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Dom Gílson Andrade na missa pelos 193 anos de Nova Iguaçu: “Sonhamos com uma cidade mais justa, mais fraterna, mais solidária, mais segura, guardiã da vida e da fé simples das pessoas.

Dom Gílson Andrade pediu às autoridades uma cidade mais justa, fraterna,solidária e dedicada aos mais humildes. Fotos: Diocese de Nova Iguaçu/Divulgação.

O bispo da Diocese de Nova Iguaçu, Dom Gílson Andrade, festejou nesta quinta-feira (15) os 193 anos da cidade-mãe da Baixada na catedral de Santo Antônio de Jacutinga lotada de católicos e evangélicos com uma missa solene. Em sua homilia, o líder religioso do povo católico ressaltou o amor que a população tem pela cidade, destacando que a presença das mais importantes autoridades locais na celebração é a expressão de “respeito à história e à identidade do povo que representam”.

O prefeito de Nova Iguaçu, Dudu Reina, e o presidente da Câmara de Vereadores, Márcio Guerreiro, não compareceram à missa. Dudu foi representado pelos pais, Eduardo e Leocádia, e pela médica Roberta Teixeira, vice-prefeita. Dom Luciano Bergamin, bispo emérito,e o padre Rodrigo Mota participaram da celebração religiosa. Os deputados estaduais Filipinho Ravis (Solidariedae) e Dr. Deodalto (PL) , secretários e vereadores participaram da missa.

Homilia de Dom Gílson Andrade no aniversário dos 193 anos de Nova Iguaçu

Queridos irmãos e irmãs,

Estamos aqui hoje não apenas para realizar um ato formal no aniversário dos 193 anos da nossa amada cidade de Nova Iguaçu, mas para vivenciarmos um momento de fé, de reconhecimento diante de Deus porque Ele caminha na história com a nossa gente que expressa a sua fé de muitas maneiras.

Esta celebração no aniversário da fundação da cidade possui um significado que vai além de uma prática confessional restrita e toca dimensões profundamente humanas, históricas e culturais da vida do povo. Nova Iguaçu, como tantas cidades brasileiras, nasceu e cresceu marcada pela presença da fé cristã, que ajudou a moldar valores, tradições, expressões culturais e o próprio tecido social. É um momento em que se reza pela cidade, por seus habitantes, por aqueles que governam e por todos os que trabalham pelo bem comum, especialmente para rezar pelos mais pobres e sofridos. 

A presença das mais importantes autoridades locais na celebração é expressão de respeito à história e à identidade do povo que representam, reconhecendo que a fé continua sendo uma força viva na vida de muitos cidadãos e uma aliada na promoção da dignidade humana, da justiça social e da paz. É também sinal de proximidade com o povo, de valorização de suas raízes e da abertura ao diálogo entre as instituições civis e as expressões religiosas.

Nosso coração hoje se volta com carinho para esta terra que amamos, feita de histórias de famílias que chegaram, de gente que lutou, de trabalhadores que construíram com suor e esperança, que aprenderam a resiliência dos recomeços, de crianças que nasceram e cresceram nesta cidade, que já são parte da nossa própria identidade.

Uma cidade é muito mais do que ruas, instituições, prédios e avenidas. Uma cidade é feita de rostos, de lágrimas e sorrisos, de lutas e conquistas. E hoje, diante de Deus, na oração, trazemos tudo isso: o que nos enche de orgulho e também o que ainda nos dói.

A primeira leitura nos mostrou um povo que experimentou a derrota. Israel acreditava que bastava “levar a Arca” para que tudo desse certo. Pensava que Deus seria quase uma solução mágica para o sucesso. Porém, a derrota veio, e foi dura porque o povo tinha se afastado de Deus e transformado a fé em coisa externa, sem a necessária conversão do coração.

Também nossa cidade conhece vitórias e derrotas. Temos alegrias, a força do nosso povo, a capacidade de recomeçar, a solidariedade que brota nas horas difíceis. Mas também carregamos feridas: a violência que machuca, a pobreza que fere a dignidade, a desigualdade, o medo, a indiferença. Às vezes usamos até o nome de Deus, mas será que estamos abertos para que Ele transforme verdadeiramente nossa vida e nossas escolhas.

O Evangelho falava de um homem ferido, o leproso, alguém que vivia à margem da sociedade, que não se sentia digno de estar entre os outros. A lepra desse homem se parece com as nossas “lepras sociais”. Também temos nossas feridas que nos pedem políticas públicas com olhar atento às periferias e o compromisso com a dignidade de cada cidadão. CF 2026 – tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (João 1,14): oportunidade boa para verificar nossas políticas públicas relacionadas ao tema da habitação e do ordenamento do território.

Voltando ao leproso: ele faz algo simples e grande, aproximou-se de Jesus: “Se queres, podes purificar-me”. Não impõe, não exige, simplesmente confia. E Jesus faz o gesto mais bonito: toca o leproso. O amor não tem medo de feridas. Jesus toca o excluído, acolhe o rejeitado, devolve dignidade, devolve casa, devolve comunidade. Ele não cura só o corpo; Ele cura a vida.

Hoje, nesses 193 anos, os que aqui estamos colocamos Nova Iguaçu inteira diante de Jesus e dizemos, com o leproso: “Senhor, se queres, podes curar nossas feridas”.

Senhor, podes curar a violência que nos assusta, a indiferença que esfria os corações, a desesperança dos jovens, o cansaço das famílias, a solidão dos idosos.Podes curar o desânimo e reacender em nós o desejo de construir uma cidade melhor para todos.

Meu desejo de Pastor, que certamente é compartilhado por todos os presentes, é que este aniversário não seja apenas números (193 anos), mas seja tempo de graça. Tempo de agradecer por quem veio antes de nós, por quem plantou, lutou, rezou, construiu. Tempo de olhar com verdade para o que precisa mudar. Tempo de pedir um futuro novo para uma cidade tão cheia de desafios e de boas possibilidades como é Nova Iguaçu. Sonhamos com uma cidade mais justa, mais fraterna, mais solidária, mais segura, guardiã da vida e da fé simples das pessoas.

Que ninguém nesta cidade se sinta “leproso”: excluído, descartado, invisível. Que cada pessoa se sinta amada e chamada pelo nome. Que nossas Igrejas, comunidades e lares sejam lugares de boa acolhida.

E confiamos tudo isso à intercessão de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, que certamente caminha conosco desde o início desta história, a Senhora da Piedade. Que coloque Nova Iguaçu no seu regaço, como na imagem que acompanha a nossa história há séculos e nos ensine a dizer, como ela: “Faça-se a tua vontade”. E que Jesus, que um dia tocou o leproso, toque hoje a nossa cidade inteira, com sua misericórdia, sua cura e sua paz.”

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