“Hoje eu creio que foi o Jairo”. A frase foi dita nesta terça-feira (2) por Monique Medeiros, mãe de Henry Borel e ré acusada de participação na morte do menino em 2021.
Segundo Monique, ela dormiu e foi acordada pelo padrasto do menino, o ex-vereador Dr.Jairinho na noite da morte do filho, em 8 de março de 2021, após tomar um comprimido dado pelo então companheiro.
“Pelo modus operandi dele, pelos filhos delas, eu acredito que pode ter sido ele”, continuou, citando outras acusações de ex-namoradas de violências contra crianças.
Monique relatou como estava o filho quando o viu naquela madrugada:
“Ele estava com a barriga para cima e o pé gelado, e olhando para o nada”.
Ela afirma que Jairinho repetia que Henry não estava conseguindo respirar direito. A criança foi levada para o hospital Barra D’or, e Monique relatou as manobras de reanimação cardíaca feitas para tentar salvar a criança. Apesar disso, o óbito foi declarado às 5h30.
Para Monique, naquele momento, a morte só poderia ser explicada por um acidente doméstico.
“Ficaram duas horas e meia fazendo a massagem cardíaca. Não tinha nenhum sinal, nenhuma marca então para mim só podia ser uma queda de cama”, pontuou.
Cinco anos depois, a mãe mudou de percepção e agora diz que acreditar que Jairinho matou a criança.
A defesa de Monique disse que ela só vai responder às perguntas da juíza, da própria defesa e dos jurados.
Monique fala sobre ter sido dopada
Monique disse que acredita que foi dopada por Jairinho para que ele conseguisse conversar com uma amante:
“Jairo sempre me dava comprimidos à noite, vi ele macerando um comprimido na minha taça de vinho. Ele fazia questão de fazer eu dormir para eu não ver que ele tinha uma outra pessoa”, disse ela.
Monique chama babá de ‘grande mentirosa’
Monique ainda disse que a babá de Henry mentiu ao dizer que foi ordenada pela mãe de Henry a apagar mensagens em que alertava sobre possíveis agressões à criança no dia 12 de fevereiro de 2021.
“Eu tenho prova de que eu não mandei ela apagar as mensagens. Ela (Thayná) é uma grande mentirosa. Por que eu mandaria apagar os prints se eu tinha os prints do meu telefone? Isso nunca aconteceu”.
Segundo ela, a pessoa responsável por mandar apagar as mensagens teria sido Thalita, irmã de Jairinho. Monique comentou ainda que várias pessoas da família de Thayná trabalhavam para a família do ex-deputado Coronel Jairo, pai do então vereador.
Ciúmes e controle de Jairinho
Monique declarou que a relação com Jairinho era marcada por ciúmes. No entanto, ela afirmou que pensava que aquilo era uma demonstração de carinho e atenção no início do relacionamento:
“Eu achava que o ciúme dele era amor, era carinho, era atenção, que eu não tive no meu casamento. Ele primeiro pediu meu localizador, que eu não achei nada demais. Depois disse pra eu bloquear todos os meus amigos homens das redes sociais. Ele também morria de ciúme do Leniel”, comentou ela. “Ele brigava muito comigo por causa do Leniel”
Ela também relatou que ele controlava até as roupas que usava. Em um episódio, Monique diz que foi para a academia de short, mas mentiu para Jairinho que estava usando uma calça legging.
“Ele me mandou mensagem e me perguntou: ‘O que é isso aqui?’, e era uma foto na academia de short. Ele brigou comigo. Eu achava que a errada era eu, que eu tinha mentido para ele”, pontuou.
Segundo ela, Jairinho posteriormente pedia desculpas e tudo ficava bem.
Interrogatório de Monique
O interrogatório começou por volta das 10h30 desta terça-feira (2).
Durante o depoimento, ela relatou episódios de agressão supostamente cometidos pelo ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, contra a criança desde o início do relacionamento do casal. Ao falar do primeiro dia de aula do filho, Monique começou a chorar, o que se repetiu em vários momentos do interrogatório.
