José Mauro de Farias Jr., ex-secretário estadual de Transformação Digital do Rio de Janeiro e proprietário da cobertura usada pelo ex-governador Cláudio Castro (PL), adquiriu cerca de R$ 8,8 milhões em imóveis ao longo de oito meses de 2025, depois de deixar o governo estadual.
As informações são de levantamento publicado pelo jornal O Globo, com base em registros de cartórios. Farias foi alvo, em agosto, da Operação Sem Refino, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que investiga suspeitas de vantagens ilícitas concedidas a integrantes do governo fluminense.
Entre fevereiro e outubro de 2025, o ex-secretário comprou terrenos, uma casa, apartamentos e uma sala comercial em diferentes municípios do estado. As aquisições foram feitas principalmente por meio da J15 Real Estate, uma das empresas abertas por Farias nos últimos anos.
A Polícia Federal apura um suposto esquema envolvendo o empresário Ricardo Magro, ligado à Refit, e integrantes da gestão de Cláudio Castro. Segundo a investigação, terceiros teriam sido utilizados para ocultar eventuais benefícios concedidos ao então governador em troca de decisões favoráveis à companhia.
As defesas de Farias e de Castro negam irregularidades.
Imóveis somam R$ 8,8 milhões
Em fevereiro de 2025, Farias adquiriu quatro terrenos no condomínio Fazenda Marambaia, em Petrópolis, na Região Serrana do Rio. Cada lote custou R$ 942 mil, totalizando cerca de R$ 3,8 milhões.
Dois meses depois, o ex-secretário comprou uma casa no condomínio Quinta do Lago, também em Petrópolis, por R$ 2,5 milhões.
Na sequência, adquiriu ainda um apartamento em Volta Redonda por R$ 1,8 milhão, outro imóvel residencial no Recreio dos Bandeirantes, na capital, por R$ 415 mil, e uma sala comercial na Barra da Tijuca por R$ 250 mil.
As propriedades foram registradas em nome da J15 Real Estate, empresa criada por Farias em 2023. A companhia também possui três veículos apreendidos pela Polícia Federal durante a Operação Sem Refino.
Cobertura usada por Castro está em nome de empresa de Farias
Outra empresa do ex-secretário, a J3 Real Estate, é proprietária da cobertura na Barra da Tijuca onde Cláudio Castro passou a morar.
O imóvel foi comprado por Farias em outubro de 2023 por R$ 3,4 milhões, quando ele ainda integrava o governo estadual. O advogado permaneceu no cargo de secretário até dezembro de 2024.
Embora o contrato de aluguel com Castro tenha sido formalizado apenas em abril de 2026, mensagens encontradas pela PF no celular do ex-governador indicariam que ele acompanhou obras realizadas no apartamento antes da assinatura do contrato.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) mencionou a cobertura ao apontar suspeitas de que Castro exercia controle efetivo sobre bens que não estavam formalmente registrados em seu nome.
“Os indícios indicam o uso sistemático de interpostas pessoas para custeio de despesas pessoais e blindagem de bens de alto padrão”, afirmou a PGR em despacho citado na investigação.
Segundo a Procuradoria, o imóvel estaria entre os bens sobre os quais Castro “exercia a posse de fato, (…) sendo reconhecido por terceiros como o real proprietário”.
Defesas negam lavagem de dinheiro
A defesa de Cláudio Castro afirmou ao Globo que o ex-governador não teve “qualquer participação em esquema de lavagem de dinheiro, recebimeno de vantagem indevida ou favorecimento a terceiros”.
Já a defesa de José Mauro de Farias Jr. sustentou, em manifestação encaminhada ao STF, que a compra da cobertura foi um “investimento imobiliário” e que a utilização de empresas para administrar os bens representa uma “estrutura corriqueira de planejamento patrimonial”.
Os advogados também justificaram o aluguel do imóvel a Castro, pelo valor de R$ 10 mil mensais, pela “relação pessoal de amizade existente com o ex-governador e sua família, não se podendo extrair dessa circunstância a existência de qualquer contrapartida ilícita”.
Farias negou qualquer vínculo com a Refit.
Procurado pelo jornal para explicar as demais compras, o ex-secretário declarou que “constituiu patrimônio” ao longo dos últimos 30 anos e afirmou que “todos os seus rendimentos, participações societárias e bens foram devidamente declarados” à Receita Federal.
Ele afirmou ainda que, com exceção da cobertura utilizada por Castro, nenhum dos outros imóveis citados foi ocupado por integrantes do governo estadual.
Segundo Farias, o apartamento de Volta Redonda é destinado a “uso familiar”, a sala comercial da Barra abriga seu escritório de advocacia e os demais imóveis foram adquiridos para “empreender no mercado imobiliário”.
Empresa de Farias recebeu R$ 18,4 milhões em reformas de campos
Antes de deixar o governo fluminense, Farias também obteve receitas por meio da Eagle Sports Empreendimentos, empresa da qual é sócio.
Entre 2020 e 2023, a companhia foi contratada para realizar reformas em campos de futebol de grama sintética, em projetos que totalizaram R$ 18,4 milhões.
Os serviços eram financiados por empresas privadas como contrapartida social vinculada à concessão de incentivos fiscais estaduais previstos na Lei de Incentivo ao Esporte. As contrapartidas precisavam ser aprovadas pelo governo do Rio.
Em um dos episódios citados pelo Globo, ocorrido em setembro de 2020, a Secretaria estadual de Esportes definiu que a contrapartida de um projeto ligado ao evento “Rei e Rainha do Mar” seria a reforma de um campo de futebol society em Nova Iguaçu.
Segundo a reportagem, a administração estadual rejeitou um orçamento mais barato apresentado por outra empresa e autorizou a realização do serviço pela Eagle.
Farias afirmou que os contratos da empresa constituíram “atividade entre empresas privadas, com prestação de serviço a preço de mercado e entregas concluídas”.
A Operação Sem Refino segue investigando se bens, pagamentos ou despesas custeadas por terceiros foram utilizados para ocultar vantagens indevidas relacionadas a decisões do governo estadual.
