*Luiz Carlos Azedo
O petista enfrenta problemas internos que não conseguiu superar no atual mandato, agravados pela mudança geopolítica na América do Sul e pela interferência direta de Trump
“Enquanto eu viver, a extrema direita não voltará a governar este país. Se quiser vir o Trump, que venha. Se quiser vir o Milei, que venha. A única ajuda que eu quero é a ajuda do povo brasileiro para manter a democracia”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num misto de voluntarismo e soberba, às vésperas da convenção do PT, em São Bernardo do Campo, neste domingo.
Não se poderia esperar algo muito diferente de quem precisa mobilizar os militantes e aliados para uma eleição difícil. A declaração revela a estratégia de formar um movimento democrático e nacionalista capaz de garantir sua reeleição. O desafio, porém, não se limita a reunir a esquerda: Lula precisa conquistar os eleitores de centro e atrair setores das elites comprometidos com a democracia.
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Lula enfrenta problemas internos que não conseguiu superar no atual mandato, agravados pela mudança geopolítica ocorrida na América do Sul e pela interferência direta de Donald Trump na política brasileira. Entre eles estão um Congresso cada vez mais poderoso e hostil, a persistente crise fiscal, as sobretaxas impostas às exportações brasileiras e uma extrema direita integrada à onda reacionária mundial.
Lula lidera as pesquisas, mas não dispõe de vantagem confortável. No Datafolha de julho, aparece com 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 32% de Flávio Bolsonaro. No segundo, venceria por 48% a 43%. Considerada a margem de erro de dois pontos, a disputa permanece competitiva. Pequenos deslocamentos do eleitorado de centro podem alterar seu desfecho. A fragmentação da oposição, porém, beneficia Lula no primeiro turno.
Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos disputam os mesmos eleitores antipetistas de Flávio. Essa divisão não elimina o risco de unificação do voto oposicionista no segundo turno. O sobrenome Bolsonaro garante a Flávio um piso eleitoral elevado, sustentado pela fidelidade da base do pai e pela rejeição ao PT.
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O discurso necessário para mobilizar os petistas nem sempre é adequado para conquistar o centro. Ao afirmar que o Senado “tem metade apodrecida”, Lula transforma uma crítica legítima numa generalização que pode dificultar ainda mais sua relação com o Congresso. Há razões objetivas para criticar o Legislativo, entre as quais as irregularidades nas emendas: falta de transparência, pagamentos sem comprovação, fraudes em licitações, superfaturamento e obras incompletas.
Segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, entretanto, 451 dos 513 deputados federais, ou 88% da Câmara, tentarão a reeleição. O número recorde está associado às vantagens de quem já exerce o mandato em relação aos demais candidatos, como estrutura de gabinete, exposição pública, prioridade na distribuição dos recursos eleitorais e, principalmente, controle sobre as emendas parlamentares, acima de 60 milhões para cada parlamentar.
Fator externo
Em 2022, Lula chamou o orçamento secreto de excrescência. Depois de eleito, submeteu-se à correlação de forças no Legislativo.
.Agora convive com um Parlamento que controla parcelas dos investimentos públicos e utiliza esses recursos para fortalecer eleitoralmente seus integrantes. Diante desse quadro, o PT adotou uma estratégia pragmática. Lançará candidatos aos governos de 12 estados e apoiará aliados em outros 14. A lógica é assegurar palanques estaduais para a campanha de Lula.
No plano externo, o desafio é inédito. A participação de Javier Milei na convenção do PL, com ataques a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes, ultrapassou os limites da solidariedade ideológica e provocou uma crise diplomática. O apoio de Milei e Benjamin Netanyahu a Flávio procura apresentar a candidatura do PL como parte de uma articulação internacional da extrema direita.
O maior problema chama-se Donald Trump. Os Estados Unidos prorrogaram a declaração de emergência que classifica o Brasil como ameaça à segurança, à política externa e à economia norte-americanas. Embora a medida não restabeleça a tarifa de 50% derrubada pela Suprema Corte, permanecem uma sobretaxa de 25% sobre diversos produtos brasileiros e outra de até 12,5%, relacionada à alegação de trabalho forçado. O Brasil acionou a Organização Mundial do Comércio, potr´rm. não se reverterão as sanções a curto prazo. O órgão está desfalcadop e paralisado.
As tarifas reduzem a competitividade dos produtos brasileiros, prejudicam setores dependentes do mercado norte-americano e criam custos econômicos destinados a influenciar o ambiente eleit/oral. Somam-se às críticas de Washington ao Supremo, à defesa de Jair Bolsonaro e aos questionamentos sobre a regulamentação das plataformas digitais e o Pix. Mais do que divergência comercial, trata-se de pressão explícita sobre decisões soberanas do Brasil e tentativa de prejudicar a candidatura de Lula.
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De fato, Lula tem como bandeira poderosa:a defesa simultânea da democracia e da soberania nacional. Mas não poderá confiar somente na retórica da resistência. Para vencer e governar, precisa ter respostas para controlar as contas públicas; responder às demandas concretas da população na segurança, na saúde, na educação, na mobilidade urbana, na habita; reconstruir a relação com o Congresso e evitar que a reação às ingerências externas seja confundida com antiamericanismo. É uma certa soberba a promessa de que a extrema direita não voltará ao poder “enquanto eu viver”. Numa democracia, quem decide isso é o eleitor.
.*Luiz Carlos Azedo,jornalista, é colunista do Correio Braziliense. A coluna deste domingo ( 2/8/2026) está publicada também no Estado de Minas.
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