
Sinto horror, indignação, tristeza e impotência diante da chacina ocorrida no Complexo do Alemão e Penha, que tirou a vida de muitos jovens e também de quatro policiais.
Sabemos que a vida e a dignidade de qualquer ser humano são valores absolutos e sagrados que devem sempre ser defendidos e preservados.
Não matarás, nos ordena Deus.
Compreendo o cansaço e a raiva de uma população marcada pela violência cotidiana — que atinge a todos, nas ruas, no caminho do trabalho ou até dentro de casa.
Vivemos um tempo de sofrimento e desespero tão profundo que, infelizmente, muitos já consideram normal a morte de nossos filhos — filhos gerados, mas não amados, nascidos, mas sem oportunidades de crescer com dignidade, valores e futuro.
Há 48 anos vivo no Brasil e acompanho, com dor, incontáveis operações e matanças nas favelas, nas quais se gastam fortunas em repressão.
Mas a pergunta permanece: qual é o resultado?
A violência só cresce.
Matamos, mas não resolvemos.
Foram investidos, apenas no Rio de Janeiro, 16 bilhões de reais em segurança e repressão, e ainda assim temos um Estado cada vez mais violento.
Chegou a hora de parar e refletir.
Precisamos inventar outros caminhos.
Conheço profundamente as comunidades do Rio, inclusive o Complexo do Alemão.
Lá — como em tantas outras favelas — faltam espaços e oportunidades reais para que adolescentes e jovens possam sonhar e construir um futuro diferente.
Onde estão os espaços lúdicos, esportivos e culturais?
Onde estão as escolas de qualidade, os cursos profissionalizantes, as universidades acessíveis, que formem cidadãos e trabalhadores comprometidos com um Brasil melhor?
Na Baixada Fluminense, onde vivo há quase meio século, decidimos criar caminhos de vida.
A Casa do Menor abriu espaços de cultura, esporte e profissionalização.
Já formamos mais de 120 mil adolescentes e jovens, oferecendo não apenas uma profissão, mas também família, presença e valores.
Sabemos que é pouco diante da imensidão das necessidades, mas este é o caminho que dá frutos.
Anos atrás, sonhamos em estar presentes também no Complexo do Alemão.
Infelizmente, não conseguimos concretizar esse projeto por falta de recursos.
E nos perguntamos:
Por que os governos não investem em educação, profissionalização e inserção no mundo do trabalho?
Por que continuam a insistir em políticas de repressão que não trazem resultados?
A repressão não resolve.
Ela apenas multiplica o ódio, a dor e a morte.
Matamos dezenas no Complexo.
Mas em poucos dias o tráfico voltará mais forte, ocupará novos espaços, se espalhará para outras áreas.
Expulsamos jovens dessas comunidades — e eles acabam por invadir todo o país, repetindo o ciclo de exclusão e violência.
Não podemos continuar assim.
É hora de parar.
Famílias, igrejas, escolas, governos, políticos, empresários, militares — todos precisamos refletir e reinventar caminhos de vida.
Os caminhos da repressão, da violência e do extermínio não funcionam.
E não podemos ser ingênuos: matamos os “pés descalços”, os pobres, os invisíveis.
Mas os chefes do narcotráfico, os empresários, políticos e militares que lucram com esse grande e rentável negócio da morte continuam intocados.
Os colarinhos brancos não moram nas favelas.
Vivem em condomínios de luxo, e seguem sacrificando jovens, adolescentes e policiais em nome do lucro e do poder.
É urgente romper esse ciclo e escolher a vida.
Somente o amor, a presença, a educação, a oportunidade e a justiça poderão curar as feridas de um povo tão ferido.
Pensemos nisso.
Precisamos fazer juntos uma mega operação de saúde, educação, lazer, profissionalização e oportunidades de futuro, para gerar vida plena nas comunidades vulneráveis.
* Pe. Renato Chiera – Fundador – Casa do Menor São Miguel Arcanjo.






