Como já lembrava Sigmund Freud em “Totem e Tabu” (1913), nada como um pouco de regras para tornar uma sociedade civilizada. O mesmo se aplica a debates.
A opção pelo vale-tudo de saída no primeiro encontro entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) na Band, domingo passado (18), levou a um desastre de escopo ainda insondável na intenção de voto dos líderes da disputa presidencial brasileira deste ano.
Nesta noite de sexta-feira (23) na TV Globo, o formato adotado enquadrou os dois candidatos e ofereceu um vislumbre de embate de ideias para os vitais pontos percentuais a serem pescados entre eleitores indecisos e pendulares na disputa.
Sem a gritaria e a ausência de respostas do confronto anterior, Lula levou vantagem sobre o senador fluminense. Não saiu, contudo, sem arranhões.
Já no primeiro bloco, o presidente deixou o candidato do PL desconfortável ao questioná-lo sobre o valor do salário mínimo, um truque tão velho quanto a política. Flávio aparentou nervosismo, retomando algum controle quando o tema era a produção do agro no Centro-Oeste.
O filho de Jair Bolsonaro ainda escorregou ao citar os nove dedos da mão de Lula, remetendo às conversas dos hoje governador e senador eleitos pelo Paraná Sergio Moro e Deltan Dallagnol, soldados do bolsonarismo paranaense.
Flávio Bolsonaro e Lula participam de último debate das eleições, na Globo
Foi um dos momentos em que Flávio afetou preconceito, como quando sugeriu que Lula estava surdo —no debate anterior, o etarismo foi ainda mais explícito. O petista ainda faturou em cima com um direito de resposta, mas deixou o rival enfileirar outros “pedidos de desculpa”.
Ao entrar na árida seara das contas públicas, provavelmente o ponto mais frágil da gestão de Lula 3, o senador conseguiu deixar Lula contra a parede.
Ao questionar a questão da evolução da dívida pública, o senador ouviu do presidente uma questão sobre a necessidade de ter o Banco Central independente. Levantou a bola: o BC autônomo serve para segurar abusos do Executivo na área fiscal, evitando escaladas inflacionárias.
Ao buscar faturar em cima do momento, Flávio voltou ao tema controverso do congelamento de dívidas das famílias, o que remonta ao ruinoso Plano Collor.
Flávio Bolsonaro e Lula no segundo turno das eleições 2026
O melhor para Lula veio depois, num campo em que o petista usualmente se dá pior: a segurança pública. A campanha de Lula trouxe a mãe da menina Ana Clara, cujo assassino foi um policial defendido por Flávio como advogado, para o debate.
A carta foi sacada no terceiro bloco, quando o presidente trouxe o caso pessoal do senador com a menina, engatando com a lembrança das relações de Flávio com milicianos do Rio. O presidenciável do PL perdeu o rumo, repetindo clichês.
Ao final do encontro, Flávio saiu-se ainda pior. O senador voltou à prática de não responder a questões, prática do debate na Band, quando foi questionado sobre o caso da ilha que o jogador Richarlison disse ter sido tomada pelo senador.
“Eu sinceramente cansei de fazer perguntas para esse rapaz”, reagiu o presidente, quando Flávio ainda citou um uísque de “meio milhão de reais”, algo que parece algo bastante ilusório, que teria sido dado pelo mesmo Daniel Vorcaro (Banco Master) a quem o senador pediu R$ 134 milhões para supostamente financiar o filme hagiográfico do pai.
O presidente ainda lembrou do passeio de barco com lobistas de vacinas e garotas de programa, caso revelado pela revista piauí. O desafio dos sigilos foi reforçado, com Lula tentando colar o rótulo de ladrão no rival. Já Flávio pareceu perdido na repetição de críticas passadas, mal aproveitando o caso Lulinha, apenas ao final da noite.
Se a troca de acusações teve seus momentos acalorados e o impacto do debate sobre os indecisos e pendulares é incerto, é possível dizer que Lula saiu vencedor por pontos —nocaute é algo que está distante desse tipo de encontro.
*com informações da Folha e São Paulo.
