitoramento com IA da América Latina”.
Entre as funcionalidades divulgadas aos potenciais clientes está justamente o controle de acesso à plataforma, um dos aspectos colocados em discussão pela investigação jornalística.
Prefeitura nega falha de segurança e atribui vazamento a servidor
Em resposta ao UOL, a Prefeitura de São Paulo afirmou que o episódio decorreu de uma ação individual criminosa e não de uma deficiência estrutural do Smart Sampa.
A administração informou que o servidor suspeito foi afastado e está sendo investigado pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana.
A prefeitura também contestou a classificação do episódio como falha de segurança e negou que tenha ocorrido utilização indevida da plataforma.
A nota oficial afirma:
“A Prefeitura de São Paulo informa que não há nenhuma fragilidade nos mecanismos de segurança da plataforma do Programa Smart Sampa. O que houve foi um vazamento ilegal de dados por parte de um servidor entre os mais de 7.500 agentes de segurança. Ele já foi identificado, afastado e sua conduta está sendo investigada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana. Portanto, a Prefeitura reforça que se trata de um ato criminoso.
A reportagem do UOL ao acessar o sistema a partir de um vazamento ilegal tenta classificar o caso como falha na segurança, agindo, assim, com irresponsabilidade e desinformando a população. Importante destacar que não houve em nenhum momento qualquer uso indevido da plataforma.
O programa conta com a fiscalização do Tribunal de Contas do Município e consultoria especializada em governança e privacidade de dados.
O repositório de dados disponibilizado ilegalmente na internet foi retirado do ar pela Pasta e não havia nele menção a senhas de acesso. Ainda assim, a SMSU reforçou a segurança da plataforma, com senhas exclusivas e autenticação em dois fatores, entre outras medidas. O acesso também exige validação por código enviado por SMS para a criação de uma nova senha conforme os padrões de segurança.
Maior sistema de monitoramento por câmeras da América Latina, o Smart Sampa encaminha semestralmente ao Ministério Público um Relatório de Transparência, já na 3ª edição. As obrigações contratuais preveem auditorias periódicas, testes de segurança, monitoramento, apresentação de relatórios técnicos e correção de eventuais vulnerabilidades. A Coordenadoria de Tecnologia, Integração e Segurança (CTIS), da SMSU, atua na supervisão e fiscalização da plataforma. O programa já contribuiu para a captura de 3.628 foragidos e a localização de 284 pessoas desaparecidas. Em relação às câmeras em equipamentos públicos, elas são instaladas em áreas de circulação comum, sem abranger consultórios, salas de atendimento ou ambientes assistenciais. A captação de uma imagem não significa que a pessoa tenha sido cadastrada ou identificada pelo sistema. O reconhecimento facial compara imagens captadas pelas câmeras com bases oficiais de pessoas procuradas, foragidas e desaparecidas.”








