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Dom Gílson celebra 60 anos da Páscoa de Padre João Müsch, o Apóstolo da Baixada, com ordenação diaconal e visita à cripta da Diocese de Nova Iguaçu

Os 60 anos da morte do padre João Mush, que empresta seu nome ao viaduto que liga os dois lados de Nova Iguaçu à Via Light e a uma escola pública, foram lembrados hoje (6/12) por Dom Gílson Andrade, bispo diocesano, durante a homilia da ordenação diaconal ,na Catedral, do seminarista Cassiano Loss. Dom Gílson fez uma homenagem também ao padre Müsh, visitando o lugar onde se encontram os seus restos mortais, na cripta da Catedral de Santo Antônio de Jacutinga.

Caminhando, a revista da Diocese de Nova Iguaçu, também dedica sua principal matéria de novembro ao legado de padre João Müsch, lembrando até os dias de hoje pela simplicidade e trabalho com os pobres das cidades da Baxada Fluminense, principalmente com os católicos de Nova Iguaçu.

Eis a homilia de Dom Gílson:

Homilia na Ordenação Diaconal de Cassiano Loss

Saudações!

Queridos irmãos e irmãs,

Estamos nos encaminhando para o encerramento do Jubileu da Esperança em nossa diocese e temos a alegria de acolher uma graça especial: a ordenação diaconal do nosso irmão Cassiano.

E não é sem sentido que, na providência de Deus, celebramos também, precisamente hoje, os sessenta anos da páscoa daquele que merecidamente chamamos de “Apóstolo da Baixada”, o Pe. João Musch. Um padre que veio de longe e gastou-se sem reserva no serviço da evangelização nesta nossa terra muitas vezes ferida, mas sempre fértil de esperança. Pe. Musch semeou com amor a semente do Evangelho nos territórios de nossa Baixada e hoje colhemos os seus frutos. Sobre ele disse Leopoldo Machado, seu “adversário” religioso: “Pe. João encontrara todas as igrejas em ruínas, algumas parcialmente desmoronadas. Dividia a jornada em sermões e sacramentos e pá de pedreiro, iniciando a restauração de todos os templos a um só tempo. Obra de gigante que esse cura já velho não chegou a ver terminada. Empunhando numa das mãos o missal e na outra o “livro de ouro”, sem auxiliares, pois era o único padre da freguesia, pastoreou muito tempo seus fiéis sem contestação. Reconstruiu a igreja de Santo Antônio de Jacutinga, em ruínas, e que hoje é a catedral de Nova Iguaçu”.

Sem dúvida nenhuma, aquilo que estamos vivendo aqui nesta Catedral é um sinal da presença do Reino de Deus que ele serviu com dedicação incomparável.

Irmãos,Jeremias testemunhou a voz que ouviu de Deus: “Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci” (Jr 1, 5). Cassiano, com essas palavras do Profeta quero recordá-lo que a vocação nunca é improvisada. Deus, no seu amor, entra na nossa história bem antes de nós compreendermos.

Você veio de outras terras, do Baixo Guandu, no noroeste capixaba, veio de longe  como tantos homens e mulheres que fizeram a história desta terra. Poderia ter escolhido outros caminhos, talvez mais previsíveis, mas guardou no coração uma inquietação: “Senhor, o que queres de mim?”

E esta inquietação o impulsionou a seguir a estrela da vocação que, por um lado ilumina a vida e, por outro, nos tira sempre do nosso lugar: “Se alguém me quer servir, siga-me, e onde eu estou, estará também o meu servo” (Lc 12), nos dizia Jesus hoje.

Desta forma, você permitiu que a voz de Deus o conduzisse a terras que, certamente, você não imaginava. E a Baixada Fluminense se tornou o seu campo de missão. Não por acaso, mas por amor e obediência à voz interior que guia a todo vocacionado. Abro um parêntese: aos jovens que aqui estão quero pedir “não sufoquem a voz de Deus que, com suavidade, através das mais variadas circunstâncias, está a chamá-lo”. Não tenham medo de sair do seu lugar, muitas vezes o lugar das escolhas mais cômodas e previsíveis, e seguir o chamado de Deus.

 “Felizes os que em vós tem sua força, e se decidem a partir quais peregrinos” (Sl 83), assimo salmo de hoje nos fazia ouvir os passos de um peregrino. O diácono é, antes de tudo, um homem a caminho, um homem que passa abrindo caminhos para Deus, um homem que caminha com o povo.

Você levará a Palavra, servirá no altar, visitará os enfermos, acompanhará os pobres, escutará os jovens, aproximar-se-á dos que se sentem longe da Igreja. Seu ministério encontra o altar, mas não termina nele; nasce no altar, mas se completa no serviço aos pobres, aos feridos, aos esquecidos, aos que perderam o direito de ter esperança.

O diácono, como todo ministro ordenado, desce, para estar à altura do Cristo, servo da última ceia, e assim ficar mais próximo dos que necessitam que se lhes lavem os pés. O diácono não diz: “venham até mim”, mas ele diz: “eu vou até vocês.” O Senhor acabou de nos dizer: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre produz muito fruto”.

São Paulo nos lembra algo essencial: “Não nos pregamos a nós mesmos”(2Cor 4, 5).

Você hoje é ordenado diácono não para brilhar, nesta “sociedade do espetáculo”, mas para fazer Cristo brilhar. Não para ser servido, mas servir.

Lembrando sempre o que Paulo diz: “Trazemos este tesouro em vasos de barro.” O vaso de barro é precioso justamente porque é frágil. Será a sua fragilidade que deixará passar a luz de Cristo. Será sua humildade que tornará crível seu ministério. Será o serviço discreto que se tornará Palavra do Evangelho.

Sua ordenação acontece no marco do Jubileu da esperança e no Advento, tempo também marcado por essa virtude. Esperar é acreditar que Deus trabalha mesmo quando não vejo. Esperar é servir sem possuir. Esperar é amar sem calcular. É viver na dinâmica do Evangelho: “quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, vai conservá-la para a vida eterna”.

Hoje, insisto, seu “sim” encontra a memória daquele sacerdote que há sessenta anos deixou aqui marcas profundas do Evangelho. O saudoso Apóstolo da Baixada não tinha grandes recursos, mas possuía o essencial: um coração convertido, apaixonado e disponível. É isso que gera frutos que duram. Você se torna hoje servidor na mesma linha, na mesma escola, na mesma missão.

Querido Cassiano, obrigado por colocar sua vida nas mãos do Senhor. Obrigado por oferecer a esta Igreja sua mente, seu coração e seu espírito de serviço, tão reconhecido por aqueles que o acompanharam. Na pessoa do Reitor e demais formadores a gratidão de toda a nossa Diocese aos que labutam na formação inicial dos nossos futuros padres.

Caro Cassiano, você escolheu como lema do seu ministério aquelas palavras de Maria pronunciadas no início do ministério de Jesus: “Fazei tudo o que Ele lhes disser”. Lembro que três dos seus estágios pastorais foram em Paróquias dedicadas a Nossa Senhora da Conceição, cuja festa estamos preparando (Belford Roxo, Queimados e Japeri, nessas Pe Musch foi também pároco). Na escola de Maria aprende-se mais facilmente o serviço que tem Cristo no centro. Que Cristo Servo, que hoje o consagra, faça de você um diácono segundo o Coração de Deus: firme na fé, manso no serviço, e alegre na esperança.

Amém.

Catedral de Santo Antônio de Jacutinga, 6 de dezembro de 2025

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