A diretora da Escola Municipal Bernardino de Melo, Mônica Villotta, destacou o orgulho da unidade.
O silêncio atento da plateia, os olhares marejados e os aplausos demorados ao final de cada cena revelavam que não se tratava apenas de um espetáculo. A apresentação que retrata a trajetória da escritora Carolina Maria de Jesus , mulher negra e uma das maiores vozes da literatura brasileira, que tocou sentimentos, provocou reflexões e despertou o senso de pertencimento na Escola Municipal Bernardino de Melo, em Japeri.
O espetáculo é apresentado pelos próprios alunos da unidade, que, em sua maioria, nunca haviam ido ao teatro ou tido contato com a arte cênica. Ao todo, 12 estudantes do 6º, 7º e 8º anos participam da montagem, todos integrantes da comunidade . A secretária municipal de Educação, Caroline Ontiveros, ressaltou o esforço coletivo envolvido na produção.

“Quero agradecer a todos que puderam estar presentes, à escola, ao Alexandre e aos alunos. Sabemos o quanto fazer cultura é difícil; é um ato de resistência. Estamos, inclusive, adquirindo um ônibus para levar nossos alunos ao teatro e a outros espaços de cultura e lazer”, afirmou.
Sob direção e roteiro do professor Alexandre Azevedo, o grupo foi formado após audições e passou por um intenso processo de estudos e ensaios ao longo de aproximadamente um mês e meio.
“Montamos um grupo com alunos que nunca tinham vivenciado a arte. A história da Carolina é extremamente reflexiva e dialoga diretamente com a realidade deles. Carolina é muito japeriense”, destacou o diretor.
A peça apresenta diferentes fases da vida da escritora e traz todos os personagens acompanhados de seus filhos, estratégia pensada para criar maior envolvimento emocional dos alunos e do público. Durante o processo, os estudantes também conheceram de perto a realidade das cooperativas de reciclagem.
“Eles ficaram horrorizados ao descobrir que muitas pessoas ganham cerca de R$ 50 por dia, valor que ainda precisa ser dividido entre várias pessoas. É uma realidade dura, mas real”, contou Alexandre.
A participação no projeto também está diretamente ligada ao desempenho escolar. Para integrar o elenco, os alunos precisam manter boas notas, já que muitos se ausentam das salas de aula durante os ensaios. O resultado é expressivo: todos os participantes aumentaram o rendimento escolar e mantêm média acima de 7.“É a cultura caminhando junto com a educação”, reforçou o diretor.
Desde a estreia, em setembro, durante a Feira Literária da Bernardino de Melo, o espetáculo já foi assistido por todas as escolas do segundo segmento da rede municipal e segue emocionando o público.
Entre os destaques do elenco está Kauanne Canuto, de 21 anos, moradora do Centro de Engenheiro Pedreira e ex-aluna da Escola Municipal Bernardino de Melo, intérprete de Carolina Maria de Jesus.
“Foi uma responsabilidade muito grande. No início foi difícil, precisei estudar muito expressão corporal. Me sinto honrada por interpretar essa mulher tão forte”, contou.
A cena que mais a marcou foi a que retrata o momento em que Carolina pensa em tirar a própria vida e a dos filhos.
“As pessoas não têm muita noção do que é viver na extrema pobreza. Tudo o que Carolina passou se parece muito com a história da minha avó”, disse emocionada. Kauanne é formada pela ONG Todos Nós e pretende cursar a Faculdade de Teatro no próximo ano.
Outra atuação que emocionou o público foi a de Maria Luiza, de 13 anos, moradora do bairro Eucaliptos e aluna do 8º ano, que interpreta uma das filhas de Carolina.
“Na hora em que peço pão e leite, é muito triste ver uma criança sem ter o que comer. Ser filha da Carolina é incrível. A experiência está sendo maravilhosa”, relatou.
A diretora da Escola Municipal Bernardino de Melo, Mônica Villotta, destacou o orgulho da unidade.
“É uma honra incentivar nossos alunos a vivenciarem a arte. O projeto nasceu aqui, dentro da nossa escola, e hoje vemos nossos próprios estudantes ocupando o palco com tanta qualidade e sensibilidade. Isso é motivo de muito orgulho para todos nós”, ressaltou.
O espetáculo conta ainda com produção assistente de Felipe Ferreira, dentro do projeto Todos Nós, realizado pela ONG de mesmo nome em parceria com a Secretaria Municipal de Educação.
(*) Catadora de papel, escritora negra criou seus três filhos na favela do Canindé (SP)
Carolina Maria de Jesus (1914-1977) foi uma escritora negra brasileira, nascida em Minas Gerais, que se tornou famosa com o best-seller “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada” (1960), relatando sua vida na favela do Canindé, em São Paulo, como catadora de papel para criar seus três filhos, sendo uma voz pioneira e essencial na literatura que expôs a realidade da pobreza e desigualdade no Brasil. Sua obra, que também inclui poemas e canções, foi um sucesso estrondoso, mas sua fama declinou com a Ditadura Militar, e ela faleceu em 1977, voltando à condição de invisibilidade social que tanto combateu.
*com informações do Google.