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Entenda o conflito entre Papa Leão XIV e Donald Trump

Duas das figuras mais reconhecidas do planeta — o presidente americano, Donald Trump, e o papa Leão XIV — entraram em conflito aberto nas redes sociais, palco onde ambos possuem um número enorme de seguidores e nenhum é conhecido por ceder.

A tensão já existia há muito tempo, em especial devido a críticas indiretas do pontífice à política anti-imigrantes do ocupante do Salão Oval, sem nunca citá-lo diretamente mas falando no “tratamento desumano” de estrangeiros nos Estados Unidos. A situação escalou quando, no domingo de Páscoa, Trump publicou uma mensagem chocante nas redes, ameaçando baixar o “inferno” no Irã caso seus líderes não abrissem o Estreito de Ormuz.

Abram a m* do estreito, seus bastardos malucos, ou vocês viverão no inferno — SÓ ESPEREM! Louvado seja Alá!”, escreveu.

A retórica violenta recebeu uma série de críticas, incluindo do primeiro papa americano. “Deus não abençoa nenhum conflito”, escreveu o pontífice no X, antigo Twitter. “Qualquer discípulo de Cristo, o Príncipe da Paz, jamais estara do lado daqueles que um dia empunharam a espada e hoje lançam bombas.”

O presidente americano esperou, mas revidou na noite de domingo 12, poucas horas após o fracasso das negociações de paz entre os Estados Unidos e o Irã. Desta vez, Trump atacou verbalmente o pontífice em um longo post com quase 350 palavras.

Leão deveria se recompor como papa, usar o bom senso, parar de ceder à esquerda radical e se concentrar em ser um grande papa, não um político“, escreveu ele. “Isso está prejudicando-o muito e, mais importante, está prejudicando a Igreja Católica!

Também afirmou que o pontífice “é fraco no combate ao crime e péssimo em política externa“, disse preferir seu irmão, Louis, “porque ele é 100% MAGA“, sugeriu que Leão só virou papa porque era americano e a Igreja Católica achou que “essa seria a melhor maneira de lidar com o presidente Donald J. Trump“, e ainda postou uma imagem gerada por inteligência artificial como se ele estivesse no papel de Jesus Cristo.

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Imagem postada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em sua rede social, em que aparece como Jesus Cristo. – (Truth Social/@realDonaldTrump/Reprodução)

Sem se deixar abalar, Leão prometeu nesta segunda-feira continuar se manifestando contra a guerra. “Não me furtarei a anunciar a mensagem do Evangelho e a convidar todas as pessoas a buscarem maneiras de construir pontes de paz e reconciliação“, disse ele a repórteres a bordo do avião papal que voava de Roma para a Argélia, onde iniciará uma turnê por quatro países africanos. “A mensagem do Evangelho é muito clara: Bem-aventurados os pacificadores.”

Em 2016, antes de se tornar presidente, Trump já havia criticado o antecessor de Leão, o papa Francisco, devido a divergências sobre a política de imigração. Eles acabaram se encontrando, mas a evolução da relação parou por aí.

A briga com o atual pontífice ocorre em paralelo ao uso cada vez mais intenso de linguagem religiosa por Trump para justificar e defender a sua guerra contra o Irã, após o presidente americano ter se cercado de gente com interpretações do cristianismo diferentes daquela mais tradicional, ecoada pelos líderes do Vaticano.

Enquanto o chefe da Casa Branca busca apoio em meio ao impasse com o Irã, ele terá que equilibrar as críticas no Congresso, as críticas da população americana, as críticas de outros líderes estrangeiros e – aparentemente – as críticas do próprio pontífice. É mais uma frente da batalha que ele precisa administrar, enquanto a guerra no Oriente Médio entra em mais uma fase imprevisível, apesar do cessar-fogo.

Escalada de tensão entre Papa e Trump mobiliza CNBB em defesa do diálogo

Em meio à escalada de tensão, a CNBB manifestou apoio público ao Papa Leão XIV. Em nota divulgada nesta segunda-feira (13), a entidade destacou a “firme defesa do Evangelho” e o constante apelo do pontífice pela paz, especialmente diante dos conflitos no Oriente Médio. No texto, os bispos brasileiros reafirmam comunhão com o Santo Padre e ressaltam valores como a dignidade humana, o diálogo entre os povos e a construção de caminhos de reconciliação.


Veja outros momentos de atrito entre o papa Leão e Donald Trump

Críticas do papa à política de imigração de Trump

Em 2025, o papa Leão XIV fez críticas à política de imigração do governo de Donald Trump — que é uma das principais agendas do republicano neste segundo mandato.

Já durante a campanha presidencial, Trump deixou claro que o combate à imigração irregular seria um dos focos de sua administração, prometendo uma deportação em massa.

Em setembro do ano passado, o pontífice questionou se as políticas linha-dura do presidente dos EUA sobre o assunto estão alinhadas com os ensinamentos pró-vida da Igreja Católica.

“Alguém que diz que é contra o aborto, mas concorda com o tratamento desumano de imigrantes nos EUA, não sei se isso é pró-vida”, disse o pontífice a jornalistas do lado de fora de sua residência em Castel Gandolfo nesta terça-feira (30).

Em novembro, ele pontuou que os estrangeiros que vivem nos Estados Unidos estão sendo tratados pelo governo de maneira “extremamente desrespeitosa”.

Papa pediu fim da violência após captura de Maduro

No final do ano passado, o papa havia pedido que os Estados Unidos não tentassem depor o então ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, através de força militar.

Na ocasião, o líder da Igreja Católica defendeu o diálogo e até a busca por outras formas de pressão, “inclusive econômica”.

Então, após a operação das Forças Armadas americanas que terminou na captura de Maduro, em janeiro deste ano, Leão destacou que acompanhava as atualizações do caso com “muita preocupação”.

Ele também pediu respeito aos direitos humanos e ao Estado de Direito “conforme consagrado” na Constituição da Venezuela.

“Não devemos demorar para superar a violência e a trilhar os caminhos da justiça e da paz, garantindo a soberania do país”, destacou o papa.

Críticas de Leão XIV às guerras

O papa Leão XIV pediu pela paz e o fim dos conflitos armados em diversas oportunidades. Ele criticou abertamente guerras pelo mundo, não ficando restrito às operações dos EUA, como, por exemplo, o conflito na Ucrânia e a crise humanitária no Sudão devido a uma guerra civil.

Assim, dias após o início da guerra no Irã, o pontífice expressou profunda preocupação e pediu o fim da “espiral de violência antes que ela se torne um abismo irreparável”.

Além disso, ele também fez um discurso em 29 de março no qual rejeitou tentativas de usar Deus como justificativa para a guerra. “Ele não escuta as orações daqueles que fazem guerra, mas as rejeita”, disse Leão na ocasião, sem citar Donald Trump.

O líder da Igreja Católica também fez um apelo por cessar-fogo no Líbano no último domingo (12), em meio ao cessar-fogo entre EUA e Irã. Israel afirma que os combates no país vizinho não fazem parte da suspensão das hostilidades no Irã.

Com informações da Veja, CNN e Reuters.

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