Segundo a ré, em novembro de 2020, cinco meses antes da morte de Henry, houve um episódio de uma ‘banda’ e uma ‘moca’ dada por Jairinho na criança.
“O Henry saiu correndo da sala e disse: ‘Tio Jairinho me deu uma banda, me deu uma moca, falando que eu era bobalhão e mimado’. Ele disse que tinha só segurado ele pelos braços, passou a perna e ele nem tinha caído”, disse Monique.
Monique diz que não conseguia imaginar que Jairinho seria capaz de cometer alguma agressão contra seu filho. A mãe disse que, depois de alguns episódios, Henry passou por mudanças de personalidade, se tornando mais triste, e vomitar e tremer na presença de Jairinho.
“Se eu tivesse suspeita de tortura, agressão de qualquer coisa, eu não teria continuado nesse relacionamento”, pontuou.
Monique comentou ainda que, com o que soube na época, não tinha como ter certeza que o filho vinha sendo agredido. Segundo Monique, ela tentou pedir ajuda a psicólogos, médicos e até mesmo ao ex-marido.
“Não tinha nada, ninguém falava nada. Como que eu ia descobrir? Era sempre quando eu não estava, sempre escondido”, alegou.
Relação de Henry e Jairinho
De acordo com Monique, Henry gostou de Jairinho em um primeiro momento, já que ele costumava presenteá-lo. No entanto, ela afirmou que passou a perceber uma mudança no comportamento do então companheiro após um episódio ocorrido no fim de janeiro, quando Jairinho teria dado um “abraço apertado” no menino.
” O Leniel (pai da criança) disse que o Henry relatou um abraço apertado do Jairinho. ‘Eu quero que você fale para ele que não quero abraço no meu filho’, e eu acatei o pedido do pai. Chamei o Jairinho, o Leniel disse que não queria mais abraço, e eles deram um aperto de mão amistoso”, relatou Monique.
Segundo ela, Henry e Jairinho passaram a se afastar depois desse episódio da agressão em novembro de 2020.
Ao negar que foi alertada pela babá Thayná Ferreira sobre as agressões de Jairinho no dia 2 de fevereiro de 2021, Monique voltou a se emocionar e chorou muito.
“Ela falou que me contou no mesmo dia, e isso é mentira. Eu nunca ia deixar isso acontecer, eu nunca deixaria os dois juntos”.
Babá narrou que Jairinho deu ‘banda e chute’ em Henry
Monique narrou as mensagens que trocou com a babá Thayná Ferreira no dia 12 de fevereiro, quando ocorreu um dos episódios de tortura investigados pela polícia de Jairinho contra Henry.
Na ocasião, os relatos são de que Jairinho se trancou no quarto com Henry, que saiu cinco minutos depois mancando e reclamando de dores na cabeça. Monique diz que Jairinho mentiu que chegou em casa apenas horas depois, enquanto a babá relatava a movimentação dele pela casa.
” Ela contou que o Jairinho tinha chamado o Henry para ver o que ele tinha comprado. O Jairinho sabia que não queria que ele ficasse sozinho com o Henry. E ela disse: ‘Acho melhor você vir’ “, contou Monique.
A mãe de Henry disse que tentou entender o que tinha acontecido com a criança naquele dia, enquanto estava no salão de beleza de um shopping próximo ao condomínio Majestic, onde morava com Jairinho.
“Nunca imaginava que ele tinha sofrido uma tortura nesse dia, achei que ele (Jairinho) tinha feito comentários contra o meu filho, que era muito sensível”, comentou.
Segundo Monique, Thayná contou posteriormente que, segundo Henry, Jairinho “deu uma banda e chutou ele”, dizendo ainda que a criança atrapalhava a mãe.
O júri do caso Henry Borel chega ao 9º dia. Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, acusado de agredir a criança, foi retirado do plenário no início do interrogatório dela.
