Os artistas de todas as tribos que produzem cultura na Baixada Fluminense estão sendo convocados pelas redes sociais para um evento nesta sexta-feira (24), às 17 horas, em homenagem a Fábio Mateus, ator, produtor , pesquisador e criador do grupo Os Andarilhos nos anos 90 do século passado. A união de Os Andarilhos com a Multiface e Fios da Rocca resultou na criação do Festival de Artes Cênicas EncontArte, responsável pela visibilidade internacional da cultura das cidades da Baixada .
O Instituto funcionará em Nilópolis, mas a cerimônia de sua criação será no Centro Cultural Villelarte (Avenida Dr. Luís Guimarães, 1019, Centro, Nova Iguaçu), onde Fábio empresta seu nome a uma sala de espetáculos .Fábio interpretou o palhaço Juvenal da peça A Perseguida e foi Niccolo em Precisa-se de Velhos Palhaços. O ator, diretor e sindicalista morreu em 2023 num acidente de trabalho em Queimados.
A convite do Nova Iguassu Online, a jornalista Bernadete Travassos, casada com Fábio por 22 anos, escreveu o texto abaixo:

*Bernadete Travassos
Fábio descobriu o teatro aos 13 anos, numa aula de português do professor Nicolau, na cidade de Miguel Pereira, onde morou por um ano. Ficou apaixonado e, apesar de vários parentes lhe dizerem que ninguém conseguia viver de arte, ele persistiu. Começou a fazer aulas de teatro num curso particular e depois entrou nas aulas de teatro do recém-criado Sesc Nova Iguaçu.
Ali fez parte da primeira turma de teatro, cujo professor era Lino Rocca. Depois, ele, Lino, Vania Santos e Anderson Marques criaram o grupo Os Andarilhos. Esse coletivo estudou, pesquisou e viajou o Brasil. E marcou a história da Baixada ao dirigir a primeira oficina de teatro e circo da região, em São João de Meriti, na década de 1990.
Descontentes com a dificuldade para apresentações em teatros no território _ que, aliás, sempre foram poucos, mas eram menos naquela época _ os Andarilhos se juntaram aos grupos Multiface e Fios da Roca e criaram o Festival de Artes Cênicas EncontrArte. Eles queriam estimular a troca entre os artistas, o aprendizado e oportunizar as apresentações.
Durante 20 anos produziram uma maratona teatral que trouxe para a Baixada grupos de vários estados do Brasil, e até da Argentina e de Portugal. A cada ano, eles homenageavam artistas e técnicos da região e também de renome nacional. Orlando Orfei, por exemplo, já bastante idoso e doente, emocionou Fábio, Anderson e outros que tinham uma identificação forte com o circo. O empresário e artista circense morava em Nova Iguaçu com a família e tinha ainda guardados muitos objetos que eram do circo.
Quando o Festival EncontrArte começou, cobravam ingresso barato para, ao menos pagar as passagens dos atores e o almoço. Em 2022 desfilaram pela Via Light para chamar atenção do público, que não estava acostumado a ir ao teatro. Quando conseguiram o patrocínio da Petrobras, algo que durou 13 anos, puderam receber os artistas da região e de fora em um camarim com comida e bebida farta. Além de pagar o cachê pedido por cada grupo.
O Festival de Teatro EncontrArte levou gratuitamente de 200 mil pessoas ao teatro na região durante 20 anos e mobilizou aproximadamente cinco mil artistas e técnicos, gerando emprego, renda e qualificando pessoas nas oficinas profissionalizantes oferecidas em parcerias com a Funarj e a Petrobras.
Muitos conheceram o Fábio Mateus produtor. Aliás um excelente produtor, mas ele queria voltar a atuar, Ansioso, Fábio propôs a Anderson Marques que montassem um espetáculo. Pensaram em Um Trabalhinho para velhos palhaços, do dramaturgo romeno-francês de Matéi Visniec, que tinham visto nos anos 1990. Anderson propôs dirigir o espetáculo e chamaram Felipe Villela e Johnny Rocha para dividirem o palco.
Criaram então Precisa-se de Velhos Palhaços, que rodou o estado do Rio, ganhou o edital CCR e ganhou o prêmio de melhor espetáculo em votação do público no Festival Nacional de Teatro de Passos, em Minas Gerais, em 2019. Eles rodaram seis anos com esse espetáculo, que por ter um cenário enxuto, permitia que colocassem tudo no carro e viajassem para onde quisessem.
Com o cenário artístico se tornando mais sombrio em 2018, o fim do patrocínio da Petrobras para o Festival de Teatro EncontrArte e o início da pandemia, o cenário artístico se tornou mais sombrio na Baixada Fluminense. As grandes empresas da região nunca destinaram um percentual para investir em cultura no território.
Os grupos de teatro pararam, as bandas, os músicos, os bailarinos, todos pararam. Para tentar minimizar a situação, governantes começaram a distribuir cestas básicas para a classe artística e os técnicos. Fábio e seus amigos foram buscar alimentos na sede do Sindicato dos Artistas e Técnicos do Estado, o governo do Estado montou postos de distribuição em shoppings. Fábio participou de todas essas ações.
Nos últimos três anos de vida, Fábio Mateus idealizou e criou com os sócios a EncontrArte Audiovisual, que oferece aulas gratuitas de cinema no Patronato São Vicente, em Nova Iguaçu. Seu trabalho para democratizar o acesso à cultural em geral, e ao mercado cinematográfico, permitiu o ingresso de jovens e adultos nesse ramo da economia criativa, quase inacessível ao morador da periferia, seja da Baixada ou do Rio.
Muitos de seus 200 ex-alunos trabalham em agências, empresas de streaming ou como artistas de audiovisual autônomos. Fábio também era diretor do Sindicato dos Artistas e Técnicos (Sated/RJ) e representava a instituição no Conselho Nacional de Comunicação Social do Congresso Nacional
Fábio amou e foi muito amado por seus parentes, seus amigos e seus ex-alunos, que o chamavam de papai Fábio.
*Bernadete Travassos, Jornalista, foi casada com Fábio por 22 anos. Acompanhou sua trajetória profissional desde o final do grupo Os Andarilhos até sua morte, em 7 de outubro de 2023.