Uma lenda urbana eterna

dezembro 21, 2020 /

 

*Vicente Loureiro

 

 

Com o bordão “está deserto e adormecido o gigante do Maracanã”, o saudoso Waldir Amaral encerrava as transmissões  de jogos de futebol, pelo rádio, no velho maraca. Nunca duvidei da veracidade de despedida tão esfuziante. Afinal tratava-se do “maior e mais belo estádio do mundo”. Isto até a FIFA, em 2014, com seu famigerado caderno de encargos, exigir a redução de sua capacidade,  pondo fim a um singelo motivo de orgulho de gerações de brasileiros amantes do
“velho esporte bretão”.

O Grande Strahov, em Praga

Maracanã, 1950

Descobri outro dia, meio sem querer, que esta propalada grandeza do Estádio Mario Filho sempre foi uma espécie de lenda urbana. Essas pequenas histórias de cunho sensacionalista, que de tanto serem difundidas oralmente, pela imprensa e agora pelas redes sociais, transformam-se em verdades incontestáveis. Não me lembro de ter visto alguém questionar o Maracanã ser considerado o maior do mundo. O fato dele ter recebido cerca de 200 mil pessoas, na final da copa de 1950, não deixava dúvidas. Nunca um jogo de futebol havia recebido ou receberia um público tão grande.

Arquitetura de escala monumental e desafios de engenharia vencidos, para pôr de pé uma gigantesca estrutura de concreto armado, em tempo recorde para tecnologia disponível a época, acentuavam um sentimento ufanista de que poderíamos ser maiores e melhores e não só no futebol. Uma prova contundente estava alí, a encantar e inflar o ego patriótico de toda uma nação.

Por isso, foi surpreendente saber que nosso querido Maracanã  nunca foi o maior estádio futebol já construído no mundo. Um outro gigante chamado Grande Strahov, edificado em Praga entre as décadas de 20 e 30 do século passado, teria capacidade para 220 mil espectadores, sendo 56 mil deles sentados. Considerado oficialmente a segunda maior estrutura já produzida para abrigar eventos esportivos. Menor apenas que o autódromo de Indianápolis nos Estados Unidos da América.

Difícil aceitar que nove campos de futebol, instalados num retângulo de aproximadamente 310 por 200 metros, cercado de arquibancadas por todos os lados, configure de fato um estádio de futebol. Dizem, inclusive os críticos, que esta mega estrutura poderia receber ao mesmo tempo a rodada inteira do campeonato tcheco da primeira divisão. Na verdade, mesmo que tal geringonça tenha lotado um dia, é de duvidar que possa ter produzido emoção e calor humano que qualquer um dos memoráveis FLA x FLUs, eternizados no palco de grandes espetáculos de futebol, no qual nosso maraca se consagrou.

Pode até ser que ele não tenha sido nunca o maior do mundo. E por conta disso, tenha virado lenda urbana ou não. Seguirá sendo o mais reverenciado estádio de futebol de todos os tempos. Assim reza a lenda. E ponto final.

 

*Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista, doutorando em urbanismo na Universidade de Lisboa e autor do Livro Prosa Urbana