Episódios de traição e agressão
Monique disse que, logo no início do relacionamento, recebeu uma mensagem numa rede social de Débora. Ela dizia que ela e Jairinho também estavam namorando. Monique, então, resolveu fazer uma ligação para esclarecer os fatos:
“Débora disse que estava num relacionamento com Jairo havia seis anos, e ele desmentiu ela. “Eu acreditei nele, mas fiquei com o pé atrás. Ela começou a me mandar prints, dizendo que tinha batido nela, que ele a tinha perseguido. Eu não acreditei, e eu e Jairinho voltamos a namorar”, relatou Monique.
A mãe de Henry contou que, em novembro de 2020, quando estava dormindo na casa dos pais em Bangu, na Zona Oeste, acordou com Jairinho a enforcando depois que ele teve uma crise de ciúmes.
“Ele pulou o muro da casa dos meus pais, acordou me enforcando, jogando o telefone na minha cara porque tinha visto mensagens do Leniel comigo. Ele tinha a minha senha. Eu não tinha a senha dele, e eu descobri que ele tinha outras mulheres enquanto estava comigo”
Monique relatou que, no dia seguinte, Jairinho pediu desculpas, alegando que estava embrigado, e o relacionamento continuou.
Jairinho será ouvido depois de Monique
Uma decisão da 7ª Câmara Criminal do Rio determinou que Jairinho só seja interrogado depois da ex-namorada e corré.
O pedido foi feito pelos advogados Rodrigo Faucz e Alanis Matzembacher, que argumentaram que Monique acusa o ex-vereador de ter cometido o crime sozinho e, por isso, o depoimento dela antes do dele é essencial para que a defesa possa conhecer integralmente as acusações e se manifestar de forma adequada.
Antes do início do julgamento, o advogado de Monique, Hugo Novais, afirmou que ela não deixará de responder a nenhuma pergunta. “Monique vai responder a tudo que for perguntado, evidentemente que de maneira estratégica”.
Segundo o advogado, Monique foi levada a júri por machismo e misoginia. “Por uma visão distorcida, por uma ótica de misoginia, de machismo, se atribuiu uma responsabilidade penal a uma mulher, pautado único, exclusivamente, num comportamento que se deveria ter, mas que não foi correspondido, dizendo que uma mãe foi ao salão depois do enterro do filho”, ressaltou Novais.
Até 10h de debate
Após os interrogatórios dos réus, começam os debates entre acusação e defesa. Nessa fase, o Ministério Público e os assistentes de acusação terão entre 2h30 e 3h para apresentar aos jurados suas teses sobre o caso.
As defesas também terão um período igual para sustentar seus argumentos. Como há dois réus, Jairinho e Monique Medeiros, os advogados precisarão dividir esse tempo entre as duas bancas de defesa.
Depois das sustentações iniciais, a acusação poderá fazer uma réplica, com duração de até 2h. Em seguida, as defesas terão direito à tréplica, também de até duas horas (1h para cada réu).
Somadas todas as manifestações, a fase de debates pode ultrapassar dez horas e se estender por grande parte de um dia de julgamento.
Depois do debate, os sete jurados do Conselho de Sentença responderão quesitos sobre materialidade e autoria dos crimes. Os quesitos são formulados de forma distinta para cada um dos réus.
A decisão é tomada por maioria de votos. Quando a votação for concluída, a juíza Elizabeth Machado Louro chamará todas as partes e vai proferir a sentença, estabelecendo a dosimetria das penas.
22 testemunhas ouvidas
Até a segunda-feira (1), 22 testemunhas foram ouvidas: 13 de acusação e 9 pelas duas defesas. Durante o julgamento, cinco testemunhas foram dispensadas pelos advogados de Monique e Jairinho.
Desde o início da sessão, no dia 25 de maio, testemunhas de acusação, peritos, policiais, profissionais de saúde, ex-companheiras de Jairinho e pessoas que conviveram com o casal apresentaram versões e informações que ajudam a reconstruir os últimos meses de vida da criança.
